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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Os liberais deveriam ajudar Bolsonaro em sua plataforma de governo?

Houve uma aproximação entre alguns liberais e Jair Bolsonaro. O site O Antagonista vazou que o economista liberal Adolfo Sachsida, colunista do Instituto Liberal, está agindo como conselheiro informal do deputado, com outros economistas também liberais. Sachsida é do Ipea e um respeitado economista, que sempre defendeu valores liberais. O próprio MBL ensaiou um afastamento de João Doria e uma aproximação, com elogios, a Bolsonaro.

Demétrio Magnoli, então, escreveu um duro ataque aos liberais em sua coluna deste sábado na Folha, por conta desse “flerte” com alguém que, historicamente, nunca foi liberal, e sim um nacionalista defensor do estado forte e interventor. Em seu texto, o sociólogo questiona o real apreço dos liberais pela democracia, citando Milton Friedman e Pinochet como exemplo. E concluiu:

Sem ruborizar, os liberais de megafone solicitam a intervenção estatal nas salas de aula (Escola Sem Partido ) e um controle oficial à expressão artística (MAM ). O Estado deles deve ser, simultaneamente, mínimo (para assegurar as liberdades econômicas) e máximo (para limitar as liberdades individuais).

Nada mais fácil que apontar o tamanho do abismo entre os princípios liberais e a estratégia dos liberais bolsonaristas. Suspeito, porém, que o enigma tenha solução: uma falha filosófica profunda arrasta os supostos campeões das liberdades para as águas sujas do conservadorismo autoritário.

[…]

O americano Milton Friedman (1912-2006), inspirador da “escola de Chicago”, não viveu sob o totalitarismo e, talvez por isso, deu um passo além, desvalorizando as liberdades políticas.

Friedman prontificou-se a oferecer conselhos econômicos à ditadura chilena de Pinochet e, mais tarde, ao regime comunista chinês. Sua justificativa: “Embora a liberdade econômica seja necessária para a liberdade política, o inverso não é verdadeiro: a liberdade política, ainda que desejável, não é necessária para que a economia seja livre”.

Minha tradução: nada melhor que uma tirania para impor um programa econômico ultraliberal. Nossos liberais bolsonaristas já têm o seu nióbio. 

Há muitas inverdades aí, e também distorções. O Escola Sem Partido, por exemplo, quer fazer valer as leis, e impedir a doutrinação para proteger as crianças. Isso é “intervenção estatal” na educação tanto quanto é “intervenção estatal” um policial prender um bandido. Liberal virou anarquista agora?

Sobre o MAM, a mesma confusão: as crianças devem ser protegidas por lei. Nenhum liberal quer o estado cuidando da cultura. Ao contrário: queremos abolir a Lei Rouanet e até mesmo o MinC. Mas não precisamos tolerar “arte” que expõe crianças indefesas à pedofilia ou homens nus. Liberal virou libertino agora?

Sobre Friedman e Pinochet, há controvérsias. Aqui podemos ver que não houve esse apoio como Demétrio afirma. Mas sim, “Chicago Boys”, como eram pejorativamente chamados os economistas da respeitada Universidade de Chicago, ajudaram a preparar um plano liberal econômico para a ditadura de Pinochet. E foi isso que salvou o Chile!

Sim, até hoje o Chile desponta à frente dos vizinhos por conta de reformas adotadas naquela época, como a privatização das aposentadorias, num sistema que é tido como sucesso no mundo todo e estudo de casos nas melhores universidades. Deveriam os economistas liberais ter simplesmente deixado nas mãos de esquerdistas o regime, para continuar com a desgraça causada por Allende, o socialista que produziu hiperinflação e depressão?

O que nos remete à questão colocada no título: deveriam os liberais ajudar um eventual governo Bolsonaro? Mas antes de responder faço uma ressalva, e isso precisa ficar claro: Bolsonaro, até onde sei, não é candidato a tirano, e sim a presidente, por um processo democrático, não? Um detalhe ignorado por Magnoli, pelo visto. Que “tirania” é essa que ele enxerga, se o deputado está disputando dentro do estrito processo democrático?

Sobre a ajuda eventual de liberais, a reposta parece ser clara: ter Bolsonaro, um candidato com chances reais, mais perto do liberalismo é melhor do que o contrário. Ou não? Ninguém diz que Bolsonaro é um liberal. Assim como Doria ou Luciano Huck tampouco são liberais. Mas se os candidatos puderem ser influenciados por liberais legítimos, isso é melhor do que deixá-los nas mãos de esquerdistas, não?

Entendo o risco que alguns liberais veem, de “manchar a reputação” do liberalismo se ele for confundido com Bolsonaro. Mas, repito: ninguém está dizendo que Bolsonaro é um ícone do liberalismo, e sim que ele pode muito bem endossar certas bandeiras nossas. Ora, se até os tucanos esquerdistas privatizaram estatais e adotaram a Lei de Responsabilidade Fiscal, por que Bolsonaro não pode montar um plano de governo com viés mais liberal, apesar de ser nacionalista e ainda demonstrar um ranço intervencionista, típico dos militares?

É verdade que o deputado ainda repete algumas besteiras sobre privatizações ou preços de gasolina, e que seu filho Eduardo, que fez um curso sobre Escola Austríaca, também escorrega quando o assunto é economia, como nessa fala, que nos remete a Collor ou Ciro Gomes:

Por falar em Ciro, seria o caso de perguntar: isso aí dá bilhão? Qualquer economista sério sabe que não basta “acabar com o roubo” para recuperar nossa economia. Que medidas liberais são necessárias, que é preciso mudar o mecanismo de incentivos, que é preciso ter abertura comercial, livre concorrência, orçamento equilibrado, Banco Central independente etc. A fala é pura demagogia, como se bastasse honestidade do governante para resolver todos os nossos problemas. Mas isso quer dizer que os liberais devem virar as costas ao candidato?

João Luiz Mauad, colunista do Instituto Liberal, rebateu Demétrio Magnoli também:

Magnoli é um comentarista de esquerda que eu respeito. Neste artigo ele erra feio sobre as razões da aproximação de alguns grupos liberais com Bolsonaro ao alegar: “nada melhor que uma tirania para impor um programa econômico ultraliberal.” É uma afirmação cruel e injusta. Eu diria que essa aproximação de alguns liberais (dentre os quais não me incluo, que fique claro) com o rombudo capitão tem a ver muito mais com um verdadeiro pavor de elegermos um novo governo de esquerda. Como Bolsonaro é o candidato não esquerdista com maiores chances, alguns jogam suas fichas nele…

Eleição é eliminatória dos piores. Dos nomes mais em voga hoje, qual se aproxima do liberalismo? Só tem esquerdista! Logo, parece apenas natural os liberais olharem para Bolsonaro, alguém que parece bem-intencionado, é anticomunista e assume sua ignorância econômica, como um candidato a ser lapidado quando o assunto é economia. Não ajudá-lo nessas circunstâncias seria, em minha opinião, uma traição ao Brasil e um tiro no pé.

Ora, quem sabe ele não se convence realmente de que algumas medidas liberais são fundamentais para trazer progresso à nação? Daquele que queria “fuzilar” FHC pelo “crime de lesa-pátria” de ter privatizado a Vale ao atual, que considera até a privatização da Petrobras, é visível o avanço no sentido liberal, não? E por que a trajetória não poderia continuar?

Rodrigo Constantino

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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