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Rodrigo Constantino
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Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Reinaldo Azevedo e Verissimo unidos para salvar a “democracia” de Bolsonaro

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Se tivemos o beija-mão entre o comunista Chico Alencar e o tucano Aécio Neves na festa de Ricardo Noblat, hoje ocorre algo muito parecido entre o comunista Verissimo e o tucano Reinaldo Azevedo. Seria o “beija-mão” intelectual, uma espécie de casamento por conveniência para decretar guerra ao inimigo comum: ele mesmo, Jair Bolsonaro.

Reinaldo saiu completamente da toca tucana, se é que alguém ainda tinha alguma dúvida remanescente, e publicou um texto em que só falta Aécio Neves ostentar uma faixa presidencial na imagem selecionada para ilustrar o conteúdo. E o conteúdo é de total apoio ao senador tucano, que teria feito a “pergunta certa”: vamos deixar espaço para algum aventureiro?

Collor é trazido à memória para produzir medo no leitor. Reinaldo deixa transparente que seu verdadeiro receio não é o retorno de Lula coisa alguma, pois este está mortinho da silva; seu medo mesmo, seu pânico, que tem provavelmente lhe tirado o sono, é uma eventual vitória de Bolsonaro.

Todo esse esforço para derrubar o PT e deixar o caminho livre para os tucanos, e vem alguém cortando pela direita? Isso é inaceitável para os tucanos. A prova de que não é Lula que assusta, mas o anticomunista da direita nacionalista, está nesse trecho:

Quem viveu sabe. Os dias em curso lembram, em alguns aspectos, o fim do governo Sarney. Havia acusações de corrupção por todo lado — coisa de pivete quando se compara com o petrolão —; o país vivia uma crise econômica feroz, com inflação nas alturas (hoje, vivemos a pior recessão da história), e o descrédito da população nos políticos ditos tradicionais era imenso.

Aí surgiu “Elle” como a resposta para todos os males: Fernando Collor. Contra Lula, que dizia primitivismos em penca sobre política e economia.

O petista, felizmente, foi esmagado. E o Brasil, infelizmente, elegeu Collor. O resto é conhecido.

Para Reinaldo, portanto, Lula e o PT precisam ser esmagados, desde que algum social-democrata vença. A comparação entre Collor e Bolsonaro é bastante forçada, claro, mas não importa. A mensagem é que não podemos esmagar Lula ao custo de eleger um “aventureiro”. Entre Lula e Bolsonaro, Reinaldo já disse que fica em cima do muro.

E quem veio ao seu encontro? Justamente o comunista Verissimo, petista de carteirinha. Em sua coluna de hoje, Verissimo também diz que o objetivo deve ser salvar a “democracia”, tomando cuidado de não jogar todos no mesmo saco podre. Após demonizar Churchill, Veirissimo usa sua frase sobre a democracia para lembrar que é o pior sistema, exceto todos os outros. E defender a democracia hoje, claro, significa atacar Bolsonaro:

Mas a frase mais famosa de Churchill não tem nada a ver com seus discursos de guerra. É aquela em que ele afirma que a democracia é o pior sistema de governo disponível, com exceção de todos os outros. O velho aristocrata, ele mesmo um exemplo do ideal ciceroniano de poder de casta, dizendo que a democracia é falha, insuficiente, irritante, confusa, difícil e provavelmente antinatural, mas ainda é melhor do que todas as suas alternativas possíveis. Uma frase que precisa ser repetida de tempos em tempos, principalmente em países, como o Brasil, que já experimentaram as alternativas, mas às vezes parece que as esqueceram. Porque aqui desesperar da democracia vai se tornando cada vez mais tentador. O que evidenciam os números crescentes do Bolsonaro nas pesquisas de opinião, entre outros agouros assustadores.

A democracia vem acumulando derrotas nos últimos tempos entre nós, e torna-se mais precária a cada revelação sobre a corrupção epidêmica que parece não poupar ninguém. A cada nova desmoralização de políticos e política, a nossa democracia apanha mais um pouco. Há quem diga que o fato de ainda estar de pé, mesmo que só formalmente, é um bom sinal: em outros tempos, ela já estaria na lona, e a alternativa estaria nas ruas. Mas a surra continua. Como nas lutas de boxe em que só um lado apanha, sem defesa, sem reação possível — e o pior, sem torcida — não é um espetáculo bonito.

Ora, quem está desmoralizando nossa política senão esses políticos de esquerda e centro-esquerda no poder há décadas? E quem estaria ameaçando a democracia caso Bolsonaro fosse… eleito? Faz sentido, então, essa histeria toda? Ou será que não é exatamente com a democracia que essa turma está preocupada, mas com a preservação da hegemonia de esquerda, oscilando entre a radical (PT) e a moderada (PSDB), com o “centrão fisiológico” no meio (PMDB)?

Ninguém precisa ser fã de Bolsonaro para estranhar essa união pragmática entre Chico Alencar e Aécio, entre Verissimo e Reinaldo Azevedo. A sensação que fica é que a limpeza do sistema foi longe demais, não pode continuar, pois é preciso manter o jogo de cartas marcadas entre as esquerdas carnívora e herbívora. Mas nada fora disso! Ai de quem vier com esse papo de guinada à direita para valer…

Pelo que me consta, Bolsonaro não está pregando uma ditadura, o fechamento do Congresso (do qual é deputado há seis mandatos, sempre eleito com muitos votos populares) ou nada similar, tampouco uma maluquice qualquer em economia (assunto do qual reconhece não ter tanto domínio, o que já é um sinal de humildade bem melhor do que a arrogância dos petistas e de tucanos como José Serra, que acham que dominam o assunto).

Por que, então, nossa democracia precisaria ser salva de alguém que os próprios eleitores querem eleger? Não é exatamente a democracia que pretendem salvar, não é mesmo? E se a comparação de Reinaldo fizesse sentido, Collor, que ao menos teve a coragem de abrir nossa economia, não teve o caminho totalmente livre para loucuras contra as instituições, tanto que sofreu impeachment (como Dilma também sofreu, diga-se). E isso ajudou a fortalecer nossas instituições.

Quem tem ameaçado nossas instituições e nossa democracia são justamente esses que querem minimizar crimes de caixa dois e preservar um mundo de privilégios da classe política, além de um estado paternalista e inchado. Gostaria muito que Bolsonaro não fosse a única alternativa contra essa patota, e talvez não seja, talvez tenhamos alguém novo no pedaço. Mas daí a morrer de medo da direita, mesmo a nacionalista com todos os seus defeitos, para blindar tucanos e petistas unidos contra a Lava Jato, aí já é demais da conta!

PS: Em que pesem os arroubos nacionalistas e autoritários de Bolsonaro, considero mais fácil convencê-lo das vantagens do liberalismo do que persuadir José Serra, que já se disse mais à esquerda do que o PT. Já Aécio Neves até flertou com uma postura mais à direita, mas deixou sua natureza tucana falar mais alto no final. Alckmin andou afagando o MST e em 2006 virou um outdoor ambulante de estatais. É difícil um tucano romper com sua essência. Se o PSDB ainda fosse de João Doria, vá lá, mas o prefeito já começou a apanhar de todo lado de dentro do próprio partido. Por que será? Talvez ele mesmo seja um desses “aventureiros” que a turma quer evitar. Só vale político profissional, de carreira, dentro do establishment. E não é exatamente disso que estamos cansados, saturados?

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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