Publicidade
Abastecimento

Água suja deixa 3 mil doentes por ano em Rio Branco do Sul

Cerca de 10% da população já teve problemas de saúde pela falta de tratamento da água. Situação deve mudar a partir de agora

Sem alternativa, moradores de Rio Branco do Sul retiram água de bicas: algumas próximas a esgoto | Antonio More/Gazeta do Povo
Sem alternativa, moradores de Rio Branco do Sul retiram água de bicas: algumas próximas a esgoto (Foto: Antonio More/Gazeta do Povo)

Há cinco anos, a cidade de Rio Branco do Sul, na Região Metro­­­politana de Curitiba, registra anualmente uma média de mais de 3 mil casos de diarreia. Num universo de cerca de 30 mil habitantes, cerca de 10% da população já procurou as unidades de saúde por causa do problema. Não há tratamento de água na cidade, que é abastecida por 14 poços artesianos, cuja água vai direto para as residências sem uma dose sequer de cloro ou flúor. Essa realidade deve mudar.

A relação direta entre a ausência do serviço e os problemas de saúde – que podem ser maiores, já que muitos não procuram um médico – motivou a prefeitura a buscar a ajuda do governo estadual. Em janeiro, foi assinado um contrato, com duração de 30 anos e no valor de R$ 16 milhões, que confere à Sanepar (Companhia de Sa­­­neamento do Paraná), empresa de economia mista do estado, a responsabilidade pela execução do serviço.

Será preciso começar do zero. "Não há projetos e nem mesmo um cadastro de quantas casas recebem a água através desse sistema", explica o gerente regional norte de Curitiba da Sanepar, Paulo Franco. O material das tubulações também está corroído e até fora das normas, e deverá ser trocado. "Há vários tipos de materiais diferentes que foram sendo usados e até mesmo alguns que são proibidos por oferecerem riscos à saúde, como é o caso do amianto. Isso tudo será trocado".

Para os 30 mil habitantes, a mudança significará menos gastos com galões de água, menos idas às bicas que "quebram o galho" de quem não pode comprar o produto no mercado, menos risco para saúde (algumas bicas ficam próximas a esgoto a céu aberto) e menos incômodo com a falta de abastecimento em determinados horários do dia. Sem claro, pensar em se livrar da sujeira (areia e pedra) que sai da torneira.

Água marrom

Na residência da dona de casa Elizabete Faria da Rosa, moradora há oito anos do Jardim Abrão, toda a família já sentiu os efeitos da água de cor turva que só "aparece" na torneira durante a manhã e à noite. "Não consigo beber isso. Uso para cozinhar e lavar, e sempre fervo, mas já tive dores no estômago, dor de cabeça e ânsia, assim como meu irmão e meus filhos. O médico diz que é por causa da água suja", diz.

Na casa da família do mecânico Roberson Gerson Pontes, na Vila São Pedro, "a água sai marrom, quase preta", diz ele. O pai dele desistiu de usar a água da torneira para beber e passou a comprar galões, mas para lavar a louça e cozinhar não há alternativa. Todos já sofreram com problemas de saúde. "O pessoal vive com dor de barriga e dor no estômago, mas já se acostumou, nem vai ao médico e espera passar. Só pode ser a água".

Apesar da assinatura do contrato, as obras só devem começar no segundo semestre de 2012. A primeira fase, que está em desenvolvimento, inclui desativar 10 dos 14 poços atuais, perfurar um novo poço e tratar a água com cloro. Posteriormente serão trocadas as tubulações e construídas adutoras, elevatórias, reservatórios e uma casa de desinfecção. Também será construída uma Estação de Tratamento de Esgoto, ao custo de R$ 30 milhões.

Piores índices são de regiões metropolitanas

É nas regiões metropolitanas que estão os pontos considerados mais críticos em relação à qualidade da água consumida no país. Estudo divulgado no segundo semestre de 2011 pela Agência Nacional das Águas (ANA) mostra que praticamente 90% dos pontos de abastecimento, com parâmetros ruins no Índice de Qualidade das Águas (IQA), estão nas proximidades de grandes capitais.

Dos 1.747 pontos analisados, 9% foram considerados péssimos; 71% foram considerados bons, 16% foram classificados como regular, e 4%, como ótimos. Entre os pontos péssimos estão as regiões metropolitanas de Curitiba, Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, além de cidades de médio porte como Juiz de Fora (MG) e Campinas (SP).

De acordo com o presidente-executivo do Instituto Trata Brasil, Edison Carlos, o problema é causado por ações que hoje são mal fiscalizadas e pouco coibidas pelas prefeituras, como ocupação irregular de áreas de preservação, poluição de fundos de vale com lixo doméstico e industrial e a realização de "gatos" na tubulação.

"Com o aumento da população nessas áreas, é preciso haver maior fiscalização do município. Isso, porém, só ocorrerá com maior cobrança dos cidadãos, que devem deixar de ser omissos", diz Carlos. Entre os meios sugeridos está a criação de agências reguladoras municipais para fiscalizar as empresas concessionárias e a exigência de laudos mensais sobre a qualidade da água.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.