Terça-feira, 09/02/2010
Clayton de Souza/AE
André Garcia, criador do Estante Virtual: inquietação com o “sistema” o levou a inventar o site
Plataforma de comércio eletrônico Estante Virtual tornou viáveis as vendas de pequenas livrarias. Internautas, que já foram só compradores, hoje estão à frente dos negócios pela web
Publicado em 27/07/2009 | Agência EstadoOlhando atônita para o “armário apertado” de seu apartamento, a publicitária Ana Luiza McLaren deu um basta: se livraria daquela tralha acumulada durante os anos. Vestidos há muito não usados, óculos que não saíam da caixinha e a calça para a qual não aguentava nem mais olhar – tudo seria vendido na internet. Em vez de apostar no já estabelecido site MercadoLivre, ela criou para isso o seu próprio negócio, ao lado de mais três amigas, o Enjoei.com.br.
Com um investimento de R$ 140 (domínio e servidor), o site nasceu despretensioso. Abriria espaço para quem também quisesse vender, cobrando 15% do valor da peça. Logo no segundo mês de atividade, eram tantas pessoas interessadas que as amigas tiveram de contratar o seu primeiro funcionário.
Os pequenos negócios, como o Enjoei, estão ganhando espaço no mercado on-line nacional. Os microempresários aumentaram seus lucros e ajudaram no crescimento anual de 25% do comércio eletrônico no país, segundo a consultoria E-bit. Já as dez maiores lojas brasileiras da web tiveram uma queda de 6,5% nas vendas no primeiro trimestre de 2009. O Ebay, o maior site de leilões do mundo, diminuiu em 32% o número de acessos que recebia por dia.
Para Gerson Rolim, diretor da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico, o lucro dos pequenos reforça a tendência da segmentação. Em vez de caçar livros no Ebay ou no MercadoLivre, que vende de tudo, o brasileiro hoje prefere ir direto ao Estante Virtual, que só trata deles, por exemplo.
Contato
É justamente nisso que aposta Laércio de Queiroz, de 45 anos, que desde 2006 mantém no MercadoLivre a sua Rare Records, pela qual vende vinis antigos para o Brasil e para o exterior. Além de vender discos exclusivos, Laércio capricha na embalagem e na segurança da entrega. “São os meus diferenciais, que fui desenvolvendo com os anos”, diz o carioca, que nunca teve uma loja física. “As vantagens são o baixo custo e o alcance mundial. A desvantagem maior é a falta de contato com o cliente”, explica.
Para diminuir esta distância, muitos pequenos comércios usam as redes sociais, como o Orkut e o Flickr, para manter contato com os compradores. “Com isso, eles percebem que a relação com o cliente é feita por pessoas, e não por um sistema”, garante Ana Luiza, do Enjoei.
Apesar da propaganda do site de leilões, ele não faz mais sentido para muitos vendedores, que preferem redes menos abrangentes. O lojista Robson dos Santos, de Santo André, trabalha com discos e livros visando o mercado externo e já desistiu do MercadoLivre. Ele prefere anunciar seus produtos em comunidades especializadas, como o Gemm.com e MusicShack.com, que seriam mais visadas pelos aficionados de fora do Brasil.
No mercado de livros usados dá para dividir a história entre antes e depois de Garcia. Administrador de empresas por formação, ele poucas vezes havia entrado num sebo antes de 2004, quando iniciou a vida acadêmica. Após a frustrante experiência como funcionário de empresas de telecomunicações no Rio de Janeiro, André decidiu abandonar o que ele chama de “lógica acrítica” que lhe era imposta desde a faculdade e começou a estudar psicologia social em São Paulo.
Enquanto garimpava livros de Marx, Freud, Marcuse e outros resistentes críticos com os quais se identificou, percebeu que toda a organização de livros usados em prateleiras errantes era péssima. Uma lombada para cada lado, livros perto do chão, nenhuma solução de busca e catalogação eficiente. Foi para a internet e se frustrou: apenas seis sebos vendiam on-line.
“Só grandes empresas tinham dinheiro para o desenvolvimento de um site bastante complexo, com busca, banco de dados e toda a programação para vender pela internet”, afirma André. É realmente caríssimo para mortais como donos de sebos terem acervo on-line, fora que a cultura digital não é naturalmente impregnada nesse tipo de comerciante.
E se André também não tinha esse dinheiro, lhe sobrava inquietação intelectual. Trocou os livros de Freud por Javascript e fez ele mesmo toda a arquitetura do site, a busca de livros e o cadastro para sebos, além do sistema de e-commerce. Quatro anos depois, os números falam pelo sucesso do negócio: 4,8 milhões de livros no acervo, 249 cidades, 300 mil buscas por dia, 97% de retornos positivos. O Estante Virtual é o melhor exemplo do que se pode chamar de comércio colaborativo. Quem nunca foi comerciante tem usado a rede para se tornar um, mesmo que eventual, o que deixa produtos mais baratos e acessíveis.
“Desbanquei a ‘elite’”, anuncia André, como se o feito fosse apenas este. Ele também propagou a cultura de troca de livros pela internet, inaugurou um mercado e incrementou o hábito de pechinchar preços. Cobra apenas 5% de comissão por venda e ainda estimula o comércio 2.0 puro. Leitores do site podem vender livros “de graça”, sem pagar comissão.
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