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De volta à realidade

Comissionados, empresários ou no desemprego: a vida dos ex-vereadores de Curitiba

Sem mandato, seis ex-vereadores estão nomeados em cargos em comissão; os outros retornaram aos antigos empregos ou ainda seguem no desemprego

  • João Frey
Do canto esquerdo alto, em sentido horário: Professor Galdino, Carla Pimentel, Paulo Salamuni e Aladim Luciano | Montagem: Jonathan Campos, Antônio More e Henry Milléo/Gazeta do Povo
Do canto esquerdo alto, em sentido horário: Professor Galdino, Carla Pimentel, Paulo Salamuni e Aladim Luciano Montagem: Jonathan Campos, Antônio More e Henry Milléo/Gazeta do Povo
 
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“Não sou vereador, estou vereador” é frase corrente na boca dos legisladores municipais. Dita em entrevistas e discursos, num tom republicano, passa-se mesmo a ideia de compreensão da alternância de poder. Acontece que tem horas que a alternância se impõe, de fato, e o político que tinha sete assessores à disposição, carro e combustível pagos pelos contribuintes e ligações se enfileirando no celular precisa bater cartão, atender pedidos da chefia ou ceder a caprichos e exigências de clientes.

No dia primeiro de janeiro de 2017, 15 ex-vereadores de Curitiba precisaram enfrentar esta mudança. Oito meses depois, a maior parte dos ex-parlamentares já conseguiu uma nova fonte de renda ou retomou as ocupações que exerciam antes do mandato.

Sem mandato, mas ainda na política

Seis dos vereadores que não voltaram à Câmara Municipal em 2017 ocupam cargos em comissão nos poderes públicos municipal e estadual. Na prefeitura estão Chico do Uberaba (PMN), que foi quem preparou o partido para a filiação e posterior candidatura de Rafael Greca. Desde o começo do ano, o ex-vereador ocupa um cargo no gabinete do prefeito, com remuneração mensal de R$ 17,7 mil.

José Carlos Chicarelli (PSDC), que também foi derrotado nas eleições de 2016 e foi aliado de primeira hora de Greca também encontrou um espaço para trabalhar no Executivo Municipal. Na Secretaria do Meio Ambiente ele tem rendimento mensal de R$ 9,9 mil.

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A Assembleia Legislativa também emprega vereadores que deixaram o mandato no fim de 2016. Tiago Gevert (PSC) está lotado na 1ª vice-presidência da Casa, ocupada pelo deputado Guto Silva (PSD). Segundo Gervert, suas atribuições no novo cargo envolvem a articulação política para o grupo que integra – ligado ao secretário de Desenvolvimento Urbano, Ratinho Junior (PSD). Para isso, o ex-vereador recebe, mensalmente, R$ 19,5 mil, de acordo com o Portal da Transparência da Assembleia. Gevert afirma que também está construindo sua candidatura ao cargo de deputado estadual, em 2018.

Ex-presidente da Câmara, Ailton Araújo (PSC) também integra o quadro de servidores comissionados da Assembleia. Com um salário mensal de R$ 11,3 mil, Araújo assessora o deputado Gilson de Souza (PSC), pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular, a mesma onde Araújo é pastor auxiliar. Segundo o ex-vereador, ele é responsável por representar o deputado em reuniões e eventos e também pela articulação política, especialmente com o grupo político formado pela igreja que integram, que em Curitiba também conta com um vereador, Dr. Wolmir (PSC).

Apesar de ainda ocupar uma função pública, Araújo conta que fora do mandato de vereador a rotina ficou muito mais tranquila, especialmente depois de deixar as funções administrativas como presidente da Câmara. “Fiz uma festa quando entrei e duas quando saí”, brinca.

Também nomeado na Assembleia, Dirceu Moreira (PSL) tem enfrentado um câncer desde o final do mandato como vereador. A luta contra o Linfoma de Hodgkin já dura dois anos e, segundo Moreira, as dez sessões de quimioterapia que já fez têm debilitado sua saúde. Ainda assim, o vereador trabalha para a Comissão de Constituição e Justiça do Legislativo Estadual, com um salário de R$ 12,5 mil, e planeja ser candidato ao cargo de deputado estadual nas eleições de 2018. Segundo Moreira, a experiência na vereança tem sido fundamental para a articulação política e para a sugestão de projetos de lei.

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Edson do Parolin (PSDB), que assumiu o mandato somente em 2016, depois da renúncia do pastor Valdemir Soares – que depois de ser flagrado votando por um colega mudou-se para Manaus (AM) – ocupa um cargo em comissão na Casa Civil do governo do Paraná. Segundo ele, o cargo com salário de R$ 8,9 mil tem sido usado para “continuar brigando pelos direitos da comunidade do Parolin”.

