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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Você odeia política e adoraria esquecer que ela existe? Saiba que isso é possível!

Por Ricardo Bordin, publicado pelo Instituto Liberal

Ninguém gosta de frequentar reunião de condomínio. Normalmente as discussões produzem mais calor do que luz, e mesmo tomadas de decisões relativas a questões simplórias ganham contornos de operação de guerra. Melhor fazer de conta que esqueceu a data agendada — mesmo no dia da eleição do novo síndico.

Que diferença faz, afinal de contas? Pouca coisa ou quase nada muda na minha vida se sair vencedor do pleito o vizinho João ou a Maria. As obrigações do eleito, adstritas à manutenção das áreas coletivas e ao regular funcionamento dos serviços compartilhados pelos condôminos (como segurança e zeladoria), são tão reduzidas e consomem, por meio da taxa de administração, parcela tão diminuta do meu orçamento, que fica difícil encontrar motivação para participar do processo democrático do conjunto residencial.

Prefiro, portanto, limitar-me a quitar o respectivo boleto todo dia cinco do mês sem envolver-me diretamente na gestão da propriedade comum.

Mas a coisa mudaria por completo de figura se, por acaso, em alguma dessas assembleias, fosse aprovada alteração estatutária que, a partir daquela data, conferisse prerrogativas extraordinárias ao conselho de representação dos moradores e este passasse a ter amplos poderes sobre a propriedade privada dos inquilinos.

Do dia para a noite, os síndicos (sim, a esta altura já teriam sido criados dezenas de sub-cargos, que justificariam uma elevação de 1000% na taxa de condomínio) viriam até meu apê informar-me quando e em que escola devo matricular meu filho; que bandidos que pularem nossos muros não devem mais ser entregues à polícia, mas sim mantidos às nossas custas até reintegrarem-se à sociedade; que não posso comer carne em certos dias da semana; que não posso mais fumar em praticamente lugar nenhum; que não posso mais sair para trabalhar em determinadas áreas sem antes comprovar que cumpro um sem número de obrigações; que estou proibido de ir à missa aos domingos; que não posso mais xingar o juiz de viado durante o jogo do meu time.

De duas uma: ou eu “votaria com os pés”, quer dizer, mudaria para outro lugar imediatamente; ou, na impossibilidade de sumir de perto deste povo maluco, só restaria uma alternativa: procurar saber quais vizinhos concordam comigo e consideram invasiva tal conduta dos administradores do prédio para formar uma chapa para concorrer nas eleições seguintes (ou ao menos apoiá-la de fora), para que esta, uma vez empossada, possa devolver a liberdade aos condôminos, rasgando todas as novas “regulações” e reduzindo as atribuições do síndico a uma única página novamente — isso se, a esta altura, ainda for permitido discordar dele, claro.

Ou seja, a única forma de voltar ao estágio onde a política do condomínio praticamente não afetava minha vida, permitindo até mesmo que eu esquecesse que existia um síndico, é, ironicamente, ocupar-me da política do condomínio, ao menos por algum tempo.

No atual cenário da política do condomínio Brasil, ainda estamos naquela fase de bater de porta em porta procurando vizinhos dispostos a subir ao poder para devolver poder ao povo. Tais indivíduos dispostos a cumprir esta paradoxal tarefa ainda são poucos, desconhecidos , dotados de escassos recursos, e pouco ameaçam os encastelados em altos cargos, mas sua mera existência e tentativa de organização já são suficientes para deixar muita orelha em pé nos palácios governamentais e nas classes falantes que com esses vivem em simbiose.

As pessoas se ocupam é de si mesmas e de suas famílias. Normal. O individualismo costuma despertar o mais altruísta dos sentimentos. O brasileiro, como qualquer ser humano, quer apenas seguir sua vida indiferente ao que rola nos corredores da administração pública. Ele paga seus impostos e encargos justamente para isso: para não precisar se preocupar. Mas isso só será possível se o Estado for limitado às suas funções básicas e sua capacidade de tributar for bastante restrita ao mínimo necessário — coisa que já escapou do controle faz tempo.

Não há motivo, pois, para envergonhar-se ou sentir-se omisso diante do quadro atual da política nacional, mas é necessária a consciência de que ele não será revertido sem o mínimo envolvimento daqueles cuja saída para a crise não pode ser o aeroporto de Guarulhos.

Eis o paradoxo: para que possamos não mais nos preocupar com os políticos e suas ações, precisamos fazer justamente isso em determinados períodos.

Não se trata, nem de longe, de fazer coro aos comunistas Antonio Gramsci ou Bertold Brecht, os quais odiavam os “indiferentes” que não tomavam partido e os “analfabetos políticos”. Para eles, a solução para tudo era sempre essencialmente política exatamente porque acreditavam que o Estado deveria ser onipresente. Ao contrário: devemos ficar atentos ao que se passa no meio político para evitar que o Estado extrapole de suas atribuições típicas.

