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Habitação

A favela que diz não à Cohab

Pequena ocupação formada por carrinheiros rejeita programa de reassentamento da prefeitura no bairro Ganchinho. Lá, não há papel, plásticos e latinhas para reciclar

  • José Carlos Fernandes
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A favela que diz não à Cohab

Há um mês, cerca de 40 moradores da Sociedade Barracão – nome oficial de uma pequena favela do Boqueirão – entraram num ônibus fretado, acompanhados de funcionários da Companhia de Habitação de Curitiba, a Cohab-CT, e viajaram 25 quilômetros até o Ganchinho, num dos extremos da Zona Sul. Estavam a bordo senhoras com o peso da idade, jovens casais e algumas crianças. Pela janelinha, descobriram o Parque Iguaçu 3, loteamento popular onde serão construídos 83 casas e 560 sobrados, para os quais a comunidade deve ser transferida. Poucos gostaram do que viram.

Esse tipo de tour não é de praxe. Basta pensar que de 2006 para cá a prefeitura já reassentou 2.538 famílias, sem maiores liturgias. Mas sobram motivos para tamanha deferência com essa comunidade pobre entre tantas. A Sociedade Barracão se tornou um símbolo da luta pela moradia na capital. E a depender do que disserem seus condôminos, a temperatura do setor – tão alta quanto a do movimento sem-terra – pode atingir índices insuportáveis. Pelo que tudo indica, é o que está para acontecer.

Com exceção de dois passageiros – os irmãos Rogério Carlos, 21 anos e William de Almeida, 19 –, ambos jovens e sem ligação com o principal ramo de atividade do grupo, a coleta de papel, todos os outros passageiros disseram “não” à Cohab, abalando as negociações iniciadas em 2004. Em terra, a reportagem identificou mais quatro moradores favoráveis ao reassentamento. E só.

As mudanças, contudo, têm a urgência de um teto desabando. O terreno onde os carrinheiros estão beira o estopim da bomba: pertence a uma massa falida e ostenta condições sanitárias dignas do Juízo Final. Para ajudar, conhecida como balcão de ideias sustentáveis, a comunidade tem sido abalada pela criminalidade. Há quem se queixe do cheiro da maconha nos domínios da favela. E quem contabilize oito assassinatos em 11 anos de ocupação.

Apesar do pé-firme, é provável que os moradores mudem de ideia, como adiantaram duas assistentes sociais da Cohab ouvidas pela reportagem. “No começo, é normal não aceitar. Além do mais, eles viram o terreno, não as casas. O Iguaçu não é um bairro ainda. A ideia é ajudá-los a criar uma cooperativa no novo endereço”, comenta a assistente Terezinha More. Mas, pelo que tudo indica, a operação Boqueirão-Ganchinho não vai ser nenhuma festa da cumeeira.

Favela de bolso

A Sociedade Barracão foi formada há 11 anos, soma 150 moradores, de 36 famílias, sendo 62 cri­­an­­ças. Ocupa uma categoria úni­­ca entre as 254 ocupações irregulares da capital, onde vivem 207.754 mil pessoas, 54 mil famílias. De tão pequena, é o que se poderia chamar de uma “favela de bolso”, ou “favela pocket”, classificação que não consta nos anais das companhias de habitação. Mas bem podia.

Como tamanho não é documento, o espaço diminuto – com 1,7 mil metros quadrados divididos em uma esquina – favoreceu a mobilização dos moradores. A fama veio a galope: primeiro com o registro em cartório do nome “sociedade”, o que fez toda a diferença; em segundo, acreditem, por uma questão estética.

Até três anos atrás, quando um desabamento seguido de um incêndio abalou a arquitetura do local, os casebres da Sociedade Barracão ficavam uns sobre os outros. A pilhagem era “um número”: garantia um pátio no meio, usado para reciclagem, um puxadinho reservado à Igreja do Nazareno e espaço para dois automóveis avariados.

