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Rodrigo Constantino
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70 anos da bomba nuclear em Hiroshima: alguém consegue defendê-la?

A bomba nuclear lançada em Hiroshima completa 70 anos, e o Japão recorda o trágico evento com uma campanha pelo fim das armas nucleares. A difícil decisão do governo dos Estados Unidos já foi muito usada por pacifistas bem-intencionados e antiamericanos patológicos para condenar o país que lutava pela liberdade naqueles tempos (ou alguém acha que o mundo estaria melhor com a vitória japonesa e nazista?). Afinal, como alguém pode defender ou justificar a decisão de jogar uma bomba atômica no inimigo?

É, sem dúvida, uma postura muito inglória, ainda mais com tanta distância do contexto daquela época. Mas algumas pessoas têm a coragem de deixar a demagogia de lado e resgatar alguns fatos, para qualificar melhor o debate. É o caso de Andrew Roberts, que publicou nesta quarta um artigo no WSJ argumentando que a bomba salvou vidas. Pode parecer paradoxal ou mesmo absurdo à primeira vista, mas o autor de The Storm of War: A New History of the Second World War tem um ponto.

Seria Truman um “criminoso de guerra”, como alega o apresentador Jon Stewart e tantos outros, especialmente da esquerda? Roberts diz que não, e que em suas memórias, o então presidente americano estimava em meio milhão o número de mortes de americanos caso o Japão não capitulasse. O Secretário de Guerra Henry L. Stimson e o Secretário de Estado James Byrnes achavam a estimativa otimista, e calculavam em até um milhão as perdas civis caso a guerra continuasse. Havia, então, a possibilidade de o Japão se render sem a bomba?

Eis a pergunta sincera que todos devem fazer. E para quem está a par da mentalidade japonesa há 70 anos, saberá que a resposta, muito provavelmente, é “não”, os japoneses não iriam se render sem as bombas de Hiroshima e Nagasaki. O autor apresenta seus motivos para crer nisso, e eles vão na linha do que já disse aqui também, tentando colocar o debate dentro do contexto realista e sem sensacionalismo:

A insanidade de um império

Quando falamos em Hiroshima e Nagasaki, é natural tomarmos o partido do lado perdedor, dos inocentes que tanto sofreram com as bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos no fim da Segunda Guerra Mundial. Mas, apesar de natural, será que é justo condenar somente os vizinhos do Norte por tamanha desgraça?

Por desinformação de alguns, costuma ser repetida a falácia de que tais bombas eram completamente desnecessárias, pois a rendição japonesa era iminente. Este artigo pretende resgatar certos fatos históricos para melhor iluminar um tema tão delicado, que mexe com profundas feridas. Não é meu objetivo, entretanto, justificar os alvos em si, repletos de civis inocentes, mas apenas destacar o contexto histórico dessa tragédia. Cada um que julgue por si próprio.

O grande alvo que motivou o Japão a partir para sua conquista imperial mundo afora, culminando na guerra, foi o petróleo. A escassez do produto preocupava os estrategistas japoneses, e para garantir a sua supremacia no oriente, alegava-se a necessidade da conquista de determinados pontos cruciais na produção e rota de escoamento do ouro negro.

A defesa de Manchúria era considerada estratégica pelo país, que temia as ameaças do comunismo russo e nacionalismo chinês. A Liga das Nações, entretanto, condenou o Japão pelas suas violentas ações na região, e tentou usar o embargo do petróleo como arma para forçar uma mudança no rumo dos eventos. Não surtiu efeito, e quando a China bombardeou uma estação naval japonesa, ambos entraram em guerra, em 1937.

O governo americano baniu a exportação de ferro e aço para o Japão, que assinou no dia seguinte o Pacto Tripartite, com Hitler e Mussolini. Depois disso, o Japão se lançou rumo à conquista asiática. Em 1942, a ilha já controlava vastos recursos do sudeste asiático, principalmente o petróleo.

A base militar americana que ficava na Califórnia foi transferida para Pearl Harbor, no Havaí. A marinha japonesa iniciou, então, um plano de ataque surpresa neste local. A cabeça por trás dos planos era Yamamoto, um comandante japonês que havia estudado em Harvard, porém um fervoroso nacionalista devotado ao imperador.

