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O buraco de Baggio

Roberto Baggio está meio esquecido, mas é um grande personagem. Soube lidar com altivez diante das vicissitudes. E deu uma tocante lição de vida

  • fernandor@gazetadopovo.com.br
 | Monica Andrade/Masao Goto Filho
Monica Andrade/Masao Goto Filho
 
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É inevitável. Tem vezes que dá vontade de abrir um buraco, entrar nele e não sair mais dali. Há situações na vida em que a felicidade, a realização do sonho ou o alívio de uns implica nossa tristeza ou frustração. O contraste de sentimentos – dos felizes e dos infelizes – só aumenta a angústia de quem está por baixo. Não passar num vestibular (ou qualquer concurso) e ver a festa dos aprovados. Perder a vaga de um emprego para outro concorrente. Nestes tempos de crise, ser demitido enquanto colegas continuam no trabalho. Descobrir que a garota de quem você gosta está namorando – o maldito sortudo. E por aí vai...

O craque italiano Roberto Baggio – aquele do pênalti perdido na final da Copa de 94, que nos deu a alegria do tetra – é o infeliz azarado do texto de hoje. Mas não um azarado qualquer. Isso ficou claro para mim no último dia 18, quando ele completou 50 anos. Alguns veículos da imprensa brasileira lembraram elogiosamente do anti-herói da azzurra. Junta uma matéria aqui, outra ali, com uma memória de acolá... e então: Baggio está meio esquecido, mas é um grande personagem; merece uma crônica. Afinal, soube lidar com altivez diante das vicissitudes. E deu uma tocante lição de vida.

A felicidade que Baggio nos deu foi efêmera. Mais duradouras são as palavras e o exemplo

Nada foi fácil para ele. Antes mesmo de ser um atleta famoso, sofreu uma séria lesão no joelho. A dor iria ser sua companheira permanente. Reconhecidamente sereno, foi alvo do pior lado da paixão do torcedor ao trocar a Fiorentina pela Juventus, num fato que marcou sua carreira: protestos violentos contra sua mudança de clube deixaram 250 feridos.

Mas o pênalti perdido de 94 foi, definitivamente, seu fundo do poço. “Na hora, quis cavar um buraco para me esconder”, disse Baggio numa entrevista de 2010. Noutro relato à imprensa, de 2006, afirmou: “Só erra um pênalti quem tem coragem de batê-lo. Naquele dia, decidi bater e errei. Ponto final. Faz parte do jogo. Aquilo me marcou por muitos anos e ainda sonho com isso. Apagar aquele pesadelo da mente foi difícil. (...) Mas (...) entendi que, quando um homem se deixa vencer pela derrota, está renunciando à vida”.

Em 2013, escreveu uma carta endereçada à juventude, na qual dá sábios conselhos não apenas aos jovens, mas a todos os que querem enfrentar a vida com dignidade. Faço um breve resumo da carta a partir da tradução do texto feita por Leandro Stein, do blog Trivela:

Tenha paixão: “Não existe vida sem paixão e só é possível encontrá-la dentro de si mesmo. Não ouça ninguém que tente te influenciar”.

Encontre a alegria: “Aquilo que rende uma vida bem-sucedida é ser alegre no que se faz. Eu me lembro da alegria no rosto cansado do meu pai e no sorriso da minha mãe ao colocarem todos os oito filhos ao redor da mesa de jantar. É próprio da alegria fazer nascer aquela sensação de completitude, de quem está vivendo plenamente a própria vida”.

Tenha coragem: “É fundamental ser corajoso e aprender a viver acreditando em si mesmo. Ter problemas ou errar é (...) natural. O mais importante é se sentir satisfeito, sabendo que deu tudo, que fez seu melhor (...). Olhe para o futuro e siga em frente”.

Reflita sobre o que é ter sucesso: “O que significa ter sucesso? Para mim, é fazer na vida aquilo que se é, do melhor jeito possível”.

Não fuja do sacrifício: “Quando eu era jovem, sofri lesões nos joelhos que me criaram problemas e dores por toda a carreira. Precisei conviver e convivo com as dores graças ao sacrifício – que, asseguro a vocês, não é uma palavra ruim. (...) Não acreditem que as coisas chegam sem sacrifício. (...) O esforço e o trabalho duro constroem uma ponte entre os sonhos e a realidade”.

Acredite nos sonhos e tenha esperança: “Os que se esforçam continuamente são sempre plenos de esperança. Abrace os seus sonhos e persiga-os. Os heróis do dia a dia são aqueles que dão sempre o máximo na vida”.

Baggio chutou uma bola fora em 94. Uma bola decisiva. “Na hora, quis cavar um buraco para me esconder. Depois, pensei que, como o Brasil tem muito mais habitantes que a Itália, fiz mais gente feliz com aquela cobrança.”

De fato, foi uma felicidade para nós, brasileiros. Efêmera. Mais duradouras são as palavras. E o exemplo de como sair do buraco. Obrigado, Baggio. E feliz aniversário (atrasado)!

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