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O dilema curitibano: capivara ou quero-quero?

Dois perfis do curitibano, simbolizados pelos expoentes de nossa fauna urbana, costumam se alternar na história da brava capital das araucárias

 | Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
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Esqueçam a gralha-azul. Nada contra. Mas poucos a veem por aí. Muito menos o grimpeiro. Tá na lei: é a ave-símbolo de Curitiba. E daí? Quem sabe apontar um com precisão quando o avista? Se tivesse de escolher um bicho para dizer que representa a cidade, teria apenas uma dúvida. Quero-quero ou capivara? Afinal, a gente sempre topa com um deles pelos parques da cidade.

E diria mais. O curitibano vive um dilema zoo-shakespeariano. Ser ou não ser: capivara ou quero-quero? Ora somos mais o pássaro desconfiado. Ora escolhemos a simpática roedora. Desde sempre.

O quero-quero costuma ficar na dele. Mas não chegue perto de seu território. E principalmente de sua cria. Ele vai defendê-la com unhas e dentes. Ops... Com esporadas e bicadas.

Reza a lenda que o curitibano típico é desse jeitão. Sujeito família. Mas fechado. E receoso das “ameaças” que vêm de fora: “Humm, essas estrangeirices”.

Já a capivara é mais sociável. Vive em grupos. Deixa passarinhos pousarem em suas costas sem ver nisso nenhum problema. Algumas são dóceis como cachorrinhos; sem receio permitem que nós, humanos, nos aproximemos. Há quem veja nisso um risco: “Elas carregam nos pelos o carrapato-estrela, que causa uma febre perigosa”. Pode ser. Há quem sugira inclusive o extermínio delas (ou ao menos sua remoção dos parques). Tudo em nome do bem comum.

Ora somos mais o pássaro desconfiado. Ora escolhemos a simpática roedora. Desde sempre

É possível traçar um paralelo dessas características capivarianas com as do “novo curitibano”: alguém que saiu da toca; que é mais descontraído, sociável e aberto às novidades. Mas tem gente que vê carrapato-estrela nisso aí.

O fato é que esses dois perfis do curitibano, simbolizados pelos expoentes de nossa fauna urbana, costumam se alternar na história da brava capital das araucárias.

É difícil saber se os pioneiros da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais eram simpáticos ou não. Mas fechados ao novo, com certeza não. Afinal, o Primeiro Planalto seiscentista era uma terra inóspita. Chegar e se estabelecer aqui era tarefa de aventureiros. Gente talhada para o inesperado.

Também dá para especular que havia algum convívio com o “diferente”. No caso, os índios. Dizem inclusive que foi o cacique Tindiquera que conduziu os primeiros curitibanos ao local onde hoje fica a Praça Tiradentes e escolheu esse lugar para os brancos montarem acampamento: “Taki keva! Coré Etuba!”. Algo mais ou menos assim: “É aqui, galera! Tem muito pinhão! Não vai faltar comida”.

Mas aquela Curitiba iria virar quase uma ilha perdida no Sul do Brasil. Uma terra congelada no tempo. Mera passagem de tropeiros que não faziam muita questão de fincar raízes. Foi assim por uns dois séculos.

Teria sido essa a gênese do curitibano fechado, desconfiado, tipo quero-quero. “Não fale com estranhos” – a palavra de ordem. Afinal, estranhos não vão ficar aqui. Podem ser “perigosos”.

Uma curiosidade adicional: há estudos indicando que o sotaque leite-quente também é subproduto desse isolamento. Escreve-se “leite” e não “leiti” porque era assim que se falava nos tempos do epa. Um jeito de falar arcaico que só se manteve pela quase ausência de intercâmbio dos curitibanos com o resto do país.

Mas eis que chegaram os imigrantes, nos fins do século 19. Por certo que houve conflito, desconfiança quero-queriana. A arquitetura de nossa mais que centenária catedral, por exemplo, é fruto dessa disputa. Os tradicionalistas queriam que a nova igreja, a ser construída porque a antiga ia cair, fosse barroca – a escola brasileira. Para eles, o neogótico era uma estrangeirice de recém-chegados. Venceu o novo. A prova está aí, serena, na Tiradentes.

E o novo teve mais vitórias. Aos poucos, a cultura dos imigrantes foi se misturando à dos antigos. E virou motivo de orgulho para o curitibano. Foi o renascimento do espírito de capivara.

Porém, nada dura para sempre. E o quero-quero voltou a sobrevoar os céus corriqueiramente cinzentos da capital, embalados pelos ventos da aversão aos de fora – gente que passou a ser acusada de “estragar” a cidade de Primeiro Mundo. Acusada, aliás, por quem teve pais ou avós vindos de fora.

Mas, de uns tempos para cá, ao que tudo indica, as capivaras estão tirando as fuças do banhado de novo. Que assim seja.

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