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Rodrigo Constantino

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“Desconstruindo Paulo Freire”: uma proposta necessária

Por Lucas Berlanza, publicado pelo Instituto Liberal

“As únicas palavras que contam são as pronunciadas tendo em vista a verdade e não o resultado”. A frase, que subscrevo com entusiasmo, é um fragmento de uma citação de Louis Lavelle, com a qual o professor de História e pesquisador Thomas Giulliano inicia o livro que organizou, Desconstruindo Paulo Freire, em corajoso lançamento independente.

Tamanha preocupação com a Verdade, acima das conveniências de uma moral prostituída às ambições políticas e de uma instrumentalização total do discurso com vistas a atingir o fim revolucionário, é uma característica meritoriamente oposta ao figurino de personalidades socialistas – como aquela que é objeto do livro. Assim também a humildade nas pretensões, deixada clara em outro pequeno comentário, também ao começo da obra: “Pedimos que você, nosso leitor, tenha paciência com este livro. Minimize os nossos defeitos, falhas, omissões, lacunas. Ressalte o fato de que esta obra foi realizada a despeito de toda sorte de obstáculos. Por último, perceba que este livro é o primeiro do gênero em nosso país. Dessa forma, mais do que sepultar a discussão, queremos fomentá-la.”

Tal intenção, estruturada e definida de maneira bastante diplomática – até, confessamos, um tanto mais diplomática do que é o nosso próprio costume -, já reveste de nobreza o gesto do organizador e dos seis autores cujos textos compõem a obra. Se há algo que não combina conosco, é a iconoclastia; acreditamos na importância de, sem prejuízo da pesquisa séria e da perquirição honesta pela realidade dos fatos históricos, construir e cultivar um imaginário calcado em referências de virtude que constroem a nacionalidade. Haverá sempre algo de simbólico, algo de narrativo, na visão de um povo ou de um grupo sobre si mesmo.

No entanto, algumas mitologias construídas para servir a propósitos menos nobres acabam empobrecendo esses referenciais, amesquinhando o horizonte moral da sociedade. Não podemos qualificar de outra forma uma autopercepção nacional que erija a figura de Paulo Freire como herói icônico e patrono da Educação, com base na narrativa arquitetada pelas esquerdas no período imediatamente anterior e posterior à “redemocratização” e durante a preparação de terreno para o ciclo de poder lulopetista. Desta forma, sempre merecerá nossas palmas e nosso reconhecimento qualquer iniciativa que se encarregue de demolir – ou, como é o caso, começar a fazê-lo – um edifício de loas indignas, mentiras e passionalidades mal dirigidas.

Desconstruindo Paulo Freire foi pensado como uma espécie de colóquio convertido em livro, em cujas páginas diferentes autores “lançam” diferentes ângulos do problema do pedagogo recifense que fez a cabeça dos acadêmicos brasileiros com obras como Pedagogia do Oprimido e que, por um fenômeno de incessante cumplicidade ideológica, passou a ser considerado por muitos, mais do que um gênio em sua área de atuação, quase uma referência inequívoca “do Bem e do Belo” – a despeito de sua devoção por comunistas e assassinos como Mao Tse Tung e Che Guevara. É uma obra feita, desde o título, para incomodar, mas um incômodo que não pretende apenas destruir, como também suscitar a reorganização, a reconstrução.

O próprio organizador assina o primeiro capítulo, Paulo Freire: o patrono do pau oco, uma descrição introdutória e sintética da questão abordada, elencando não apenas algumas das declarações desavergonhadas de Freire em favor da tirania marxista-leninista, como as deficiências de sua proposta didática. Desnuda sua admiração por Lênin e Mao, sua apologia ao castrismo e sua sustentação empobrecedora da busca política do igualitarismo mais obtuso através da escola, seu reducionismo de todo ensino a mero artifício para “emancipar os oprimidos” em uma “revolução” mal explicada contra os “opressores”.

O segundo texto, A educação clássica é a opressão da ignorância, assinado pelo professor Clístenes Hafner Fernandes, desafia a pretensão freireana a depreciar o patrimônio do ensino clássico e da Tradição, dos quais já brotaram os grandes pensadores e gênios que nos antecederam, em favor de algo muito menor: sua febricitante revolução pelo ensino que só tem inspirado, junto a suas companheiras de “modernidade”, o analfabetismo funcional. É uma apreciação crítica da velha tentação arrogante de destruir, sem solidez em construir a substituição.

