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Sábado, 31/07/2010

Steve Kaiser

Steve Kaiser / Repressão às manifestações de  1999: redes improvisadas deram início a mecanismos que dominam a internet de hoje Repressão às manifestações de 1999: redes improvisadas deram início a mecanismos que dominam a internet de hoje
Ativismo

Revolução das redes completa dez anos

Oposição ao encontro da OMC, em Seattle, marcou o início do cyberativismo e serviu de laboratório para tecnologias que resultaram no YouTube e no Twitter, entre outros

Publicado em 07/12/2009 | Agência Estado

Existiu uma época – sem You­Tube, Flickr, Wikipédia, blogs ou qualquer ferramenta de autopublicação – em que colocar seu re­­lato na internet era muito mais um ato de protesto do que qualquer outra coisa. Uma época em que se buscava uma forma de co­­mu­nicação livre de intermediários.

Toda a ideia de jornalismo cidadão, que inspirou o desenvolvimento de plataformas de publicação na web, tomou forma há 10 anos, em 30 de novembro de 1999, durante os protestos em Seattle contra a reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), que daria início à rodada do milênio, para negociar maior abertura do comércio mundial.

Ao menos 40 mil pessoas, entre elas ativistas, membros de ONGs, sindicalistas, ambientalistas e anarquistas, reunidos sob uma organização descentralizada chamada de Direct Action Network (DAN), tomaram as ruas do centro de Seattle e furaram o bloqueio em torno do local onde a reunião acon­­tecia. A manifestação ficou conhecida como N30 ou a Batalha de Seattle.

Foi lá, durante os protestos, que os participantes começaram a usar as tecnologias para mostrar o que estava acontecendo nas manifestações – não só para se organizar, mas para interagir com ativistas de todo o mundo que não estavam lá. Eles usavam uma improvisada re­­de de comunicação, com celulares, rádios, notebooks e modems co­­nectados à web, para publicar imagens e relatos sobre os protestos.

François Bouchet

François Bouchet / Manifestação em Paris,contra a repressão no Irã: cor verde, popularizada no Twitter, virou símbolo da resistência Ampliar imagem

Manifestação em Paris,contra a repressão no Irã: cor verde, popularizada no Twitter, virou símbolo da resistência

O tempo passou...

Do Irã a Brasília

Dez anos depois da primeira experiência com o cyberativismo, várias situações têm confirmado a internet como uma ferramenta e tanto de mobilização política. O sintoma mais forte nesse sentido este ano foi a amplitude alcançada pelos protestos contra o governo do Irã. Imagens da repressão violenta contra manifestantes ganharam o mundo pela internet, principalmente pelo Twitter, já que a imprensa estrangeira estava proibida de atuar. As notícias levaram à realização de outros protestos, pelo mundo. Twitteiros favoráveis à oposição iraniana usaram a cor verde como símbolo.

No Brasil, o #forasarney foi uma das marcas do ano na internet. Diversos protestos país afora contra os decretos secretos do Senado foram marcados pelo Twitter. Sarney não renunciou, mas a mobilização foi inédita.

“Seattle foi a primeira grande explosão de protestos por uma justiça global”, diz Mar­­ga­­ret Levi, professora do departamento de ciência política da Uni­­versidade de Washington e respon­sável por um projeto de resgatar a história dos protestos em Seattle.

Entre os envolvidos, surgia o coletivo Indymedia, um grupo de ativistas que se reuniu para fazer uma cobertura jornalística alternativa dos protestos em Seattle. No Brasil é conhecido como Centro de Mídia Independente (CMI).

Para cobrir os protestos de junho de 1999, durante o encontro do G8, em Colônia, na Alemanha, o embrião do Indymedia usou uma ferramenta de publicação, um tipo de blog coletivo, criado alguns meses antes por um grupo da Austrália. “As pessoas tiravam fotos, colocavam depoimentos, publicavam sua opinião sobre que estava sendo discutido”, diz Pablo Ortel­lado, um dos fundadores do CMI no Brasil, criado quatro meses depois de Seattle. “Muitos grupos se interessaram pela ferramenta do Indymedia. Como era aberta, ela era muito mais usada pelos manifestantes do que por revistas e veículos alternativos”, continua.

O site do Indymedia teve mais de 1 milhão de acessos no lançamento, o que sobrecarregou os ser­vi­dores. “Foi aí que incorporamos a autopublicação como essência do site. Era um projeto ra­dical. Se você for ver, os blogs fo­ram continuação disso. Não é a toa que o YouTube, o Twit­ter, o Craiglist saíram de desenvolvedores que fizeram parte do In­­dy­me­dia. O Twitter foi criado para ser usa­do em manifestações”, diz Ortellado.

Há muitas críticas à incorporação das ideias do Indymedia por sites comerciais, principalmente quanto à privacidade dos usuários, às limitações impostas e à necessidade de gerar lucro e publicidade.

A partir do Indymedia e de Seattle, surgiram muitos outros projetos que procuram dar voz na internet a grupos de pessoas que antes não tinham como expressar suas opiniões ou relatar o que veem e vi­­vem em suas comunidades. “A tec­­nologia foi importante para planejar os processos e para trocar informações depois dos protestos. Muito mudou nestes 10 anos. Ainda vejo muitas demonstrações políticas, mas elas são feitas de outra forma. Vemos que há grupos menores, mais comprometidos, não só se mobilizando em protestos, mas realmente trabalhando para mudar o mundo”, diz a professora Margaret Levi.

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