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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Defender a monarquia é mesmo algo irracional?

Lendo a notícia na Gazeta de que um grupo monarquista estendeu a bandeira imperial no Congresso, lembrei imediatamente da coluna de Helio Schwartsman na Folha este fim de semana, em que clama pelo fim do regime monárquico, um resquício da era irracional, segundo ele. Diz Helio:

A monarquia é, a meu ver, um dos mais chocantes paradoxos da modernidade. Como é que, em pleno século 21, no qual a igualdade se tornou um dos principais objetivos perseguidos tanto no campo econômico como no político, algumas das mais avançadas sociedades do planeta, como Reino Unido, Holanda, Suécia, Noruega, ainda mantêm uma instituição que tem como ponto de partida a distinção jurídica entre nobres e plebeus? Não só a mantêm como ainda pagam para sustentá-la.

E é até mais grave do que parece. Se, no plano da economia, ainda dá para argumentar que é preciso permitir alguma desigualdade –quem produz mais ou tem melhores ideias ganha mais– para assegurar o dinamismo do mercado e estimular o crescimento, nada parecido ocorre na política. Não vejo aqui nenhum raciocínio para justificar que um grupo de pessoas, apenas por ter nascido numa família, goze de um estatuto jurídico diferente daquele conferido ao restante dos cidadãos.

No Reino Unido ainda existe a Casa dos Lordes, reservada a nobres, e que conserva funções legislativas.

Num mundo um pouco mais racional, a discussão não seria em torno de a monarquia estar ou não se modernizando, mas sim sobre a extinção desse fóssil institucional. Acredito, porém, que nosso essencialismo inato somado a alguns milênios de propaganda pró-monárquica, em que príncipes e princesas são sempre retratados como heróis, nos fizeram perder a cabeça. 

Confesso ao leitor: tenho certa implicância com quem sempre tenta parecer acima dos demais seres humanos, como detentor de uma racionalidade toda ímpar, uma imparcialidade científica impecável, uma isenção fria e calculista de quem só mede as coisas com base na razão, deixando as emoções de fora. Chesterton já disse que o louco não é aquele que perdeu a razão, mas aquele que perdeu tudo menos a razão.

Como o próprio Helio reconhece que vários países desenvolvidos são monarquias (na verdade, a maioria), não seria o caso de ele ter mais humildade epistemológica e admitir que pode haver algo útil e interessante ali?

Não soa arrogante ele chamar essa gente toda de “irracional”, de pessoas com a mente fossilizada que precisam de uma luz, aquela que ele enxergou? Seria essa inércia apenas fruto da propaganda mesmo, ou haveria algo mais que nossa (e dele, do Helio) limitada razão não pode apreender de forma tão simplista assim?

O simples fato de tanta gente claramente inteligente, preparada e com boas intenções defender ou ter defendido tal sistema não seria motivo suficiente para cautela na hora de ridicularizar os seus defensores atuais?

Pela “razão pura”, gostaria que o Helio Schwartsman explicasse porque manter o futebol, por exemplo. Qual a lógica? No limite, por que termos fronteiras nacionais? O patriotismo seria certamente outro candidato a desaparecer num mundo “mais racional”, a contento do colunista da Folha, não? E o sonho dos utopistas metidos a racionais, com suas cabeças de teorias abstratas, seria o pesadelo de milhões. Racional? Tem certeza?

Pois me parece mais racional reconhecer os limites da própria razão, e admitir que as emoções têm um papel importante em nossas vidas, e que nem sempre podem ser filtradas pela lente da razão (ainda bem!). Pascoal resumiu bem com sua famosa frase de que o coração tem razões que a própria razão desconhece. E Karl Kraus, com seu brilhante poder de síntese, foi no alvo quando disse: “Refreia as tuas paixões, mas toma cuidado para não dar rédeas soltas à tua razão”.

Considero os “racionalistas radicais” um dos grupos mais irracionais que existem. Pode parecer paradoxal, mas não é. E digo isso como quem já foi adepto do Objetivismo de Ayn Rand, quando mais jovem (e arrogante). Não pega bem num homem de meia idade, que busca parecer descolado de todas essas “superstições bobas” dos demais seres humanos, um bando de “ignorantes irracionais”.

Eu poderia recomendar ao colunista a linda série “The Crown”, da Netflix, cuja segunda temporada acabou de estreiar. Talvez ele entendesse melhor o apelo racional da monarquia. Poderia sugerir esse texto do Bruno Garschagen, um pensador sério, autor de Pare de acreditar no governo, um conservador de boa estirpe, e também monarquista.

A lista poderia continuar, mas acho que não seria muito racional de minha parte. Será que Helio está realmente disposto a rever seu preconceito dogmático, que considera tão racional e desprovido de emoções? Ninguém precisa ser um monarquista, claro. Mas o legado britânico ao mundo deveria ser suficiente para um pouco mais de humildade na hora de cuspir em seu regime político, não acham? Ainda mais para um utilitarista amoral como Helio, que julga resultados mais do que princípios. Alguma coisa certa parece que esses ingleses “idiotas” fizeram…

Rodrigo Constantino

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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