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Especial

Sinal que não deve ser ignorado

O diagnóstico de pré-diabete mostra que algo não vai bem, mas pode representar uma chance de impedir que a doença se desenvolva

05/01/2011 | 00:40 |
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Ela é silenciosa: em princípio, sem sintomas; o paciente nem sente dores nem percebe que há algo errado. Mas a pré-diabete é uma condição de perigo iminente e que, segundo estimativas da Federação Internacional da Diabete (IDF, da sigla em inglês), acometia aproximadamente 154 milhões de pessoas em todo o mundo em 2008 e deve chegar a 418 milhões em 2025. Grande parte delas não sabe que tem a doença – e talvez descubra tarde demais.

O diagnóstico de pré-diabete, que indica que a pessoa tem as taxas de glicose no sangue mais altas do que as normais, mas não altas o suficiente para classificá-la como diabética tipo 2, significa tanto uma forma inicial da doença quanto um risco potencial de desenvolvê-la. “É possível que os pré-diabéticos voltem aos níveis normais de glicose, assim como podem vir a ter a doença. E também existe a possibilidade de que ela tenha que conviver com essa condição para sempre. Tudo depende de cada caso”, explica Rosângela Réa, professora e endocrinologista do Serviço de Endocrinologia e Metabologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Aniele Nascimento/ Gazeta Do Povo

Aniele Nascimento/ Gazeta Do Povo / <b>Carro na garagem - </b>O comerciante Paulo José Ferreira Garcia, de 51 anos, descobriu ser pré-diabético há um ano e meio. Garcia, que tem a mãe diabética e chegou até a perder tios por conta da doença, resolveu que era hora de mudar – hoje deixa o carro em casa, no bairro Água Verde, e vai até o trabalho, no Centro, a pé. “Se, porventura, preciso ir trabalhar de carro, me sinto culpado. Acostumei à nova rotina”, diz. Gaúcho e amante do churrasco, ele teve que deixar no passado o gosto por comidas pouco saudáveis, doces e álcool. “Mudei quase tudo, hoje faço uma dieta cheia de verduras e frutas e controlo bastante meus níveis de glicose”, conta Ampliar imagem

Carro na garagem - O comerciante Paulo José Ferreira Garcia, de 51 anos, descobriu ser pré-diabético há um ano e meio. Garcia, que tem a mãe diabética e chegou até a perder tios por conta da doença, resolveu que era hora de mudar – hoje deixa o carro em casa, no bairro Água Verde, e vai até o trabalho, no Centro, a pé. “Se, porventura, preciso ir trabalhar de carro, me sinto culpado. Acostumei à nova rotina”, diz. Gaúcho e amante do churrasco, ele teve que deixar no passado o gosto por comidas pouco saudáveis, doces e álcool. “Mudei quase tudo, hoje faço uma dieta cheia de verduras e frutas e controlo bastante meus níveis de glicose”, conta

O que é diabete?

É uma doença metabólica. A diabete tipo 1 é causada pela deficiência na produção do hormônio insulina pelo fígado. A do tipo 2, responsável por cerca de 90% dos casos, implica também em uma resistência do corpo à ação do hormônio – a pré-diabete é sempre do tipo 2. A insulina é responsável pela entrada da glicose nas células e sua transformação em energia. Como os diabéticos têm uma deficiência com relação a isso, a glicose fica acumulada no sangue. Se a doença não for tratada, ela pode obstruir pequenas e grande artérias, causando diversos outros problemas.

Sou pré-diabético?

Se uma pessoa fizer um exame de sangue normal e o resultado indicar glicemia em jejum entre 100 e 125 miligramas de açúcar por decilitro de sangue, isso pode indicar pré-diabetes. Para confirmar, o médico deve pedir um exame de carga glicêmica. O exame consiste em tomar um xarope feito com 75g de açúcar dissolvidos em 300 ml de água. Duas horas depois, mede-se a taxa de açúcar no sangue do paciente. Se ela estiver entre 140 e 200 mg por decilitro de sangue, está confirmada a pré-diabete.

