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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Família Bolsonaro vai ter que se esforçar bem mais para convencer liberais

Meus leitores sabem da minha boa vontade ao tentar enxergar sinceridade na “guinada liberal” de Jair Bolsonaro. O pré-candidato não é um liberal ainda, e isso ninguém afirma. Mas vem ensaiando um gradual abandono da visão nacional-desenvolvimentista e se aproximando do liberalismo, com gestos louváveis, como a procura de conselhos de gente como Adolfo Sachsida, colunista do Instituto Liberal, e Bernardo Santoro, ex-presidente do mesmo instituto.

A recém-declaração de que Paulo Guedes seria seu ministro da Fazenda foi a coroação dessa “pulada de cerca” para o lado liberal, onde a ordem encontrou o progresso, como disse Guedes com brilhante poder de síntese. Mas muitos ainda alimentam desconfiança, e com razão.

Para começo de conversa, porque liberal que se preza é sempre um cético, ainda mais quando se trata de políticos. Mas é mais do que isso: o passado militarista de Bolsonaro ainda assombra, e muitos sentem cheiro de puro oportunismo nessa aproximação. Alegam que Bolsonaro estaria apenas usando os liberais e que, uma vez no poder, daria um chute na bunda do liberalismo para adotar uma política intervencionista. O histórico de declarações e votações no Congresso justifica o medo.

Ainda é cedo para tal conclusão, porém, e estou disposto a conceder o benefício da dúvida ao capitão. Acho que ele tem realmente a boa intenção de melhorar o Brasil, e precisa de um bom guia na área econômica, sabendo delegar o controle da pasta. Tampouco acho que Paulo Guedes, quem conheço razoavelmente bem, aceitaria ser apenas uma marionete para dar um verniz de credibilidade ao candidato e seduzir os mercados. Ele não se prestaria a esse papel.

Dito isso, a família Bolsonaro ainda precisa ser mais convincente nesse discurso liberal. O mais alinhado parece ser Flavio Bolsonaro, também o mais discreto. Já Carlos Bolsonaro é o mais estridente, e Eduardo, que fez até curso sobre a Escola Austríaca, dá umas escorregadas inaceitáveis (vou lançar em breve pelo IL meu curso sobre a Escola Austríaca e já ofereço gratuitamente à família toda). Vejam, por exemplo, esse comentário de Eduardo sobre a Previdência, que soa totalmente populista:

Afirmar que a previdência não é deficitária é simplesmente absurdo, papo de esquerdista! O comentário infeliz foi alvo de muitas críticas nas redes sociais, e um dos que se manifestaram foi João Amoedo, do Partido Novo:

A escorregada na língua não estraga a mensagem, cujo conteúdo está irretocável. Para que não haja mais sacrifícios no futuro, será fundamental aprovar uma reforma previdenciária, e qualquer economista sério sabe disso, até mesmo os tucanos.

Mas se o equívoco de conteúdo já preocupa, a truculência na forma acende mais sinais amarelos ainda. Carlos Bolsonaro resolveu partir novamente para ataques gratuitos a Santoro, que tem se dedicado de corpo e alma para a candidatura, inclusive tentando persuadir seu público liberal da convicção de Jair quanto a essas mudanças:

As agressões suscitaram reações nas redes sociais também, em defesa de Santoro, e um dos que escreveram pedindo mais respeito e tolerância foi o próprio Sachsida. Em texto publicado em seu blog, Sachsida pede mais união, e lamenta os ataques infundados de ambos os lados, tanto de críticos de Bolsonaro que se recusam a enxergar qualquer evolução, como de alguns de seus defensores mais aguerridos que se recusam a ponderar sobre qualquer crítica, mesmo construtiva. Sachsida conclui:

Eu apoio o Deputado Jair Bolsonaro para presidente do Brasil. Eu quero vencer as eleições presidenciais de 2018, mas não quero isso a qualquer custo. Existe um limite além do qual um homem civilizado não deve ir, não se cria um monstro acreditando que será possível controlá-lo depois. Um presidente terá que governar para todo Brasil, para isso tolerância, respeito, e união se fazem necessários. Tenho vários amigos de esquerda, são várias pessoas queridas que irão votar em Lula, Marina, Ciro e até mesmo em Manuela D’Ávila. Pensar diferente não é crime, tenhamos por nossos adversários o respeito que se faz necessário.

Confesso que não consigo esticar tanto a corda a ponto de respeitar de verdade eleitores de Lula ou outros comunistas, mas entendo o apelo de Sachsida. E dentro da “direita”, entre liberais, libertários e conservadores, deveria haver mais tolerância e civilidade no trato das divergências, saudáveis e inevitáveis.

Mas a postura da família Bolsonaro, ou, para ser mais honesto, de dois dos três filhos políticos, já que Flavio e o próprio pai Jair têm mantido um comportamento mais adequado, em nada ajuda. Carlos Andreazza, editor da Record que tanto fez pelo avanço da direita no país, andou fazendo críticas duras, mas merecidas, ao clã:

Os “soldados” do capitão e todos aqueles que já fecharam com ele e não querem mais saber de argumentos, fatos ou propostas podem partir para as ofensas a Andreazza ou qualquer outro crítico, mas isso em nada vai ajudar a efetivamente colocar Bolsonaro no poder. Sua militância tem seu papel, mas não garante sua vitória, é irrisória perto da necessidade de votos.

Para vencer, Bolsonaro vai precisar acenar aos eleitores mais moderados, e demonizar todos os críticos, mesmo aqueles à direita, parece péssima estratégia. Basta pensar em quanta energia gasta inutilmente para atacar Alexandre Borges por conta de uma foto com Doria, sendo que o tucano sequer será candidato…

Chamar o MBL de vendido, o Partido Novo de socialista disfarçado e Andreazza ou demais conservadores de traidores não vai contribuir para a impressão de que Bolsonaro realmente mudou, evoluiu e se tornou mais tolerante aos críticos e mais liberal na economia. Humilhar de forma injusta um liberal como Bernardo Santoro, que vem se dedicando para o sucesso da candidatura de Bolsonaro, vai apenas afastar potenciais eleitores. E repetir, como faz o PSOL, que não há déficit na previdência é de arrepiar, e vai acabar afastando até mesmo Paulo Guedes!

Repito: nada disso foi falado pelo próprio Jair Bolsonaro, mas ele deveria dar um puxão de orelha nos filhos mais falastrões, e realmente demonstrar sua mudança de postura e conteúdo. Até por conta das alternativas com chances concretas de vitória, acho que os liberais devem torcer para que a guinada liberal de Bolsonaro seja sincera, e lutar para trazê-lo ainda mais para “o lado bom da força”. Desprezá-lo vai apenas impedir qualquer chance de um governo mais liberal, caso ele vença.

Mas a família também precisa fazer sua parte, e dar sinais claros de que abandonou o ranço militarista, que lida com respeito com aqueles críticos que querem ver um Brasil mais próspero e livre, e que vai colocar princípios liberais acima de discursos populistas ou interesses corporativistas. O apoio liberal, essencial para a vitória, não virá de graça, sem contrapartida. E a contrapartida é a sinceridade do candidato na defesa desses ideais.

Rodrigo Constantino

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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