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editorial

Tragédia brasileira

 
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Um problema que parecia ser de natureza “leve” (e assim sempre tinha sido considerado pelas autoridades sanitárias brasileiras) mostra agora sua face cruel: o zika vírus se espalhou indiscriminadamente a ponto de causar alarme também fora do Brasil, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. Isso porque ele foi identificado como causador de microcefalia, uma má-formação que faz com que bebês nasçam com a circunferência da cabeça menor do que 32 centímetros, podendo afetar seu desenvolvimento e causar dificuldades motoras, cognitivas e de aprendizado.

Em todos os casos de microcefalia registrados até agora, as mães dos bebês tinham sido contaminadas pelo vírus durante a gravidez, vítimas de picadas do mosquito Aedes aegypti, o mesmo que transmite a dengue, a febre chikungunya e a febre amarela. Embora estejam em fases experimentais, não há ainda vacinas capazes de prevenir as doenças, assim como são por enquanto reduzidos os resultados de promissoras alternativas que procuram, por meio de modificações genéticas, diminuir ou eliminar a proliferação do mosquito. O único remédio que realmente poderia apresentar resultado eficaz é o combate direto ao Aedes.

Sem a conscientização da população, nada que o poder público faça surtirá efeito

A reação governamental neste sentido tem sido patética. Como se não bastasse a demora para tomar consciência da gravidade do problema, os brasileiros ainda tiveram de ouvir seu ministro da Saúde fazer graça com o caso, dizendo esperar que as brasileiras se contaminassem com o zika antes de chegar à idade fértil. O colunista Elio Gaspari recordou que o governo federal havia anunciado a meta irreal de visitar até o fim de janeiro todas as casas do país atrás de focos do Aedes. Como obviamente não foi cumprido, o prazo foi prorrogado. Em dezembro, lembra o colunista, a presidente Dilma Rousseff assinou um decreto criando uma “Sala Nacional de Coordenação e Controle”, como se mais burocracia fosse a solução contra o mosquito.

E pensar que o Brasil já esteve livre do Aedes aegypti. O processo de combate ao mosquito foi iniciado pelo sanitarista Oswaldo Cruz no início do século 20 e, em 1955, o Brasil havia erradicado o inseto. Mas o mesmo não ocorreu em outros países e, graças ao incremento da mobilidade das pessoas, o Aedes voltou – e, com ele, as doenças que transmite.

Se repetir o feito do século passado parece hoje mais complicado, os meios modernos de difusão de informações, assim como estruturas mais complexas e completas de vigilância, certamente facilitam o combate ao Aedes e a prevenção das doenças, tarefas que devem ser cumpridas não apenas pelas autoridades sanitárias, mas, sobretudo, pela via da orientação e conscientização de toda a sociedade. Afinal, além dos métodos de extermínio normalmente utilizados pelos órgãos de vigilância sanitária, há outro que depende exclusivamente da educação da população.

Campanhas de esclarecimento, principalmente nas regiões mais suscetíveis à presença e proliferação do Aedes aegypti, são absolutamente vitais para que sejam eliminados os “berços” naturais de reprodução e multiplicação do inseto – isto é, a água parada e o acúmulo de lixo em residências, quintais e terrenos baldios. À ineficácia governamental, infelizmente, é preciso somar o descaso de tantos brasileiros que, por descuido, ainda permitem a existência de criadouros do mosquito em suas casas. Sem essa conscientização, nada que o poder público faça surtirá efeito, e continuaremos a conviver com mais essa tragédia brasileira.

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