Se o número for maior, ele é considerado diabético e, se for menor, está nos índices de normalidade. A pré-diabete só existe no tipo 2 da doença, que é a mais comum e responsável por 90% dos casos.

30 anos

é a idade recomendada para que todos os que têm fatores de risco, como pais diabéticos, hipertensão e obesidade, façam os exames para descobrir se têm pré-diabete ou diabete. Para a endocrinologista Rosângela Réa, outras pessoas que não se encaixam neste quadro devem fazer o exame por volta dos 45 anos.

Geral na geladeira

O empresário Ivan Aldo Martinhuk, de 57 anos, deixou de comer frituras há muitos anos e há 20 faz exercícios físicos. Mesmo assim, exames de rotina acusaram crescimento nos níveis de glicose há mais ou menos dois anos e, há seis meses, a pré-diabete. “Sempre me cuidei, mas depois desse alerta mudei muita coisa na minha rotina. Por recomendação médica, troquei o açúcar por frutose, o leite por leite de soja, introduzi alimentos integrais e iogurte desnatado na dieta”, conta. Na família de Martinhuk não há ninguém diabético e ele também não faz parte de grupos de risco. Sem entender o porquê da alta nas taxas de glicose, diz atribuir a condição a um período de muito estresse profissional e a problemas pessoais pelos quais passou recentemente. “Os médicos não dão certeza, mas dizem que é uma possibilidade”, conta.

E, como a doença (ou o início dela) é assintomática, é necessário estar atento aos fatores de risco – se a pessoa se enquadrar em vários deles pode ser sinal de uma possível pré-diabete. “Quem tem mais de 45 anos, tem pais com diabete, está acima do peso, tem pressão e colesterol alto, teve diabete gestacional ou filhos que nasceram com mais de 4 quilos tem a obrigação de procurar um médico e fazer exames de sangue para verificar as taxas de glicose”, explica o médico e presidente da Sociedade Brasileira de Diabete, Saulo Cavalcanti. Se o paciente tiver perda de visão e necessidade de hemodiálise, significa que a doença está em estágio muito avançado.

Para o médico, quanto antes o início da doença é descoberto, mais tempo tem o paciente para tentar reverter essa situação – e por conta disso, considera que a expressão “pré-diabete” pode representar um perigo para o paciente. “Não gosto dessa expressão porque dá a impressão de que, por enquanto, a pessoa está em uma zona segura, ou seja, ela pensa que pode abusar da alimentação porque ainda não é um diabético propriamente dito, quando na realidade ela está em fase inicial da doença”, explica. Segundo ele, do ponto de vista médico, o pré-diabético é considerado doente. E a falta de cuidado nessa fase representa a perda de um tempo que pode ser crucial também no futuro, caso esse quadro evolua para uma diabete.

Tem remédio?

Tem. Mas depende de cada caso. “Não há drogas específicas para os pré-diabéticos, mas, dependendo do caso, os médicos podem receitar remédios e até insulina, já que, normalmente, quem tem pré-diabetes tem um início de intolerância a esse hormônio”, explica a endocrinologista da Paraná Clínicas, Ângela Cassilo. Para o presidente da Sociedade Brasileira de Diabete, Saulo Cavalcanti, o melhor remédio ainda é a prevenção, associada a bons hábitos alimentares e, principalmente, à prática de exercícios. “Como a pré-diabete e diabete não causam dor, as pessoas deixam de tomar providências. E é preciso vencer essa inércia e conscientizar a população da gravidade dessa doença. Não há o que substitua um diagnóstico precoce e um tratamento adequado e levado a sério”, diz.

