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Rodrigo Constantino
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A malandragem pode explicar nosso baixo PIB per capita?

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Por Roberto Ellery, publicado pelo Instituto Liberal

É comum encontrar explicações para nosso baixo PIB per capita que partem da ideia que brasileiro trabalha pouco, ou seja, não somos ricos por sermos malandros. Parte dessa ideia deve vir da simpatia que temos com os malandros, embora pareça que tal simpatia está diminuindo nos últimos anos. Veja o Rio de Janeiro, a cidade que serviu de cenário para a Ópera do Malandro e para os filmes do Hugo Carvana, hoje tem como prefeito um pastor evangélico fazendo parecer que a ética protestante chegou do lado de baixo do equador. Apesar disso a imagem do brasileiro malandro persiste. Nem mesmo trabalhando, morando lá longe e chacoalhando num trem da Central, dizem as más línguas, conseguimos perder a fama de malandros, talvez por culpa dos malandros com aparato de malandro oficial.

Para checar se nossa suposta malandragem pode ser a causa de não sermos um país rico resolvi dar uma olhada nos dados da PWT 9.0 (link aqui). Nesta versão da PWT constam dados de horas médias trabalhadas para alguns países. Selecionei o período entre 2010 e 2014, últimos cinco anos disponíveis, e o PIB, a população, as horas trabalhadas médias e a população ocupada, eliminando os países sem esses dados disponíveis fiquei com 68 países. O primeiro exercício foi comparar as horas médias trabalhadas no Brasil com as de outros países. Ficamos abaixo da média, mas não ficamos entre os que menos trabalham. Segundo a PWT 9.0 no Brasil cada pessoa empregada trabalha em média 1.723 horas por ano, a média do mundo 1.875, a mediana é 1.846 e o primeiro quartil é 1.686, ou seja, se dividirmos os países em quatro grupos onde o primeiro é o dos países que menos trabalham e o quarto é o dos países que mais trabalham estaremos no segundo grupo. A figura abaixo compara as horas trabalhadas médias no Brasil e nos grupos de países conforme a classificação do FMI.

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Observando a figura vemos que nossas horas trabalhadas médias são menores que as do grupo América Latina e Caribe, na verdade são menores do que a de qualquer grupo de países que escolhamos. O grupo com a média mais próxima da nossa é o de países avançados, alguém pode dizer que somos pobres querendo trabalhar como ricos, mas não vou nesse caminho. Meu questionamento vai na direção oposta, quero analisar como é possível que países ricos trabalhem menos que os países do Sub-Saara ou que os países emergentes da Ásia. Se somos pobres porque não trabalhamos, qual a razão de alemães, holandeses, noruegueses e dinamarqueses trabalharem em média menos que nós e mesmo assim possuírem uma renda muito maior que a nossa? Será que trabalhar mais não implica em ser mais rico?

A figura abaixo mostra a relação entre horas trabalhadas médias e PIB per capita, como podem ver a relação é negativa, ou seja, em média, nos países mais ricos os trabalhadores dedicam menos horas por ano a seus empregos. O resultado pode parecer estranho, se trabalham menos deveriam produzir menos e, logo, ter menos renda. Porém existe um outro efeito importante. Lazer definitivamente não é um bem inferior, ou seja, quanto maior a renda de uma pessoa, mais lazer a pessoa quer desfrutar. Sendo assim faz sentido pensar que em países ricos os trabalhadores demandam mais lazer e, por isso, trabalham menos. É como dizer que eles trabalham pouco porque podem.

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Podemos ser mais cuidadosos em nossa análise. Considere uma família de quatro pessoas que tem uma única pessoa trabalhando 60 horas por semana e uma outra família de quatro pessoas onde tem duas pessoas trabalhando 40 horas por semana. Se olharmos as horas trabalhadas médias por pessoa empregada em cada família vamos dizer que a primeira família tem 60h horas trabalhadas médias e a segunda família tem 40h trabalhadas médias. Se olharmos totais trabalhadas a primeira família trabalha 60h e a segunda família trabalha 80h, sendo assim seria razoável que mesmo com menos horas trabalhadas médias a segunda família tenha maior renda, afinal a segunda família trabalha mais. O raciocínio pode ser repetido em termos per capita, ou seja, por membros da família. Na primeira família cada membro trabalha, em média, 15h e na segunda família cada membro trabalha, em média, 20h, logo as horas trabalhadas per capita na segunda família também são maiores que a horas trabalhadas per capita na segunda família.

