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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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A desgraça de nossa educação: o “vale tudo” na área de Humanas

Pausa na política para falar de algo ainda mais grave, e que explica, em boa parte, essa esculhambação em nossa política: a decadência de nossa “educação”. O relativismo exacerbado, embusteiro, fez com que qualquer porcaria fosse tida como sinônimo de “profundidade”, e os “desconstrucionistas” pudessem disfarçar toda a sua mediocridade como se fosse sabedoria rebelde.

Em Imposturas intelectuais, Alan Sokal e Jean Bricmont já haviam mostrado que o rei está nu. O simples embuste vem cheio de pompa, como se fosse um pensamento complexo, difícil. O verniz da verborragia esconde uma ideia mais rasa do que um pires… convexo. E na área das Humanas isso é uma festa, pois nela não há nada parecido com a matemática, onde dois mais dois precisa dar quatro, ou a engenharia, onde a ponte precisa se sustentar.

Eis um caso interessante, relatado por Alysson Augusto nesta sexta: um “mestre em Educação” cuja dissertação tem, como abstract, apenas a repetição da frase “You have to learn Portuguese”. A “brincadeira” provém de uma dissertação de mestrado da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF — MG), cujo título é “Uma educação esquizita. Uma formação bricoleur processo ético e estético e político e econômico” (sic), que conferiu ao autor, Tarcísio Meira Mendes, o título de Mestre em Educação. Alysson comenta:

Durante a exposição de seu trabalho, que contém nada menos que 229 páginas, podemos ver que diversas delas contêm fotos de trabalhos escritos à mão, sem qualquer sentido explícito do porquê estão lá, postas de modo aleatório, sem numeração e indicação de seu significado e propriedades. Em certo momento, na página 60 (sim, 59 páginas corridas para chegarmos até aqui), finalmente encontramos alguma ordem em seu trabalho, onde Tarcísio passa a argumentar de um modo coerente e expositivo suas ideias, embora com um conteúdo fraco para a qualidade exigida em um mestrado. Na página 67, porém, essa aparente seriedade acaba, com referências bibliográficas que não fazem sentido estarem lá. Sua escrita continua, desta vez em outros formatos, admitindo inclusive fonte Comic Sans em itálico no corpo do texto.

[…]

Afinal, qual o propósito desse trabalho, qual sua intenção, seu objetivo acadêmico, e por que ele é suficientemente relevante para contemplar seu autor com um título de Mestre em Educação? A visão do público leigo, aliás, não importa? Não seria excesso de academicismo se permitir ao escracho de uma linguagem mal compreendida por pares, sequer então por público em geral? Qual o valor ético, político e econômico, como o trabalho se propõe a ter, ao oferecer um trabalho por meio de uma performance onde mostra-se as nádegas e bolas do sujeito numa banca de mestrado? O que os pares acham basta para o valor de uma pesquisa, ou é preferível que os pares, em especial o próprio autor da dissertação, prestem satisfações à sociedade quando ela se vê injustiçada ao ter de pagar por um trabalho que não explicita suas intenções, seus objetivos e qual sua ideia central, sendo que a principal tarefa de qualquer trabalho acadêmico é comunicar descobertas derivadas de pesquisas, e não fazer show de horrores?

De fato, não sou da área. Não tenho doutorado em educação para julgar alguém agora qualificado como Mestre em Educação. Ainda assim, além das odes contra a ciência explícitas na dissertação de Tarcísio, que foi financiada pela CAPES com nossos impostos, nada mais justo que cobremos explicações sobre o valor que há nesse tipo de trabalho, por que ele é importante e, especialmente, por que ele não teria um saldo muito mais negativo para a própria área de humanidades do que positivo, uma vez que é justamente o tipo de coisa que pulula nas mídias e descredibiliza as ciências humanas, cada vez mais desprezadas justamente por relativizar valores e seguir comumente a lógica do “tudo vale”.

O relativismo estético precede o ético, ou andam juntos. Na era do “tudo vale”, nada mais vale. Se nada é feio, então nada é bonito. Se nada faz sentido, então nada precisa ter lógica. Se regras não servem para nada, então qualquer coisa está valendo: o caos se sobrepõe à ordem. Esse tipo de engodo atende apenas aos anseios dos piores, que podem fingir que são os melhores, os mais inteligentes, os únicos que enxergam a “verdade”, as lindas roupas invisíveis do imperador – que não existem.

Esse mestre será mais um a influenciar a cabeça do seu filho. Que depois vai defender lixo como se fosse arte, e talvez o PT e o PSOL, pois já que “vale tudo” e é preciso desafiar a “burguesia careta”, que aprecia essas coisas ultrapassadas chamadas “regra” e “lógica”, então melhor bancar o rebelde descolado apoiando bandidos socialistas logo de uma vez, contra o “sistema”, contra “tudo que está aí”.

A situação em nossas universidades é calamitosa. Na área de Humanas, então, é quase caso perdido. E o pior é que, no país da cultura do diploma, o extenso currículo Lattes vale mais do que qualquer coisa, do que argumentos, lógica, fatos. Aí temos que aturar os embusteiros “cagando regra” – agora ela passa a valer – de que são superiores porque possuem títulos acadêmicos.

Mas basta ver o quê tem concedido títulos de mestre ou mesmo doutor por aí para saber que eles podem muito bem não valer absolutamente nada. Avacalharam nossa educação, o que é terrível para o futuro do conhecimento. E se as universidades, locais que deveriam ser rigorosos com o aprendizado, estão assim, como cobrar uma política muito melhor depois?

Rodrigo Constantino

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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