Seu app Gazeta do Povo está desatualizado.

ATUALIZAR

Enkontra.com
PUBLICIDADE

Perfil

Cid Nostalgia

Ele completa 60 anos da primeira fotografia, 50 do primeiro resgate de acervo fotográfico e 20 da coluna Nostalgia da Gazeta do Povo. Nesse período seu nome se tornou sinônimo de memória

 |
 
0 0 COMENTE! [0]
TOPO

Cid Nostalgia

O curitibano Cid Destefani tinha míseros 6 anos de idade quando viu passar pela rua um homenzarrão com tela e cavalete debaixo do braço. Ao seu lado, um menino. O encontro se deu na esquina da Avenida Batel com a Ângelo Sampaio. Cid lembra ter ouvido o tal dizer que ia retratar a casa em que morava, para que o filho nunca a esquecesse – “assim como se fazia na Itália.”

Tempos depois, já aluno do Colégio Belmiro César, um Cid adolescente descobriu que o tal era ninguém menos que o pintor Guido Viaro. Virou um espelho. Logo, o artista plástico mais festejado do Paraná inspiraria o piá que circulava pela Ângelo a se tornar um “Guido das fotografias”, ocupado em não deixar ninguém esquecer a casa onde nasceu.

O acervo fotográfico de Destefani é um assombro: ultrapassa 500 mil negativos – raridades que os leitores da Gazeta do Povo conferem há exatos 20 anos, nas edições dominicais da coluna Nostalgia. Além de garimpar fotos antigas, “El Cid” se dedica a outro tipo de coleção: a de histórias, tarefa na qual é craque.

De tão afiado, raríssimas vezes foi contestado. Num dos telefonemas que atendeu, falava do outro lado ninguém menos do que o historiador Júlio Moreira. A prosa começou com uma bobagem qualquer e terminou com Moreira se declarando fã da página – o que é de praxe no encontro com os leitores. A sessão está entre as cinco que mais cartas recebem na Gazeta do Povo. E não raro Cid é parado na rua, particularmente a XV, onde costuma flanar.

Foi na XV, aliás, que em maio de 1989 o jornalista e advogado Francisco Cunha Pereira Filho o puxou pelo braço e o trouxe até a redação do jornal, na Praça Carlos Gomes. Em território próprio, intimou-o a levar adiante o projeto de uma coluna com fotos de época. Cid se rendeu. “Doutor Francisco acreditava que ia dar certo. Ele dizia: ‘Isso dá leite’”.

Deu. Sem saber do impacto da novidade, o pesquisador bateu na porta do arquivo da Gazeta, um dia depois da estreia, em 4 de junho de 1989. Pediu ao Roberto Moretti, o “Elvis”, uns exemplares para guardar. “Não sobrou nenhum para contar história, seu Cid.”

Esquecer, jamais

Esquecer é verbo que não cabe no vocabulário de Cid. Filhos e amigos ficam pasmos diante da quantidade de dados guardados na sua caixa-preta, em especial sobre as “vidas cruzadas”. Queixos caem quando ele diz que os quintais de fulano e beltrano faziam divisa num terrenão qualquer do Bacacheri, detalhe que costuma remeter o leitor à bucólica Curitiba da idade das carroças. Uma delícia.

Dá para arriscar uma hipótese. Alguns dos antepassados de Cid foram membros da Colônia Cecília – mítico grupo anarquista formado nos Campos Gerais. O assunto era motivo o bastante para que, desde menino, se interessasse mais pelo passado do que por bodoques.

Para ajudar, tudo indica que tenha sido abastecido na infância não só por doses faraônicas de óleo de fígado de bacalhau, o que justifica seus 1,86 metro, mas por miudezas do cotidiano. Seus avôs paternos, Marco Giuseppe e Mariana, eram agregados de ninguém menos do que o Barão do Serro Azul. Foi dali – do jardim ou direto da porta da cozinha – que os Destefani de antanho registraram flertes, acordos, gafes e o que mais a natureza humana possa reservar.

