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Cristovão Tezza

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Cristovão Tezza

Três por cento

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TOPO

Escrevo dos Estados Unidos, onde participo de encontros literários a convite das universidades de Chicago, Madison e Washington. Brasileiro distraído, imaginei votar em trânsito, mas teria de ser eleitor registrado no país. Assim, lamentei não votar pela primeira vez desde 1970, quando anulei a cédula em protesto contra a ditadura. Mas os 3% do título não se referem a eleições ou pesquisas, assuntos de quem acompanhou a liça de perto.

É que descubro que apenas 3% das obras de ficção publicadas nos Estados Unidos são traduções de obras estrangeiras. Na Inglaterra, essa porcentagem sobe, mas não muito: 5%. Em outras palavras, o mundo da literatura em língua inglesa é autossuficiente. No amplo universo que abarca dos Estados Unidos à Austrália, passando por Ingla­­­terra, África do Sul e outros países multilíngues, como Paquistão e Índia, leem-se autores que escrevem em inglês, e praticamente mais nada.

Tirante a Inglaterra, outros países da Europa são um pouco mais receptivos às traduções (como a França – lá, a metade dos livros de ficção lidos são traduções). Em qualquer caso, a literatura brasileira é mundialmente irrelevante, em números e nomes, se queremos ser realistas. A exceção é o fenômeno Paulo Coelho, que confirma a regra, até porque sua obra não se insere no que classicamente marcou-se como “literatura brasileira”, uma linguagem e um modo de ver o mundo que se marca por parâmetros como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Dalton Trevisan.

Há muitas explicações para a nossa desimportância literária. A mais comum seria o isolamento da língua portuguesa, “esplendor e sepultura”, na célebre imagem de Olavo Bilac. Talvez seja uma variável, porque há poucos leitores da língua no resto do mundo – mas o que diríamos do isolamento do russo (perturbado ainda pela escrita cirílica), que praticamente comandou a modernidade literária na entrada do século 20? Muito provavelmente nossa irrelevância não é apenas um problema linguístico.

Talvez seja o caso de começar a pensar de outro ângulo, descartando a hipocrisia patriótica: por que, no próprio Brasil, a literatura brasileira ocupa hoje também apenas os seus 3% de circulação? Brasileiro raramente lê brasileiro – basta conferir os best-sellers. Se nós temos dificuldade para nos ler, por que os estrangeiros deveriam se dar ao trabalho? O poeta José Paulo Paes dizia que o Brasil só produz “biscoito fino”, mas não o feijão com arroz narrativo que realmente crie leitores, como no resto do mundo. Não sei se é o caso. É preciso lembrar que, em outros momentos da nossa história, grandes autores brasileiros foram best-sellers imbatíveis, como Jorge Amado e Erico Verissimo. Quem sabe o próprio conceito de literatura não tenha ainda se reencontrado nos novos tempos?

Sem resposta, o cronista fica por aqui.

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