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Cristovão Tezza

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O ovo, a galinha e o ninho

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Muito se tem discutido, no calor da campanha, sobre quem baixou antes o nível, fazendo desta eleição ou um retorno à Idade Média, com padres e pastores dando a pauta do país, ou um encontro de brucutus na internet e na vida real, trocando pancadas diante do eleitor assustado. Seria como decidir o que veio antes, se o ovo ou a galinha – uma discussão inútil. Mas o ninho dessa despolitização brutal da nossa vida pública tem nome e endereço: Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto. Ancorado num prestígio que lembra a velha unanimidade albanesa, mas aqui com base real no crescimento econômico do país, Lula jamais se sentiu perfeitamente confortável no papel de presidente. A figura assombrosa da nossa história que, sem jamais ler um livro na vida, fez um governo que agradou profundamente tanto aos banqueiros como aos dependentes da bolsa-família, começou ela mesma a acreditar em milagres, assumindo de vez o papel de santo da pátria que o país ostensiva ou secretamente passou a lhe atribuir.

É uma sucessão ininterrupta de façanhas. Lula é um trator de terraplenagem política. De uma vez só, em golpes de frases e es­­­­pertezas, faz o fiel petista votar em Roseana Sarney e Hélio Cos­­­ta, determina uma desconhecida como candidata, diz que Jesus Cristo também tinha barba, promete exterminar os adver­­­­sários, e vem usando o Estado com uma sem-cerimônia sem paralelo na história da nossa democracia. Retoricamente, comporta-se como um líder de torcida organizada, no calor dos portões abertos, gritando de tacape na mão em cima de um caixote, no permanente estímulo da rinha que foi sua vida inteira.

Essa é a parte popular, o deleite do efeito fácil. Na parte mais sofisticada, bancos oficiais e estatais trabalham noite e dia em defesa feroz do governo. A própria publicidade de empresas oficiais se confunde com a publicidade de governo. Uma disciplinada rede de correligionários, em todas as instâncias do aparelho de Estado, funciona pela mesma lógica do comando que vem de cima.

Uma lógica que não se justifica mas se compreende pela, digamos, “cultura política” do país. O que para mim não faz nenhum sentido é ver até a universidade pública sucumbindo a essa lógica, como braço dócil de governo. Hoje, a rede federal de ensino superior tranformou-se numa central da intelligentsia de Estado, radicalmente incapaz de autocrítica e transformação – está em 150.º lugar nos rankings internacionais, e o Brasil é a sétima economia do mundo. Absolutamente nada indica que ela vá melhorar – a máquina gigantesca virou a sua própria razão de ser. Mas todo dia recebo e-mails oficiais de setores da universidade conclamando-nos à “luta” em abaixo-assinados pró-governo, que se fecham com “saudações universitárias”. Um pouco de pudor à instituição não faria mal a esta altura do campeonato, que, segundo dizem, já estaria ganho.

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