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Dante Mendonça

Na lida da paixão

Tenho paixão pela cor, forma e sabor do tomate. E sei quanto é difícil cultivar o tomateiro

 | Daniel Castellano/Gazeta do Povo
Daniel Castellano/Gazeta do Povo
 
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DE ROMA – As escrituras não comprovam, mas o Paraíso de Adão e Eva poderia ter se localizado em algum ponto da Itália – o giardino del mondo, conforme se orgulham os italianos. Se assim fosse, sem dúvida nenhuma a fruta tão desejada não seria a maçã. Seria o tomate, justamente chamado de pomo d’oro.

Da família Solanaceae, a mesma do pimentão, jiló, berinjela e batata, o tomate é um fruto gerado a partir da fecundação da flor do tomateiro. Originário dos Andes, foi utilizado pelos europeus como planta ornamental até cair nas mãos dos italianos por volta de 1500, quando foi batizado de pomodoro.

O general De Gaulle dizia que não tinha condições de governar um país como a França, onde existem 246 variedades de queijos. Já a Itália é ingovernável por causa de suas tantas variedades de tomates. Cada uma delas indicada para uma finalidade na cozinha: pomodori datterini (saladas, massas, omelete, tortas, ótima para a bruschetta); cuore de bue (perfeita para a salada); San Marzan (nasceu para uma bella pomarolla); pomodoro fiorentino (com ela se faz a Papa al Pomodoro, sopa à base de tomate e pão; Pomodoro Piccadilly (para receitas de massa, carne, risoto); Pomodoro Marinda e o Pomodori rossi a grapolo (para saladas).

O tomate era de fácil comercialização e renderia um bom lucro, mas é um fruto dos mais sensíveis às pragas

Como descendente de italianos, tenho paixão pela cor, forma e sabor do tomate, principalmente no exuberante Mercato Trionfale de Roma. Além da paixão, sei quanto é difícil cultivar o tomateiro. E sei o custo do tomate pelo seguinte: estudei num colégio agrícola. Regime interno, com uma agenda assustadora para os meninos da cidade: 6 horas, despertar; 6h30, estudar ou tirar o leite das vacas; 7h30, café da manhã; 8h30, aula; 12 horas, almoço; 14 horas em diante, trabalho na roça. Por isso posso dizer que comecei a trabalhar aos 14 anos, no cabo da enxada. De 1964 a 1968, foram cinco anos de concentração no campo. Ou seria um campo de concentração onde plantei e colhi morangos, cenouras, milho, feijão, arroz, batatas, laranjas, abobrinhas e, principalmente, tomates.

Como parte do aprendizado agrícola, os alunos recebiam uma pequena área de terra e financiamento da cooperativa agrícola colegial para plantar o que cada um escolhesse. Ambicioso, optei por plantar tomates. O tomateiro prefere climas subtropicais ou temperados, frescos e secos. Produz em qualquer solo, mas prefere os arenoargilosos, frescos, soltos, permeáveis ou de fácil drenagem.

O tomate era de fácil comercialização e renderia um bom lucro, porém (se não é o governo, sempre tem um porém para atrapalhar os negócios) é um fruto dos mais sensíveis às pragas. E este foi o erro do ambicioso. Após o transplante das mudinhas, com o tomateiro viçoso e prometendo uma boa colheita, alguém rogou uma praga e a praga me levou a comprar um poderoso agrotóxico. Errei na dose. Apliquei o inseticida num fim de tarde e, na manhã seguinte, não sobrou nem sequer um tomate cereja para contar a minha história de fracasso.

É errando que se aprende. Aprendi as manhas da simplicidade e fui plantar abobrinhas. Até hoje gosto e tenho boas lembranças das abobrinhas. Abobrinha não é batata, mas quando nasce também se esparrama pelo chão. Uma cova aqui, uma semente acolá, não requer muita prática e habilidade. Com um ganho a mais: sem gastar dinheiro com agrotóxicos, elas ficam com mais valor agregado.

Depois de largar enxada e pegar no cabo da caneta de jornalista, precisei me reinventar algumas vezes. Agora, com a morte anunciada dos jornais impressos, de olhos cansados e mãos calejadas de tanto lápis, pincel e teclados, digo com muito orgulho que, se preciso for, volto à lida dos tomates. Eu sei o quanto custa cuidar dos tomateiros. Paguei o preço. Mas também posso ir plantar batatas.

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