Seu app Gazeta do Povo está desatualizado.

ATUALIZAR

story
Enkontra.com
PUBLICIDADE
Dante Mendonça

Dante Mendonça + VER MAIS COLUNISTAS

Dante Mendonça

Velório do Caixa Dois

Há quem atribua a origem da surrada expressão de que “tudo vai terminar em pizza” ao caráter mezzo preguiçoso, mezzo cordial do brasileiro

 | Beto Barata/Presidência da República
Beto Barata/Presidência da República
 
0 0 COMENTE! [0]
TOPO

Jaguara, o animador de velórios dos Campos Gerais, foi convidado para participar das exéquias do Caixa Dois. Ainda não conhece o Jaguara? É um dos grandes personagens das bandas de São Luís do Purunã, Palmeira, Ponta Grossa, Tibagi, Lapa, São João do Triunfo e União da Vitória, tão famoso na região quanto os deputados que não querem deixar pedra sobre pedra da Escarpa Devoniana.

O que faz um animador de velórios? Ora, anima velórios contando histórias para passar o tempo e fazer o boi dormir. Ou então se faz passar por intelectual para impressionar plateias mais exigentes, quando discorre seus rasos conhecimentos sobre qualquer matéria. Principalmente hermenêutica, no que se refere à interpretação de textos nas áreas de religião e literatura.

Por maior e mais sério que seja um entrevero, as partes acabam abraçadas, chorando um nos braços do outro

Há quem atribua a origem da surrada expressão de que “tudo vai terminar em pizza” ao caráter mezzo preguiçoso, mezzo cordial do brasileiro. Por maior e mais sério que seja um entrevero, as partes acabam abraçadas, chorando um nos braços do outro – cenas próprias de um velório. Segundo o Jaguara, quem muito conhecia esse caráter nacional era o poeta e memorialista Pedro Nava: “No Brasil – dizia o autor do formidável Baú de Ossos –, se defunto não apodrecesse, aqui ninguém enterraria ninguém”.

Para ilustrar o jeito brasileiro, Jaguara costuma interpretar o texto de Pedro Nava para as distintas plateias enlutadas, com a cena de uma família em torno do falecido:

“Oh gente, quando é que vamos enterrar o vovô?” – perguntam os netos à mesa do café. “Hoje não, que está chovendo. Bota ele no sótão, vamos deixar para amanhã!” – responde o tio mais velho. Com o cadáver do vovô no sótão, no dia seguinte a netinha mais nova pergunta no café da manhã: “Gente... e o vovô? Quando é que o vovô será enterrado?” Faz-se um silêncio sepulcral na mesa e o chefe da casa determina: “Não podemos estragar o fim de semana de ninguém. Vamos deixar os procedimentos pra segunda-feira”. Os demais se entreolham com peninha do vovô, coitado, que jaz no sótão sobre uma mesa de passar roupa.

Entra a semana, o cadáver do vovô no sótão, os netos voltam ao tenebroso assunto, antes do jantar: “Gente... e o vovô? Quando é que vamos enterrar o vovô?” O chefe da família, com ar irritado, passa uma descompostura geral: “No Brasil, defunto não apodrece! Olhem bem pra minha cara pra ver se estou preocupado com o enterro do vovô! Está enterrado o assunto... e vamos todos à mesa que hoje tem pizza!”

No final da função, o Jaguara declama um poema de Pedro Nava que poderia ser uma ode ao presidente Michel Temer e aos pretensos anistiados do Caixa Dois.

Meus amigos, tenham pena,
senão do morto, ao menos
Dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
Sapatos pretos de verniz.
Olhem bem esses sapatos,
E olhai os vossos também.

Siga a Gazeta do Povo e acompanhe mais novidades

PUBLICIDADE

últimas colunas de Dante Mendonça

PUBLICIDADE