Sexta-feira, 25/05/2012
Diferentemente das matérias-primas da Apple ou do Google – chips e telas sensíveis a toque, páginas e vídeos na internet –, o principal ingrediente do Facebook é formado por pessoas comuns do mundo todo. O Facebook é a empresa de internet mais estranha que já se tornou grande. Compare o site de Mark Zuckerberg com a Amazon, que apenas quer vender produtos – um negócio antigo numa mídia nova. Por outro lado, a abrangente missão do Facebook de “tornar o mundo mais aberto e conectado” soa positivamente tola. Não é só que o Facebook é ambicioso; montes de empresas virtuais, especialmente o Google, adotam o mesmo tom revolucionário. O diferente do Facebook é seu produto: o Facebook é todos nós. Você acessa o Google para encontrar páginas na web, você vai à Apple para comprar computadores, e você entra na Amazon para comprar coisas. O que o Facebook lhe dá? Eu e você e todos que conhecemos. Ou, para citar outro filme: pessoas! O Facebook é feito de pessoas! Se isso não lhe parece uma base doida sobre a qual construir um negócio bilionário, é apenas porque você usou o Facebook por tempo suficiente para ser seduzido por sua inevitabilidade. Mas pense no quanto a rede social é nova, enquanto conceito. Mesmo tendo seu nome baseado num objeto da vida real, o site não possui análogo no mundo off-line _ antes das redes sociais, a ideia de um mapa mundial de pessoas e seus relacionamentos não existia. De fato, não é preciso voltar muito no tempo – provavelmente a 2005 ou algo assim – para chegar a um ponto onde seria insano sugerir que pessoas de todas as idades, e em todos os países, divulgariam voluntariamente tudo sobre suas vidas num único site. E, além disso, que a empresa por trás do site obteria um lucro gigantesco usando essas informações para alimentar anúncios publicitários. E, finalmente, que todos nós acharíamos isso divertido. Grande parte do S-1, documento que o Facebook protocolou em 1.º de fevereiro para dar início à sua oferta pública inicial, funciona como uma detalhada advertência sobre os riscos enfrentados pela empresa em seu caminho para se tornar um negócio revolucionário. A maioria desses riscos parece improvável – a morte ou renúncia de Mark Zuckerberg, a infiltração em massa de malware, uma terrível falha de programação despercebida que derrube o Facebook no chão. A primeira advertência listada pelo documento, porém, não deve ser tão facilmente descartada: “Se fracassarmos em reter usuários existentes ou agregar novos usuários, ou se nossos usuários reduzirem seu nível de envolvimento com o Facebook, nossa receita, resultados financeiros e negócio podem ser significativamente afetados”. O que segue são diversos tópicos apontando as variadas maneiras pelas quais as pessoas poderiam enjoar do Facebook. Juntos, eles destacam um fato que se perde nas vertigens a respeito dos lucros da empresa. Por mais bem-sucedido que tenha sido até agora, o Facebook ainda é algo como um frágil experimento. É um enorme negócio baseado na teoria de que é possível coletar, armazenar e utilizar informações sobre a vida de qualquer um – e, no processo, encantar tanto consumidores quanto anunciantes. Os dados financeiros do site provam que o experimento valeu generosamente a pena. Mas como saber se esse sucesso irá continuar? Diferentemente das matérias-primas da Apple ou do Google – chips e telas sensíveis a toque, páginas e vídeos na internet –, o principal ingrediente do Facebook é formado por pessoas comuns do mundo todo. E as pessoas são comprovadamente uma turma rebelde, inconstante, louca e imprevisível. Seria mesmo tão inteligente investir em nós? Não estou argumentando que vamos todos trocar o Facebook por outra rede social. Como disse antes, isso é papo de louco. Em vez disso, tenho um ceticismo mais generalizado sobre a utilidade da “camada social” que o Facebook quer construir abaixo de toda a economia. Numa carta a potenciais investidores, Zuckerberg afirma que a maioria dos produtos e serviços pode ser aprimorada tornando-os “sociais”. Isso se tornou uma sabedoria bem recebida no Vale do Silício; atualmente, todo site, aplicativo, jogo e loja se conecta a algum tipo de rede social – muitas vezes o próprio Facebook. Em alguns casos, essas conexões sociais podem levar a novos produtos que geram muito dinheiro. O exemplo mais evidente são os jogos sociais. O S-1 aponta que a Zynga, empresa por trás de jogos como o FarmVille, responde por 12% da receita do Facebook. A maior parte do dinheiro vem da porcentagem do Facebook na venda de itens de jogos virtuais, como “unicórnios zebrados”. O S-1 indica que há algo de perigoso em como o Facebook depende de apenas uma empresa para obter uma parcela tão grande de seu lucro, mas o verdadeiro problema aqui não é a Zynga. É o unicórnio zebrado. Por quantos anos podemos esperar que as pessoas comprem essas coisas ão bobas? Dois? Cinco? E quando a mania de unicórnios zebrados e vacas de carnaval chegar ao fim, já terá surgido algum outro aplicativo na mesma linha para manter as pessoas gastando? Esse é o problema fundamental das redes sociais: não se sabe o que vai “pegar”, e não se sabe se os aplicativos que pegam conseguirão gerar algum dinheiro. As finanças do Facebook certamente sugerem que os anunciantes estão loucos pelo site. A empresa vendeu mais de US$ 3 bilhões em publicidade em 2011, representando cerca de 85% de sua receita. Mas esses números impressionantes não contam toda a história sobre o que os anunciantes pensam do Facebook. Eles dizem apenas que as empresas querem marcar presença na maior rede social do mundo, o que parece bastante lógico. Mas e se o crescimento do Facebook perder velocidade? O crescimento de sua receita publicitária também desaceleraria? Difícil saber, pois embora o S-1 mostre que empresas estão gastando montes de dinheiro em anúncios no Facebook, ele não traz muitos detalhes sobre o retorno dessa publicidade aos anunciantes. O Walmart lançou um anúncio para promover suas vendas da Black Friday e, segundo o S-1, a ação atingiu 60 milhões de usuários do Facebook. Mas isso levou mais pessoas às lojas da rede? O S-1 não informa. E eu apostaria que nem o Wal-Mart sabe dizer. Não me entenda mal. As finanças do Facebook são maravilhosas, e só irão melhorar à medida que o site cresce. Se eu pudesse investir em empresas de tecnologia sem infringir a ética, eu compraria tantas ações quanto pudesse. Mas isso não significa que o Facebook não é arriscado. Ele é – audaciosamente arriscado. Trata-se de uma empresa construída sobre tendências sociais, e as preferências sociais estão sempre mudando, às vezes de maneira rápida e caprichosa. Houve uma época nos EUA em que as pessoas frequentavam clubes de leitura e interagiam juntas; hoje interagimos sozinhos. O futuro do Facebook depende de atravessar com sucesso essas grandes mudanças. É uma das empresas mais inteligentes de nossos tempos. Mas não sei dizer se é inteligente o bastante.
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