Para abordar esta questão vamos calcular as horas trabalhadas per capita dos países da amostra e comparar com a renda per capita. A figura abaixo faz isso, repare que a linha é quase horizontal, ou seja, quase não existe relação entre horas trabalhadas per capita e PIB per capita (para os curiosos o p-value da regressão entre PIB per capita e horas trabalhadas per capita é 0,77). Repare que as horas trabalhadas per capita no Brasil são maiores que as de países como Chile, Estados Unidos, Suécia e Alemanha. De fato, no Brasil trabalhamos 88h per capita, a média da amostra é 851h e a mediana é 804h. Isso em parte se deve ao chamado bônus demográfico, ou seja, a “família” brasileira tem muita gente trabalhando porque a soma de velhos de crianças não é tão alta quanto em outros países. Outra parte é devido a não sermos ricos, em países ricos as famílias podem esperar mais antes de mandar os filhos para o mercado de trabalho.

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Vimos que os trabalhadores nos países ricos não trabalham em média mais horas que o dos países pobres, também vimos que as horas trabalhadas por pessoa não tem muita influência no PIB per capita. Então por que os países ricos são ricos? Por que são produtivos! A verdade é que existe uma diferença significativa entre trabalhar muito e trabalhar bem, dito de outra forma, esforço não é eficiência. As horas trabalhadas a menos nos países ricos são mais que compensadas pela maior produtividade do trabalho nesses países. A figura abaixo mostra a produtividade do trabalho e as horas trabalhadas per capita.

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A relação levemente negativa pode ser explicada por conta de trabalhadores de países menos produtivos terem de trabalhar mais para conseguir melhorar a renda. Chama atenção no gráfico a dominância dos países avançados na parte de cima da linha, isso ajuda muito a explica por que países ricos são ricos mesmo trabalhando menos. A guisa de exemplo considere Brasil e Alemanha. O trabalhador alemão trabalha em média 1.378h por ano enquanto o trabalhador brasileiro trabalha e média 1.723 h por ano, ou seja, um trabalhador brasileiro passa 25% mais tempo trabalhando que um alemão. Se considerarmos a horas trabalhadas per capita veremos que na Alemanha são 710h por pessoa por ano, no Brasil 886h por pessoa por ano, ou seja, aqui é 24,8% maior que lá. Por outro lado, na Alemanha um trabalhador produz $61,5 por hora de trabalho, no Brasil um trabalhador produz $16,4 por hora de trabalho, ou seja, a produtividade lá é 3,75 vezes a produtividade de cá. Com tanta produtividade é possível trabalhar menos e ter um PIB per capita de $43,7 mil contra nossos $14,6 mil.

Uma figura com PIB per capita e produtividade do trabalho pode ser questionável por vários motivos, mas aqui no blog será útil para ilustrar o argumento do post e para permitir uma provocação final. A figura abaixo mostra a produtividade do trabalho e o PIB per capita, reparem bem nela:

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Nossa baixa produtividade faz com que mereçamos ser um país com renda per capita abaixo da média!

Comentário do blog: confesso achar complicado esse tipo de análise, pois nossa “malandragem” não está apenas em “trabalhar menos”, e sim em como trabalhamos, em custos extras de burocracia, em excesso de estado ineficiente, em custos de transação maiores por conta da desconfiança generalizada etc. Ou seja, a malandragem, que leva ao “jeitinho brasileiro”, representa um enorme custo intangível, muito difícil de ser calculado. Em meu livro Brasileiro é Otário? – O alto custo da nossa malandragem, tentei mostrar justamente o elevado custo por meio de vários indicadores econômicos e sociais. Trata-se de fenômeno bem complexo…

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Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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