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O tema do desaparecimento do futebol, um fenômeno que vem de longe, mas que agora voltou

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Na tarde de ontem, foi fechado o último estádio brasileiro, no Pla­­­nalto Central – havia 97 pessoas na arquibancada, portando faixas saudosistas, e muitos levaram donativos não perecíveis aos jogadores. Além dessa ajuda, cada espectador pa­­gou 5 vales-jogos (padrão à vista) para assistir ao espetáculo. O jo­­go, que estava zero a zero, terminou na metade do terceiro tempo, quando o goleiro Pe­­çanha, de 53 anos, se sentiu mal – o centroavante Ahridysson, autor de 4 gols na temporada de 2097, no último torneio do país, emprestou sua velha camionete Pátria para levar o colega enfermo ao Hospital Unificado. Em solidariedade, os jogadores interromperam a partida, sob as palmas da plateia comovida, que incluía alguns familiares dos atletas.

O grande Elefante Branco, como era carinhosamente co­­nhe­­cido o campo de esportes projetado para a Copa do Mundo de 2014, mas que só ficou completamente pronto na Copa de 2054, ao custo total de 722 bi­­lhões de vales-estádios (padrão a prazo), nunca chegou a ocupar seus 80.000 lugares, exceto nas Sete Marchas dos Apóstolos do Quarto Milênio. Na última delas, um desabamento no anel superior, provocando a morte de 322 pessoas, interditou durante três anos o local. Na próxima semana o Elefante será enfim demolido para a construção da Asa Norte do Arqui-Shopping Urbano de Guarapimba III.

O tema do desaparecimento do futebol, um fenômeno que vem de longe, mas que agora voltou a chamar a atenção dos estudiosos, tem sido objeto de mesas-redondas na televisão oficial do país. Ainda ontem o Canal do Es­­tado en­­cerrou uma grande enquete sobre o tema. O resultado foi curioso: apenas 7% da população sabia o que era “futebol”, o que significava “escanteio” e como se devia cobrar uma “bola lateral” – muita gente afirmou que ainda deve ser cobrada com as mãos. Entre os que declaravam conhecer o antigo esporte, apenas 12% acertaram o número oficial de jogadores em campo (nove), e não mais de 7% sabiam que o jogo tinha três tempos de 30 minutos cada.

Filmes antigos, al­­guns já elaborados no hoje obsoleto sistema de 3D (que exigia curiosos óculos escuros especiais, sem fio, para apreciação das imagens) revelam as inacreditáveis multidões que enchiam as praças de esporte, de tal modo que muitos espectadores escreveram às redações sugerindo que aquilo era uma montagem grosseira de estúdio. Utilizando um método neocartesiano de patente finlandesa, um leitor comprovou a impossibilidade matemática de que a simples visão de pessoas chutando uma bola num cercado verde, sem a menor chance do espectador entrar no campo e participar do evento, pudesse atrair aquelas multidões. A ideia de que países eram representados a sério por um conjunto de jogadores em competições intercontinentais, as célebres “Co­­pas”, descritas detalhadamente por um arqueólogo cultural, foi recebida en­­tre risadas pelos próprios pa­­lestrantes.

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