Dieta

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem uma estratégia global para diminuição dos níveis de diversas doenças crônicas, inclusive a diabete e a pré-diabete. Entre as recomendações estão o aumento do consumo de frutas, vegetais, legumes e grãos. “A única precaução que tanto o pré-diabético quanto o diabético devem ter é a de evitar o excesso de frutas que tenham muita glicose, como uva e manga, por exemplo”, explica a endocrinologista do Hospital das Nações, Sheyla Santos Quelle Alonso.

Além disso, o açúcar e o sal, por conta do sódio que causa hipertensão, também devem ser controlados. Um bom começo para mudar os hábitos alimentares é trocar os alimentos por versões integrais, como o arroz e o pão, por exemplo. “Além de esses alimentos serem mais ricos em nutrientes, eles também auxiliam a diminuir o açúcar no sangue e aumentam a sensação de saciedade, ou seja, ajudam a pessoa a perder peso”, diz Sheyla. A partir daí, é só introduzir outros alimentos como linhaça e aveia, ricos em fibras.

Soma-se a isso a atividade física, que não é benéfica apenas na hora de subir na balança. Os esportes ajudam a controlar a pressão sanguínea e reduzem riscos da síndrome metabólica, que é a soma de vários fatores de risco, como hipertensão, obesidade abdominal, níveis altos de colesterol ruim (LDL) e baixos do colesterol bom (HDL). Segundo a recomendação da OMS, 30 minutos de exercício diário de intensidade moderada ajudam a combater os riscos de doença cardiovascular. “Muscu­lação pode complementar, pois aumenta o aproveitamento do exercício aeróbico e controla o peso”, explica.

Se não tratada, a doença pode evoluir

“Hoje pago, a duras penas, o preço da minha negligência”, diz o advogado Sidnei Dockhorn. Di­­agnosticado há pouco mais de dois anos com pré-diabete, a doença evoluiu e, há um ano, ele é diabético. Ele diz que, se pudesse voltar atrás, mudaria seus hábitos muito antes. Com histórico da doença na família, Dockhorn foi fazer exames de rotina que detectaram taxa de glicose no sangue em 107 miligramas por decilitro, o suficiente para caracterizá-lo como pré-diabético. “Estava acima do peso, vivia uma rotina estressante e não fazia exercícios regularmente. Como minha taxa de glicose era apenas um pouco acima da normal, ignorei a gravidade da minha situação”, conta.

A professora e endocrinologista do Serviço de Endocrinologia e Metabologia do Hospital das Clínicas da UFPR Rosângela Réa, diz que, muitas vezes, pacientes pré-diabéticos conseguem reverter sua situação com pequenas mudanças no estilo de vida. “Um estudo norte-americano feito com pré-diabéticos mostrou que não é necessário uma perda radical de peso. Dependendo do caso, uma perda de cinco quilos pode resolver. Às vezes é preciso perder um pouco mais”, diz.

Além disso, o grupo de pacientes que participou do estudo, publicado pela Associação Nacional de Informações sobre Diabete em 2008, e que recebeu apenas estímulos para se exercitar e fazer refeições mais saudáveis diminuiu em 58% o risco de desenvolver a diabete. O “tratamento natural” teve ainda mais eficiência entre pacientes com mais de 60 anos – o risco caiu 71%. Enquanto isso, o grupo que tomou medicamentos antidiabéticos diminuiu este risco em 31%. Na comparação entre os dois grupos, 5% dos pacientes do grupo que fez apenas exercícios e mudou a alimentação vieram a desenvolver a diabete nos anos seguintes, enquanto no grupo dos que tomaram medicamentos, esse número foi de 11%.

A endocrinologista Rosângela Réa recomenda caminhadas de uma hora três vezes por semana. “Não é uma mudança radical, mas a introdução do exercício físico na rotina é capaz de modificar a vida de um pré-diabético e evitar o avanço da doença”, explica. Hoje, o advogado Sidnei Dockhorn faz caminhadas na esteira todos os dias e eliminou doces e massas da dieta. “Hoje luto para controlar minha taxa de glicose, que chega a 186 mg/dl, e também para evitar sofrer complicações por conta da diabete”, finaliza.

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