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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Tragédia grega e a vitória de Pirro

Muitos já comentaram a vitória do “não” neste domingo na Grécia, mas não posso deixar de colaborar com meus dois cents. Trata-se de uma prova contundente de que os povos escolhem sua própria desgraça. Não é destino: é uma questão de escolha mesmo, e os gregos escolheram um caminho extremamente perigoso e incerto. As chances de a Grécia sair do euro aumentaram substancialmente, e se isso de fato ocorrer, a probabilidade de uma hiperinflação no país não é nada desprezível.

É um assombro ver a quantidade de “intelectuais” de esquerda celebrando a decisão dos gregos. Para essa gente, eternamente presa na falsa visão de “Davi x Golias”, um romantismo infantil que beira à irresponsabilidade, é sempre emocionante ver um povo pequeno desafiar o “sistema”, os “imperialistas”. São os mesmos que vibraram ou vibrariam com Cuba “desafiando” os Estados Unidos e o capitalismo. Para os cubanos, a coisa não foi tão divertida assim.

A Grécia não enfrentou com coragem o “sistema” ou os alemães insensíveis, muito menos a “imposição” da austeridade. A menos que alguém ache louvável desafiar a “imposição” da lei da gravidade: o resultado costuma ser a queda. Austeridade é apenas outro nome para responsabilidade fiscal, e a lei da economia diz que é insustentável desafiá-la eternamente. Não são os alemães que obrigam os gregos a cortar gastos; é a realidade de suas finanças destroçadas!

Os românticos encontram adrenalina na afronta grega, sem compreenderem que ela representa um passo longo na direção do abismo. Se a União Europeia não aceitar um acordo com a Grécia, o que tem mais chance de acontecer agora, a saída do país do euro significaria a volta do dracma, a moeda sem credibilidade dos gregos. Com a impressão descontrolada de papel moeda para honrar com os gastos insustentáveis do governo, o pais mergulharia numa hiperinflação, e sabemos como esse tipo de coisa termina.

A democracia, que tem seu berço na própria Grécia com Péricles, teria prazo de validade e seus dias contados. A chance de a Grécia cair nas garras de alguma ditadura aumentaria bastante. Mas nada disso seria culpa dos alemães, do FMI ou do capitalismo, e sim da irresponsabilidade dos próprios gregos, que resolveram brincar de PSOL. Votaram num partido populista de jovens demagogos e irresponsáveis. E depois votaram num plebiscito para dar mais poder ainda a esses mesmos demagogos.

Só na cabeça oca de “intelectuais” no conforto do capitalismo isso representa um “grito de liberdade” contra a “opressão” capitalista. É, na verdade, uma vitória de Pirro, com sabor de derrota, pois são os próprios gregos quem pagarão a conta. Ou alguém acha que os alemães vão sofrer mais? Ou alguém acha que a revolução cubana realmente desafiou os Estados Unidos? Os gregos deram um tiro no próprio pé, enquanto os esquerdistas dos outros países vibram de emoção, pois se regozijam com o caos alheio de forma mórbida e patológica.

O mito de Sísifo se aplica bem aqui: os gregos trabalhadores estavam empurrando a pesada pedra montanha acima, apenas para chegar ao topo e vê-la rolando montanha abaixo pelo outro lado. Terão de fazer tudo novamente. É um fardo pesado demais que terão de carregar, enquanto os parasitas do setor público preservam seus privilégios. Até quando terão paciência para isso? O custo da austeridade é alto demais? Esperem para ver o custo da irresponsabilidade socialista!

Sófocles não seria capaz de escrever uma tragédia tão dramática. Lamento pelos gregos, principalmente os sérios, que lutaram contra essa medida “ousada”. Perderam a batalha das ideias, e pagarão um preço alto por isso. Os “intelectuais” celebram, sem compromisso com os fatos e os gregos. “Se” (quando) a coisa der errado, eles podem culpar novamente o capitalismo e o “imperialismo”, como sempre fizeram. E ainda poderão curtir férias nas ilhas gregas a um custo bem menor, com o dracma totalmente desvalorizado…

PS: Há um risco não desprezível de a União Europeia “entubar” o abuso grego, com receio da posição geográfica estratégica do país e de outros países maiores, como Espanha e Portugal, também saírem do euro. A Rússia já tenta se aproximar de forma oportunista da Grécia agora. Se a União Europeia for por esse caminho, aí sim, o problema deixa de ser apenas grego e passa a ser de todos, impondo um evidente fracasso ao projeto de união. Afinal, nenhuma união se sustenta quando só um lado precisa arcar com os custos e o trabalho…

Rodrigo Constantino

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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