A “Operação Hawaii” iria culminar na maior humilhação americana de todos os tempos. No mesmo momento em que Pearl Harbor era severamente atacado, o Japão bombardeava a Tailândia, Filipinas e Cingapura. Estima-se em mais de 2 mil militares americanos mortos na noite do ataque, assim como 68 civis. Os Estados Unidos, até então uma nação dividida entre declarar ou não guerra, agora estava unida e em guerra. Os japoneses objetivavam abalar a moral da nação, mas o tiro saiu pela culatra.

Durante as batalhas, a frota de submarinos americanos iria ter papel fundamental na derrota japonesa. Os alvos principais eram os petroleiros, para cortar o suprimento de combustível japonês. O desespero do Japão foi tanto que a pressão interna levou o consumo de gasolina em 1944 para 257 mil barris apenas, ou 4% do volume consumido em 1940.

A batalha nas Filipinas, em Outubro de 1944, seria um importante marco na guerra, representando uma derrota devastadora para o Japão. Em um reflexo insano, o Japão iria introduzir uma nova arma na guerra, os kamikazes, pilotos suicidas que se explodiam em navios americanos. Em 1945, entretanto, os americanos já tinham recuperado Manila nas Filipinas, e o fim se aproximava para o sonho megalomaníaco japonês. Cidades japonesas estavam em ruínas.

Porém, a possibilidade de rendição estava longe de ser cogitada pelo império japonês, cujo slogan ainda era “100 milhões de pessoas unidas e prontas para morrer pela nação”. Não havia aparentemente nada nesse mundo capaz de levar o Japão a capitular. Para demonstrar tal espírito, a resistência japonesa à invasão americana de Okinawa foi totalmente fanática, com elevadíssimo índice de mortos em ambos os lados. Até mesmo crianças estavam sendo ordenadas a assassinarem americanos.

Extrapolando a experiência, os americanos estimaram em até 1 milhão de possíveis perdas de militares em outros ataques, fora milhões de civis. Tal batalha sangrenta contribuiu enormemente na decisão americana de usar sua mais nova arma, a bomba atômica. Mas os aliados ainda tentaram um acordo, que permitia até a retenção do imperador japonês no comando da nação. Tóquio não aceitou.

Em 6 de Agosto de 1945 a primeira bomba atômica explodiu em Hiroshima, seguida pela outra no dia 9 em Nagasaki. Inacreditavelmente, mesmo sob tais circunstâncias vários militares japoneses se recusavam a se render, sendo o suicídio a única alternativa oferecida aos seus subalternos. Na noite do dia 14 de Agosto, o imperador gravou uma mensagem de rendição, e soldados insurgentes ainda tentaram invadir o palácio para evitar a transmissão do seu conteúdo. Mas não obtiveram sucesso, e a guerra no Pacífico chegara ao fim.

Após o término da guerra, o Japão estava completamente devastado, com suas indústrias em ruínas e escassez generalizada de alimentos. A ocupação dos aliados, comandados pelos americanos, durou até 1952, e reformou por completo o país. Uma nova Constituição foi criada em 1947, retirando poderes do imperador, e o sufrágio universal foi introduzido, assim como outros direitos humanos garantidos. Era o começo de uma nova era, com muito mais liberdade para o povo, agora liberto da insanidade de um império, que custou a vida de milhões de inocentes.

O restante já sabemos. O Japão se tornou a segunda maior economia do mundo. A ocupação americana nunca almejou um domínio imperialista. Ao contrário: ela serviu para diluir o poder imperial que asfixiava a liberdade dos japoneses.

Antes de usarmos essa tragédia para justificar o fim das armas nucleares, portanto, seria bom pensar em quem abriria mão das armas. Se os Estados Unidos voluntária e deliberadamente acabassem com seu arsenal hoje, alguém acha mesmo que o mundo ficaria mais seguro e a paz mundial teria maiores chances? Com Rússia? Com Irã em busca da sua e sob a negligência de Obama, que acha possível conversar com eles sem a pressão em seus cangotes? Com Coreia do Norte?

Os românticos pacifistas, com suas boas intenções, acabam agindo como inocentes úteis a favor dos antiamericanos patológicos, que têm um interesse muito claro em enfraquecer a potência que, historicamente, sempre esteve do lado certo das disputas, defendendo o mundo livre e democrático. Foi assim contra o nazismo e o império japonês na Segunda Guerra. Foi assim contra os comunistas na Guerra Fria. É assim contra os terroristas islâmicos hoje. Não sei quanto ao leitor, mas prefiro os Estados Unidos armados do que desarmados. Durmo mais tranquilo…

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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