Marco, sabe-se, levava o jogo do bicho para a baronesa, que não dispensava uma fezinha como qualquer reles mortal. Cid, contudo, aponta como sua maior influência uma tia, Elisa Gural, carola cinco estrelas que trabalhou para Chico Serrador, dono do Coliseu – maior centro de diversões da cidade no início do século. Pronta para ser incensada nos altares, Elisa catequizou o sobrinho na virtude da rememorar.

Além das parentas faladeiras, a geografia também ajudou na formação do historiador. Ele viveu boa parte de sua vida nas cercanias da Praça do Japão. O local era uma espécie de divisa entre uma Água Verde com jeitão de “colonha” e um Batel metido a Paris. Era do lado mais cosmopolita da região, no 1.202 da avenida, que Amadeu, o Lulo, pai de Cid, tinha uma sapataria famosa, conhecida como “Academia da Mentira do Batel.”

Amadeu era um tipo. Gostava tanto de natureza que se mandava para a Serra do Mar e ficava 15 dias sem dar notícias. Quando voltava, a clientela se fazia toda ouvidos para as narrativas fantásticas do italiano. Cid, que tem urticária a invenções, não imitava o pai, mas por pouco não se converteu num dos causos da sapataria. Mesmo sem ser rico, tinha amigos de fina-cepa e frequentava boas escolas. Mas para desespero da mãe Josepha, não sabia bem o que queria da vida.

Ainda guri, foi estafeta na Saúde Pública. De outra feita, o pai o empregou numa oficina mecânica do Faustino, sem sucesso. E em 1953 encarou uma missão surreal: ajudou a limpar a ossada de uma baleia trazida à capital para uma exposição. Cid deixou o esqueleto tinindo e se mandou. Àquela altura, já sabia o que queria – fotografar.

Pouca gente ouviu dizer, mas o primeiro impulso de Destefani foi seguir as artes. Tinha o traço tão bom que chegava a ser disputado pelas moças da redondeza para ajudá-las nas lições de Desenho. Ele não comenta, mas não deve ter sido apoiado na empreitada, de modo que procurou uma segunda opção. A descoberta veio com a ajuda de um amigo de escola, Manfredo Schiebler, dono de um estúdio de revelação. A dupla registrou os aviões no Aeroporto do Bacacheri, estreia de Destefani. Tinha 13 primaveras e sua primeira máquina foi uma Bilora. Anos depois, quando avisou em casa que ia ser fotógrafo, ninguém chiou: “Meus pais ficaram bem satisfeitos que eu tivesse um emprego”, diverte-se.

Em 1958, o Cid fotógrafo já era uma realidade. Fazia imagens para a Gazeta do Povo. E para surpresa geral, em 1959, entrava em gestação o “Cid Nostalgia”. Tudo começou por acaso. Durante uma campanha política para o deputado federal Accioly Filho, Destefani se viu no sótão da antiga Foto Kabsa, diante de uma arca pilhada de negativos. Copiou o que pôde, dando início a uma expedição que o tempo não pára.

Em poucos anos, a casa dos Destefani, na Praça do Japão, virou um museu de imagens. Com a ajuda de amigos, passou a resgatar acervos familiares. “Tem mulher que diz: ia jogar fora. Isso tudo me lembra o falecido”, conta, ao manusear os arquivos em que seu acervo está mais ou menos organizado. O pedido que faz aos visitantes, “por favor, não esbarre em nada”, ilustra o estado das coisas.

A tese de Cid é que se arrumar muito, ele não vai achar mais nada. Faz sentido. É só perguntar por um jogo do Britânia em 1960 para ele meter a mão nos montes de envelopes e pegar o que estava procurando. “Eu não venço”, esbraveja feito um profeta sobre a montanha dos fichários. Daí sua irritação quando alguém liga pedindo fotos emprestadas: “Minha senhora, aqui não é museu. Isso aqui me custou 50 anos de trabalho.”

E pensar que Guido Viaro, ao saber que o pupilo trocara as artes pela fotografia, lhe passou um sabão: “Optou pelo mais fácil, hein!” O mestre se enganou: Cid Destefani só quer que ninguém esqueça como era o lugar em que nasceu. “Dá trabalho barbaridade.”

o que você achou?

deixe sua opinião

PUBLICIDADE

mais lidas de Vida e Cidadania

PUBLICIDADE