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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Trump precisa mudar sua retórica protecionista e sua postura

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Quando o assunto é Trump, só há duas opções, pelo visto: amor e ódio. Como odiá-lo passou a ser o hobby preferido de tanta gente, principalmente na esquerda, e há uma turma cansada de tudo que esse pessoal representa, do politicamente correto, do “globalismo”, da retórica sensacionalista de Obama, automaticamente essa gente passou a reverenciar o presidente americano. Mas não combina com o meu perfil ter ídolos, ainda mais políticos.

A análise deve ser o mais isenta possível, sem necessariamente isso significar bancar o “isentão” (sabemos qual o lado desses, que sempre escorrega para a esquerda). Cheguei a escrever um artigo sobre isso, conclamando todos a falar sério sobre o assunto, sem cair no oito ou no oitenta. Trump tem acertos, e sua vitória foi importante para confrontar esse establishment da esquerda globalista. Mas não é por isso que devemos fechar os olhos para seus erros.

A começar pela visão mercantilista de mundo, onde importar é ruim e exportar é bom. Trump e sua equipe realmente acreditam que ter déficit comercial com um país é sinônimo de “ser explorado” por ele, ou seja, as trocas comerciais só são válidas quando geram superávit para os Estados Unidos. Li isso em um livro seu e confirmei com suas falas recentes e dos membros de sua equipe. Mas se todos pensarem assim, acaba o comércio global, tido como um jogo de soma zero por essa ótica bizarra.

É uma visão absurda do ponto de vista econômico, e já escrevi mais de um artigo comentando isso. Um deles foi na Gazeta do Povo, que vem hoje com um editorial bastante equilibrado sobre Trump, apontando justamente para esse e outros defeitos do presidente. Incomoda-me também sua postura conflituosa, que foi útil para lhe dar a vitória, e pode ser divertida como entretenimento, mas que deveria mudar após o início da gestão. É preciso algum decoro, respeito à liturgia do cargo.

Ele não é mais candidato, mas presidente, e de todos os americanos. Pode até ver a imprensa como adversária, mas não deveria tratá-la como inimiga mortal. Não é assim que funciona uma democracia. Trump, ao rebater cada crítica que recebe de forma agressiva, ao hostilizar quem dele discorda, demonstra pouca maturidade para o cargo. Ou então é uma estratégia brilhante – e muito ousada – para desviar a atenção daquilo que ele quer fazer de mais importante, nos bastidores. Será?

Quanto aos seus maiores erros até aqui, diz o jornal:

Tome-se, por exemplo, o caso do muro na fronteira com o México, cuja construção ele já anunciou. Descartamos comparações esdrúxulas com o Muro de Berlim, feito para impedir que cidadãos fugissem da Alemanha comunista; da mesma forma, não se questiona o direito de uma nação a escolher quem nela pode entrar, nem se critica o combate à imigração ilegal, que pressiona os serviços públicos sem a contrapartida do pagamento de impostos. Mas toda a retórica do “build the wall” tem o potencial de criar hostilidade contra o próprio fenômeno da imigração, que fez a grandiosidade da América – essa mesma que Trump promete restaurar – graças ao trabalho duro e ao espírito inovador de inúmeros estrangeiros que fizeram dos Estados Unidos o seu lar. O discurso de Trump em relação aos mexicanos não discrimina entre legais e ilegais, trabalhadores e criminosos. Não à toa o presidente do México, Enrique Peña Nieto, cancelou um encontro com o norte-americano.

Outro dos primeiros atos de Trump foi fazer naufragar a Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês), pois sem os Estados Unidos o acordo não entra em vigor. Por mais que agora se argumente que o conteúdo do TPP não era tão liberal assim, que criaria um sem-fim de regulações, o problema de fundo não é este. Os EUA teriam peso suficiente para renegociar os termos do TPP de forma a efetivamente transformá-lo em uma ferramenta de livre comércio – bastaria estudá-lo com calma. Mas não é isso que Trump deseja. Sua plataforma é “buy American, hire American”: só é bom o que for produzido nos Estados Unidos, por funcionários norte-americanos – uma política que ignora os princípios básicos do livre comércio, cujos benefícios já foram amplamente comprovados inclusive nos próprios EUA.

Sobre o caso do México, é um típico exemplo de como Trump pode acertar no conteúdo, mas errar feio na forma. Eu mesmo cheguei a comentar:

Li o NYT, o Globo, a Folha, até a Carta Capital. Vi a CNN, a MSNBC e até a GloboNews. Mas continuo sem entender quando foi que construir um muro para controlar as fronteiras impedindo a entrada de imigrantes ilegais e defender a aplicação das leis dentro do país se tornaram bandeiras radicais… alguém me explica?

Ou seja, a construção do muro em si ou o combate aos imigrantes ilegais não são bandeiras radicais, apesar do que pensa a esquerda (ela sim radical), e Trump merece aplausos por finalmente colocar isso em pauta de forma direta. Mas é preciso fazer isso da forma adequada, com cautela e separando o joio do trigo, em vez de humilhar o presidente mexicano e dar um tiro no pé dos próprios consumidores americanos.

Esse viés nacionalista realmente não dá para engolir! O Facebook me trouxe à memória esses dias um comentário que fiz sobre o governo Dilma, e o resgatei como alerta para Trump:

Irretocável a reportagem de Jose Fucs na revista ÉPOCA desta semana, chamada “Bye, bye, Abertura”. O jornalista demonstra como o governo Dilma deu uma guinada violenta na direção do maior protecionismo típico do capitalismo de estado, resgatando as famigeradas “reservas de mercado”. O Brasil conhece bem essa desgraça, com suas “carroças” vendidas pelo preço de Ferrari, e as máquinas obsoletas condenando o país ao atraso tecnológico com a Lei da Informática. Estamos diante de um perigoso retrocesso. Acorda, Brasil.

Que ele não vá pelo mesmo caminho, pois sabemos que o protecionismo comercial simplesmente não funciona!!!

PS: Não adianta o leitor tentar me encaixar num extremo ou outro de amor e ódio a Trump, pois não vai colar. Tampouco me considero um “isentão”, como tantos por aí. Tomo partido sim, defendo o que deve ser defendido, mas não é só por Trump chacoalhar a esquerda que vou adorá-lo ou elogiá-lo incondicionalmente. Num ambiente em que todos odeiam Trump e o demonizam, tenho independência para defendê-lo em linhas gerais, especialmente se for para mostrar a hipocrisia e a incoerência da esquerda. Mas estarei aqui para apontar seus erros também.

Rodrigo Constantino

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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