Dificuldade em conseguir emprego

Desde que saiu da Câmara Municipal Professor Galdino (PSDB) tem tido dificuldades em conseguir uma recolocação profissional. Segundo um ex-assessor, Galdino procurou emprego como professor em diversas escolas da cidade. Sem sucesso, o ex-vereador procurou trabalho em uma pastelaria no Centro da cidade. O dono da lanchonete não disse por qual motivo não o admitiu, mas confirmou o pedido de emprego e informou à reportagem que é amigo de Galdino e que já o conhece há tempos. Galdino é cliente antigo da pastelaria e já expressou nas redes sociais sua preferência pelo sabor “especial”, que leva carne, palmito, presunto, queijo, tomate cebola milho verde e azeitona e sai por R$ 11.

O ex-vereador, que foi acusado de assédio por uma colega vereadora e chegou a ter o mandato suspenso, não foi encontrado pela reportagem para comentar sua rotina pós-Câmara. Segundo ex-assessores, Galdino foi para um sítio no estado de São Paulo, passar uma temporada com a mãe. O irmão, Edu Galdino, que foi candidato a vereador em 2016, confirmou a informação e disse que dentro de 15 dias o ex-parlamentar estará de volta à Curitiba, depois de passar também por um retiro espiritual.

Cumprindo expediente público

Servidores públicos concursados, Paulo Salamuni (PV) e Pedro Paulo (PDT) – que eram os principais defensores do governo do ex-prefeito Gustavo Fruet (PDT) na Câmara Municipal – voltaram às antigas funções.

Pedro Paulo voltou a dar aulas de história e geografia na rede pública municipal, onde ingressou em 1988. Atualmente, o ex-vereador leciona na escola de ensino fundamental, Albert Schweitzer, na Cidade Industrial de Curitiba (CIC).

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Já o ex-presidente da Câmara, Paulo Salamuni, retomou a carreira de procurador municipal e tem cumprido seu expediente na procuradoria fiscal do município. Assim como o outro ex-presidente, Aílton Araújo, Salamuni afirma que a vida ficou mais tranquila longe da Câmara, “o que está sendo bom para colocar a leitura em dia”, disse.

De volta às antigas profissões

A rotina de seis ex-vereadores tem passado longe da vida pública – ainda que alguns estejam buscando uma oportunidade para retornar à política. Carla Pimentel (PSC), por exemplo, retomou as funções de missionária da igreja Assembleia de Deus e também tem dado palestras sobre empoderamento feminino. A ex-vereadora, entretanto, é suplente de deputado estadual e está aguardando o resultado de um requerimento para assumir o mandato do deputado Ricardo Arruda, a quem acusa de infidelidade partidária, por ter saído do PSC, partido pelo qual foi eleito, e migrado para o PEN.

Zé Maria (SD) segue gerenciando a construtora de imóveis que tem há 35 anos – o que fez também durante os anos de mandato. A diferença é que, fora da Câmara, com mais tempo para se dedicar ao trabalho privado, Zé Maria diversificou os negócios. Ele agora atua também no projeto de expansão da empresa de cosméticos que é de sua família há 13 anos. Responsável pelas vendas para novos mercados, o ex-vereador não hesitou em relatar à reportagem os bons resultados que a argila branca vulcânica tem no combate à celulite. “É excelente para preparar o corpo para o verão”, afirmou.

Jonny Stica (PDT), que presidia a Comissão de Urbanismo da Câmara, montou um escritório de arquitetura e tem feito projetos de residências e edifícios, além do gerenciamento de obras. O ex-vereador disse estar feliz com os rumos da vida profissional, mas reclamou da situação financeira do país, que tem dificultado a expansão dos negócios, e também relatou problemas com a burocracia estatal. “É difícil ter um CNPJ, pelos impostos, custo Brasil e burocracia”, disse. Além dos projetos arquitetônicos, Stica também tem atuado na área de urbanismo, levando a experiência como relator do Plano Diretor de Curitiba para buscar soluções para problemas de cidades do interior do Paraná.

Mesmo longe da Câmara, o vereador Jorge Bernardi (Rede) segue dedicado a questões políticas e legislativas, mas do ponto de vista acadêmico. Em setembro ele vai defender sua tese de doutorado na área de gestão urbana. O tema é ligado à atuação da Câmara Municipal, relatou o ex-vereador à reportagem em uma ligação telefônica atendida durante uma reunião com seu professor orientador: “A condição metropolitana municipal: processo legislativo e a composição de municípios na Região Metropolitana de Curitiba”. Profissionalmente, Bernardi retomou a carreira de professor universitário e também é vice-reitor da Uninter.

Aladim Luciano (PV) e Aldemir Manfron (PP) foram os mais taxativos em dizer que estão fora da política definitivamente. Manfron está se dedicando às plantações de milho e soja que tem no interior da Bahia. Na Câmara ele já costumava acompanhar as sessões plenárias com um olho na discussão legislativa e outro no preço das commodities agrícolas. Mesmo com a esposa, Maria Manfron (PP), tendo sido eleita para a Câmara, o ex-vereador garante querer distância do parlamento.

Aladim Luciano passa os dias trabalhando em sua padaria, fundada em 1985 e localizada no bairro Bacacheri, e garante ter “pendurado as chuteiras” definitivamente.

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