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Fernando Martins

Amor e ódio nos tempos do consumo

Texto publicado na edição impressa de 19 de setembro de 2012

O filme que ironiza Maomé provocou a fúria do mundo islâmico. Povos tão diferentes quanto árabes e indonésios têm saído às ruas em violentos protestos. O que os agrega neste momento não são tão somente as ofensas ao Islã mostradas no tosco vídeo, mas principalmente o antiamericanismo. E, por mais que tudo pareça sintoma do atraso histórico dos muçulmanos, há algo comum que os aproxima do Ocidente: o ódio ao diferente – algo latente em todas as sociedades e que funciona como uma cola que une as pessoas muito mais facilmente que qualquer outro sentimento.

A história do Ocidente está repleta de ira e intolerância contra o “outro”. Guerras foram deflagradas em nome de Deus, da nação e das ideologias “corretas”. O filósofo francês Luc Ferry vê, porém, uma evolução. Segundo ele, os ocidentais não estão mais dispostos a morrer pela religião, pela pátria ou pela revolução. Mas os ideais do passado, diz Ferry, foram substituídos pela competição econômica e pelo consumismo – fatores que também podem provocar ódio. Sob determinadas condições, esse rancor irrompe violentamente.

No Brasil, a nova modalidade de ódio ao “outro” se expressa na crise da segurança pública. Existe ainda inveja enrustida na desconfiança contra os bem-sucedidos, os ricos e os empresários – vistos por uma parcela da sociedade, de forma simplista, como exploradores do povo. De modo inverso, há um incômodo provocado pela ascensão de uma nova classe média, que disputa espaço e prestígio com os antigos ocupantes dessa posição social.

Luc Ferry entende, contudo, que existem hoje condições para que o Ocidente supere os riscos do novo ódio. Para ele, está em curso a “revolução do amor”. O casamento romântico, afirma o filósofo, é algo relativamente recente. Surgiu quando os assalariados se emanciparam economicamente e puderam escolher com quem casar em função do sentimento e não das posses. Isso deu ao homem uma nova razão pela qual vale a pena se arriscar: as pessoas amadas, principalmente os filhos, antes vistos como mão de obra ou herdeiros do patrimônio familiar.

Esse afeto, diz o filósofo, implica importar-se com o mundo que os pais vão legar à sua prole. Isso provocou preocupações contemporâneas tais como a preservação ambiental, a qualidade da educação, a harmonia comunitária. Nesse sentido, uma “pedagogia amorosa” familiar e social teria o poder de conter os riscos desagregadores do consumismo. Mas nada será fácil, alerta Ferry. Amar sempre deu mais trabalho que odiar.

Correção

Cometi um erro na última coluna. Afirmei que a democracia havia sido inventada há 1,5 mil anos. Na verdade, ela surgiu há 2,5 mil anos – portanto, 25 e não 15 séculos atrás, como estava escrito.

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