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Rodrigo Constantino

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“Coxinhas paneleiros” virando ala de escola de samba?

Por Lucas Berlanza, publicado pelo Instituto Liberal

Provavelmente não são estranhas aos nossos leitores provocações do gênero: “esses coxinhas que bateram panela são uns alienados; bateram tanto, e agora? Taí o Temer. Estamos piores do que antes e perdendo os nossos direitos”. Em geral, quem o diz são pessoas cuja apreciação do cenário é completamente fora de propósito. Pois agora essa provocação sarcástica será feita em um desfile de escola de samba, neste Carnaval de 2018.

Uma fantasia da agremiação carioca Paraíso do Tuiuti, com o enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?” – transformando em pergunta o memorável verso exclamativo do clássico samba-enredo da Unidos de Lucas de 1968, “Sublime Pergaminho”, que homenageava a Lei Áurea -, representará os manifestantes contra o governo Dilma (ou seja, nós), trajando a roupa da seleção brasileira, envoltos no icônico pato da FIESP, promovendo o “panelaço”. Mais do que isso: uma mão gigante estará no topo da fantasia ligada por “teias” ao desfilante. A mensagem é clara: fomos todos marionetes do “neoliberalismo” sem opinião própria, desinformados e acéfalos pela “direita capitalista” – tal sátira, diga-se de passagem, numa apresentação que, certamente, terá alguns milhões de orçamento.

O noticiário carnavalesco dá conta ainda de que, em seu enredo que reflete sobre a escravidão antiga, o Tuiuti trará uma ala satirizando a Reforma Trabalhista e uma alegoria com o presidente Temer na forma de um vampiro, naturalmente querendo significar que a superação de antigos entraves nas relações empregatícias, formalizando situações que já existiam, e coisas como a extinção do maldito imposto sindical significam, de algum modo, a continuação da escravidão da época de Isabel, a Redentora, nos 1800 e tantos. As informações não foram desmentidas – escrevo este texto antes do desfile.

Sinto-me confortável em escrever sobre isso, ainda que de qualquer maneira alguém vá dizer que se trata de texto da lavra de um “reacionário contra a cultura popular”, por ser um confesso apaixonado por escolas de samba e, inclusive, o carnavalesco do Tuiuti, Jack Vasconcelos, já trabalhou na minha escola de coração, a União da Ilha, levando-a de volta ao Grupo Especial com o título da segunda divisão. Considero um artista bastante talentoso no que faz. Não há qualquer justiça em dizer, portanto, que escrevo para colocar o povo contra os desfiles ou qualquer estultice similar. Porém, se um artista – sobretudo com dinheiro público, discussão em que não entrarei no momento – está colocando seu trabalho às vistas de todos, precisa aceitar que o cidadão manifeste seu desagrado e suas críticas.

Enredos críticos e politizados não são absoluta novidade nas escolas de samba. Em geral, de tom adesista. As escolas de samba já exaltaram o comunista Luiz Carlos Prestes (tendo havido uma aproximação de algumas escolas com o PCB), o ditador Getúlio Vargas (durante e depois do Estado Novo), o grande tribuno udenista Carlos Lacerda (quando foi governador do extinto Estado da Guanabara), o regime militar (a Beija-Flor de Nilópolis), o prefeito Eduardo Paes (o desfile sobre o “choque de ordem” da São Clemente) e pediram as eleições diretas para presidente (a Caprichosos de Pilares, mas quando já havia um amplo movimento nesse sentido e o governador do Rio era o esquerdista Leonel Brizola).

A Mocidade Independente de Padre Miguel, em 2016, fez uma encenação que sugeria a prisão de Lula e Dilma na comissão de frente (de certo modo, também pegando carona no antipetismo, que tivemos orgulho de expressar nas ruas). Não considero que a função delas seja protestar ou passar recados políticos, mas, de todo modo, quando o fizeram, em geral foi seguindo correntes estabelecidas na atmosfera social e cultural ou agradando alguma liderança política no poder no momento do desfile.

Jack está sendo muito mais explícito do que isso, mas também não há grande valentia em sua manifestação. Não é nada muito fabuloso, convenhamos, alvejar um presidente que tem rejeição tão grande quanto Temer, como se isso fosse uma extrema ousadia. O absurdo de comparar, de algum modo, por remoto que seja, a Reforma Trabalhista (necessária) com a escravidão, reputo como uma ofensa grave a todos os nossos antepassados que padeceram o suplício das senzalas. A esquerda se acostumou a vociferar o mantra da “dívida histórica”, mas se alguma “dívida histórica” há, é a que se acaba de contrair ao fazer esse tipo bizarro de comparação. Nisso, aliás, os concebedores do desfile do Tuiuti se assemelham, vejam só, a uma ministra de Temer, a inolvidável Luislinda Valois, que considera sua vultosa situação uma variante do “trabalho escravo” por não poder acumular rendimentos. Nos dois casos, verifica-se uma impensável afronta a todos aqueles que realmente foram tratados como propriedades de seus “senhores”.

Só a abolição do imposto sindical, pela qual a UDN tanto lutou desde os anos 40, é uma verdadeira libertação dos brasileiros do domínio do peleguismo, e vem, ao menos até o momento assim parece, no bojo da Reforma. A analogia deveria celebrar tamanha conquista, para ser minimamente coerente com os fatos. Representar-nos como alienados paneleiros porque protestamos contra o petismo é outro contrassenso.

Tratou-se ali de desafiar uma força política que defende a regulação da mídia – leia-se censura. Que irrigou com vastas somas em dinheiro o bolivarianismo latino-americano. Um regime que patrocinou a ditadura de Maduro na Venezuela, que hoje escraviza os venezuelanos ao horror, à miséria e à matança. Por acaso não é esse macaqueio socialista a maior das escravidões? Lotamos as ruas precisamente porque sabíamos que o que ocorria no Brasil encaminharia para a perpetuação no poder essas forças que querem destruir todas as nossas liberdades fundamentais. A corrupção dos fisiológicos peemedebistas pode ser moralmente execrável, mas não se equipara a isso. Basta ter olhos de ver e estar disposto a compreender o mínimo senso de proporções.

Portanto, ao que tudo indica, o Tuiuti terá um dos melhores sambas do ano, mas Jack Vasconcelos não trará para o enredo de sua escola a verdadeira escravidão moderna. Concluirá, em vez disso, com analogias sem sentido e uma agressão gratuita a todos nós. Se as escolas de samba quiserem – e creio que querem – voltar a conquistar a projeção que outrora tiveram, sinceramente não me parece que esse seja o melhor caminho.

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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