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saúde das crianças

“Ritalina é usada em crianças por reações adversas e não pelos efeitos terapêuticos”

Em entrevista à Gazeta do Povo, Maria Aparecida Affonso Moysés, do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, diz que o TDAH não é comprovado

  • Laura Beal Bordin
Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp | Antonio Scarpinetti
Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp Antonio Scarpinetti
 
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“Há campanhas contra o uso de anfetaminas por adultos, mas utilizam uma droga com o mesmo efeito em crianças”. Essa é a opinião da pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) sobre o uso da ritalina em crianças e adolescentes mais “agitados”. A droga é comumente utilizada no tratamento do chamado Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e por conta do grande número de diagnósticos, o uso de ritalina no Brasil aumentou 775% em dez anos de acordo com a Anvisa, fazendo do país o segundo no mundo em que mais consome a droga.

Para a professora, não há comprovação científica de que o transtorno exista e considera irreal o dado de que entre 7% e 10% de crianças sofram de uma doença neurobiológica de origem genética, como sugerem os defensores do diagnóstico. “É impossível diagnosticar uma doença neurológica por meio de um questionário”, diz

De acordo com Maria Aparecida, a ritalina faz com que crianças fiquem mais quietas, mas contidas quimicamente. “As crianças acabam sendo não só acolhidas no seu sofrimento, mas recebem um rótulo e uma droga com todas as reações adversas que a ritalina apresenta. Não existe um tratamento alternativo. É preciso olhar a criança e escutar o que ela está tentando me dizer”, afirma. A professora também é uma das precursoras do movimento “Despatologiza”, que busca discutir formas de tratamento que não transforme questões sociais, culturais e familiares em patologias. Leia a entrevista completa:

Como a ritalina age no sistema nervoso central e para quais fins ela é utilizada?

A ritalina é um estimulante do sistema nervoso central que tem o mesmo mecanismo de ação que as anfetaminas, como a cocaína, por exemplo, e deixa a pessoa mais ativa. Todas essas drogas tem algumas reações adversas, que indicam quando o medicamento não deve ser mais administrado. Ou seja, se a pessoa sentiu a reação adversa, deve parar de tomar aquele medicamento. As reações adversas da ritalina são o foco em uma coisa só e um efeito chamado “zumbi-like”, que é ficar contido em si mesmo. E é justamente por essas reações adversas que a ritalina é utilizada em crianças e adolescentes e não pelo efeito terapêutico.

Então a ritalina é usada em crianças por conta de um efeito colateral?

A reação adversa é mais do que um efeito colateral. O efeito colateral é algo que você não espera, mas acontece. Já a reação adversa é aquilo que você não queria e que é ruim para o paciente, indicando que o medicamento deve ser retirado. E foi justamente por essas reações que ela acabou sendo usada em crianças e adolescentes mais agitados, mais ativos: para que eles fiquem mais quietos e quimicamente contidos. Qual é o foco? Só conseguir pensar em fazer uma coisa de cada vez, o que é totalmente inviável na vida real. As crianças então passam a obedecer, deixam de questionar. Uma vez um garoto me disse: “Eu não deixei de sentir o que eu sentia, mas agora eu não consigo gritar”. Apesar da ritalina ser vendida e divulgada como uma droga segura, ela pode causar dependência como qualquer outro estimulante.

O consumo de ritalina cresceu 775% em dez anos e o Brasil se tornou o segundo maior consumidor da droga, atrás apenas dos Estados Unidos. Quais são os fatores que contribuíam para que a ritalina seja tão utilizada no Brasil?

Os fatores são semelhantes no mundo todo. Há uma epidemia de diagnósticos do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), um transtorno que é muito mal conceituado, muito questionado, que não é aceito pela própria medicina como uma doença. Não estou dizendo que não existem crianças mais agitadas, agora, isso é um transtorno? Não há comprovação. Na verdade, o que nós percebemos é que inúmeras coisas são colocadas em uma gaveta chamada TDAH e que não há a menor comprovação de que ele exista. Há um transtorno não comprovado sendo tratado com uma droga pela reação adversa que ela causa, com todos os problemas que os estimulantes apresentam. Há uma grande campanha contra o uso de anfetaminas por adultos e você dá uma droga que causa esses mesmos efeitos para crianças.

Pesquisas mostram uma grande diferença entre o número de diagnósticos de crianças com o Transtorno do Déficit de Atenção no Brasil e na Europa, por exemplo. A França, inclusive, só reconheceu a pouco tempo o transtorno. Na sua opinião, há um exagero nos diagnósticos do TDAH no país?

Esse diagnóstico não é nem mesmo comprovado. É absolutamente irreal você pensar em um número de cerca de 7% a 10% de crianças com uma doença de origem neurológica e inata. Nós não utilizamos porcentagem para falar de doenças inatas, usamos para falar de problemas socialmente determinados. Quando falamos de problemas inatos, a porcentagem é uma medida grosseria, uma agressão a todo o conhecimento da medicina.

Há uma epidemia de diagnósticos de TDAH, que foi difundida pela Associação Americana de Psiquiatria, por várias entidades no Brasil e que estourou neste século. Então você tem algo que é divulgado como algo científico e inquestionável, e que na realidade é questionado por pesquisadores relevantes para a medicina no mundo inteiro. Houve também uma divulgação midiática totalmente acrítica do TDAH e com informações que não são verdadeiras. Por exemplo, se fala que o transtorno é igual no mundo todo e isso não é verdade, pois ela varia de acordo com os costumes, com a cultura de cada local. Também há uma divulgação de que a ritalina é uma droga absolutamente segura e sem reações adversas, o que também não é verdade. Existem famílias com crianças com problemas reais e que sofrem muito mais pelo estigma do que pelo modo de agir. Algumas associações que difundem o TDAH e o uso da ritalina conseguem fazer com que as famílias se sintam acolhidas e elas acabam achando que estão fazendo o melhor para os seus filhos.

Muitas vezes os país ficam receosos em medicar os filhos, mas ao mesmo tempo buscam a melhora da criança. Qual é a melhor saída para estes casos?

Esses pais que veem seus filhos sendo estigmatizados e em sofrimento também sofrem e acham que estão fazendo o melhor para os filhos. Você passa por profissionais da saúde, lê conceitos na mídia, vê os questionários sendo aplicados aos filhos e que indicam o diagnóstico de um transtorno neurológico. É impossível diagnosticar uma doença neurológica por meio de um questionário, ainda mais quando vemos entre 7% e 10% de crianças sendo diagnosticadas por um transtorno neurobiológico de origem genética que não é nem mesmo comprovado. Somos obrigados a pensar que isso é um problema social, causado principalmente pela intolerância com a diferença. A imensa maioria das crianças que recebem este rótulo são crianças mais agitadas, questionadoras. Existem sim crianças com problemas, que agem de forma mais intensa. Mas,se houver uma investigação, percebe-se que são crianças e adolescentes que estão manifestando um problema psíquico. E, ao invés dos profissionais tentarem entender o porquê dessa criança estar agindo assim, o que ela está querendo dizer, a enquadram em um diagnóstico de TDAH sem a menor crítica. Pessoas que estão em sofrimento psíquico apresentam mudanças de comportamento. Com esse diagnóstico, elas acabam sendo não só acolhidas no seu sofrimento, mas recebem um rótulo e uma droga com todas as reações adversas que a ritalina apresenta. Não existe um tratamento alternativo, é preciso olhar a criança e escutar o que ela está tentando me dizer, qual é o problema dela. E então estabelecer um tratamento terapêutico singular para cada criança.

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