Se você, então, concorda que a única maneira de reduzir sua preocupação com a próxima ideia “genial” que o governo pretende colocar em prática, a fim de poder voltar a tomar sua cerveja com os amigos falando baboseiras diversas e não sobre as peripécias daninhas de Lula e Temer, é diminuir o orçamento, o aparato e as prerrogativas do governo, bem-vindo ao time.

Fique atento, portanto, nas próximas eleições, aos sinais nos discursos dos candidatos, e procure identificar quais deles querem voltar a fazer do síndico um ilustre desconhecido e aqueles que, por outro lado, querem conferir-lhe status de Rei da Pérsia.

Privatizações, por exemplo, são sempre positivas na medida em que o governo deve manter uma estrutura enxuta voltada tão somente às suas razões de existir — e tenha certeza que refinar petróleo, entregar correspondências e produzir medicamentos para hemofílicos não constam deste rol. Tatue na retina: empresas estatais são sinônimo de prejuízo e corrupção.

Mande pastar aqueles que apostam na divisão da sociedade em segmentos, pois um povo fragmentado sempre terá mais dificuldade para promover mudanças desta natureza e recobrar sua liberdade. Falou em racismo, machismo, sei-lá-o-que-fobia? Tchau!

Desconsidere de imediato quem vier com papo de interferir até na quantidade de sal que você põe na comida — esse tipo de coisa só vai gerar mais burocracia. Você não é um incapaz que não sabe o que é melhor para si mesmo — repita isso diante do espelho com convicção toda manhã!

Repudie quem prometer combater a “desigualdade social”. Diante de uma pessoa possuidora de uma fazenda e outra que possui dez fazendas, você não fica com dó da primeira. Por quê? Porque a desigualdade não é um problema, e sim a pobreza — e está mais do que evidenciado que tanto mais pobres há em um país quanto mais o governo obstrui o caminho dos indivíduos de maior capacidade de empreender. Desigualdade só gera pobreza automaticamente se for gerada pelo próprio Estado, pois aqueles que em torno dele orbitam enriquecem tomando recursos das pessoas comuns, usando o governo como intermediário supostamente legítimo.

Desconfie de quem alega conhecer soluções na área econômica que não sejam, pura e simplesmente, reduzir impostos (e o gasto estatal, por tabela), cortar ao máximo o número de exigências para investir e empreender, e fazer com que uma maior parcela da riqueza gerada deixe de circular nos cofres públicos e retorne para a iniciativa privada.

Olhe torto para quem prometer mundos e fundos “de graça”, ainda que sejam promessas do seu agrado: o governo não te dá nada sem tirar de você primeiro, e, neste cenário, acaba se dando melhor quem tem mais poder de pressionar por regalias — e normalmente você não faz parte deste grupo.

Passe reto por quem quiser restringir seu direito a legítima defesa ou tentar “passar pano” para criminosos ao invés de apertar o cerco da legislação penal contra eles.

Prefira aqueles que falam em poder descentralizado e defendem o voto distrital, pois fica mais fácil monitorar as atividades dos burocratas no nível regional, além de garantir que a maioria das leis seja adequada às particularidades locais.

Risque da lista de pretendentes aqueles que se atreverem a lhe dizer como educar seus filhos — os ditos “engenheiros sociais”. Sua família, suas regras!

Faça estas observações especialmente quando for votar para cargos do Legislativo, pois eles determinam os rumos da nação tanto quanto ou mais do que os chefes do Executivo.

Continue fazendo estas observações em relação às ações práticas dos eleitos e repita o procedimento por alguns pleitos eleitorais seguidos, a fim de produzir uma demanda por agentes políticos desta estirpe. Hoje eles são meia dúzia aqui e acolá, mas nada como a procura dos consumidores interessados para gerar oferta.

Esteja pronto para assumir mais responsabilidades sobre sua própria vida, pois esta é a consequência inafastável de ser livre.

E pronto: se tudo der certo, em breve você não mais lembrará quem são os ocupantes dos mais relevantes postos da República — e isso repercutirá muito pouco em seu cotidiano. Mas fique atento, porque este ciclo perverso pode voltar ao estágio anterior a qualquer momento. Eu avisei que era paradoxal…

Este artigo foi inspirado nas sábias palavras do professor Rodrigo Gurgel, com as quais encerro:

Por que, às vezes, as pessoas têm o desconfortável trabalho de sair às ruas para protestar contra o governo? A resposta é mais simples do que imaginamos: porque ninguém gosta de ser incomodado. O governo precisa ser como aquele vizinho que não atrapalha você no dia a dia. Ele está lá, pede sua ajuda de vez em quando — e você a dele. Um sorri para o outro. E pronto. Mas se o seu vizinho começa a aprender bateria e, aluno exemplar, coloca o instrumento na sala e passa a tocar todos os dias, quanto tempo vai demorar até o seu primeiro protesto? Governos existem para fazer de conta que não existem. Governar é, antes de tudo, não atrapalhar. Mas há governos que fazem questão de serem lembrados todos os dias. E alguns nós realmente não esqueceremos. Jamais.

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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