A originalíssima favela acabou chamando a atenção de ONGs como o Cefúria, Terra de Direitos e Despejo Zero, virando tribuna dos movimentos sociais. O interesse era claro: caso se transformasse num lugar de moradia digna, a associação serviria de prova de que é possível abrigar os mais pobres em áreas urbanizadas e em imóveis subutilizados, conforme reza o Estatuto da Cidade, promulgado em 2001.

A publicidade em torno da Bar­­ra­­cão foi tanta que, arrisca, tenha levado muita gente a se abalar até as ruas O Brasil para Cris­­to com José Maurício Higgins, apenas para conferir a favela erguida dentro de uma fábrica abandonada – a Tecnicom Máquinas e Peças Industriais, que quebrou no final da década de 1990, dando início à história da sociedade.

O local não tardou a ganhar inquilinos, atraídos por um desses negociadores inominados do mundo sem-teto: eles arrebanham famílias e lucram uns vinténs em cima da ocupação. Depois somem sem deixar rastro. Aqui é que entra o acaso: a turma reunida por “Nego” e “Sadi” era boa de briga e decidiu que os três lotes do Boqueirão seriam mais do que um trampolim para a casa própria: seria a própria.

Houve quem duvidasse. Tudo concorria para o despejo: a massa falida da Tecnicom foi formada, uma juíza assinou a reintegração de posse e a prefeitura deu início à assistência social, sinal de que o caminhão da mu­­dança estava por perto. Mas nada disso fez com que a turma do Barracão aceitasse a consolação de uma casinha de alvenaria em alguma rebarba de Curitiba.

A postura “daqui ninguém me tira” causa espanto. Até gestores públicos tarimbados se perguntam por que aquela gente insiste em morar espremida, em condições sanitárias lastimáveis e sujeita à rejeição da vizinhança. Afinal, o programa “Minha Casa, Minha Vida” nasceu para salvar a nau dos miseráveis – ergue casas de R$ 28 mil, com carências de mensalidade que podem chegar a dois anos e mensalidades que nunca ultrapassam 20% da renda.

A resposta sai na ponta da língua. A favela não está entre as melhores – mas o outro lado da rua melhora a cada dia. Para os que ainda não se situaram, a Sociedade Barracão fica na margem Sul da Linha Verde, de frente para a Estátua da Liberdade da Havan. Em sua redondeza há duas creches e duas unidades de saúde, além de boas escolas públicas.

Tão bom quanto é a oferta de matéria-prima. Basta dar algumas pernadas até a Avenida Salgado Filho. Em miúdos, a área está a anos-luz dos reassentamentos da Cohab, onde coletar papel, plástico e alumínio é tão difícil quanto encontrar um oásis no deserto. E oferece ganhos secundários aos carrinheiros, aspecto nem sempre contabilizado pelos analistas de habitação.

Os limites entre o Boqueirão e o Uberaba estão longe de ser um Ahú ou Los Angeles, mas melhoraram muito com o empuxo econômico da classe C. A turma do Barracão encontrou famílias amigas nos sobrados, das quais ganha caixas de leite, roupas e comida. Sair dali é sair perdendo. São as regras da informalidade.

A conversa no ônibus pôs tu­­do isso às claras. Os membros da So­­ciedade Barracão têm baixa ins­­trução, mas fazem contas com as solas dos pés. Ir e vir da no­­va casa até o “emprego” lhes exigiria 50 quilômetros diários de maratona, carregando, não ra­­ro, 100 quilos de papel. “Nin­­guém tem reciclável nas bandas do Ganchinho. Do que é que a gen­­te vai viver?”, diz Eledir Ro­­drigues, 45 anos, uma das líderes. “O Parque Iguaçu 3 deveria ser um cemitério”, provoca o co­­letor Josmar Narciso, 28. “Va­­mos resistir”, avisa, ao descer na Rua José Maurício Higgins, sua casa.

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