Apontamentos sobre a educação bancária, do também professor Rafael Nogueira, tem por principal propósito demonstrar, na obra de Freire, mais uma ocorrência da velha máxima do “o que é bom não é novo, e o que é novo não é bom”. Desde a Paideia socrática até os dias atuais, revela que as preocupações com uma educação respeitavelmente libertadora, municiando o educando de instrumentos para lidar com o mundo, não são monopólio de teóricos militantes como Freire, que a acolhem como retórica para subordinar essa busca pelo conhecimento a um projeto político. “Talvez seja hora de reconhecermos que, como educador, ele foi um bom revolucionário”, ele conclui.

O professor Doutor em Ciências Sociais, Roque Callage Neto, traz uma comparação entre o pensamento de Freire e o pensamento construtivista, notadamente na obra de Piaget, sob o título Paulo Freire: uma teoria e metodologia em educação e sua eventual relação com o construtivismo. Em seguida, o bravo Percival Puggina, escritor e cientista político conhecido pelo destemor com que se entrega às fileiras dos combatentes da liberdade nos dias que correm, produziu O mundo político de Paulo Freire, dando destaque, assim como o autor que o segue, o padre Cléber Eduardo dos Santos Dias, em seu ensaio Paulo Freire: educação popular, religião, teologia da libertação de inspiração marxista, às afinidades de Freire com a Teologia da Libertação e a penetração de ideias à esquerda no seio da Igreja Católica, transplantando suas preocupações com o transcendente a um paradoxal anseio pelo paraíso terreno.

Puggina encerra seu artigo lamentando os resultados dessa politização pretensamente “libertadora” da educação, a fabricar analfabetos funcionais adestrados, em tempos de profundas discussões sobre a doutrinação ideológica nas escolas e universidades. O padre, identificando a semelhança de pendores com a esquerda “católica” que, submetendo o divino ao parâmetro dos revolucionários materialistas, prostitui sua fé em honra aos tiranos.

Antes de encerrar, o professor Thomas apresenta também um Apêndice, uma das melhores ideias que teve para este volume: em resposta às constantes alegações de que “o pensamento freireano está deslocado de nossos quadros escolares”, constantemente feita por quem deseja negar sua parcela de responsabilidade no estado de coisas, ele traz documentos, entre ementas de cursos em universidades federais e questões de provas de vestibular, que oferecem prova cabal do contrário. “Volto a repetir”, ele frisa, “que o fato de sua teoria não ser aplicada sustenta-se na constatação de sua irracionalidade, conforme eu e os outros autores analisamos ao longo de todo este livro”.

Uma das melhores observações feitas no livro, e com ela encerramos, está no artigo do padre Cléber. Ele pontua que a implantação do Método Paulo Freire em Guiné-Bissau, já então um regime autoritário de esquerda, foi uma completa fraude, não tendo sido encontrado nenhum estudante que se pudesse dizer “funcionalmente alfabetizado”; diante disso, questiona: “Ou seja, dado que o método não visava (e visa) a uma alfabetização em si, mas à incitação às mudanças revolucionárias, como aplicá-lo a um lugar onde a revolução já se instalou e não permite ser questionada? Freirianos e antifreirianos já se debateram tentando buscar as respostas para o falhanço daquele que é considerado o método mais perfeito de alfabetização. Talvez, no dia do juízo final, saberemos a que conclusão chegaram”.

Parece que o sistema de Paulo Freire, tal como ele é vaga e confusamente apresentado pelo seu autor, padece do mesmo mal que acomete todo autoritário, necessitado de um inimigo imaginário para torpedear enquanto efetiva seus anseios de dominação. Quando a opressão e a tirania são reais, carece do que se alimentar e perde sua efetividade. Na contramão dessa dependência pelo palavrório belicista e um conflito fantasioso, Desconstruindo Paulo Freire inicia um esforço por desvelar os fundamentos, as verdades, as substâncias, no que verdadeiramente implica a nobre tarefa da educação. É um trabalho urgente de arejamento em terreno inóspito e desesperadamente necessitado. Que frutifique!

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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