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Semente mágica

É possível encarar a besta-fera. É difícil. Mas o ardil da dor (e do medo) está em parecer maior do que de fato é

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Gosto de pensar que nós somos como sementes. Não sementes comuns – como as do girassol ou da rosa. A do girassol, por suas próprias forças, só pode vir a ser girassol. A da rosa, roseira. Ambos são belos, a seu modo. Mas nós... Ah, somos muito mais. Somos sementes especiais. Mágicas. Guardamos o gérmen de ser quase tudo o que quisermos.

Um dia alguém quis ser pássaro. Demorou. Mas, de repente, voilà: a humanidade inventou o avião. Outro desejou ser peixe. E lá estão máscara de mergulho, tubo de oxigênio, pés-de-pato. E quantos disseram: “Vou ser bom”. E assim se tornaram. Ou então: “Enfrentarei o medo”. E viraram heróis.

Cada um de nós tem uma semente dentro do peito que diz quem somos de verdade. A nossa melhor e mais nobre versão. Em projeto. Não de fato. Aquele “eu” que gostaríamos de ser na frente de todo mundo. Mas que só se revela plenamente no silêncio do quarto. Uma pessoa que, por alguma razão, escondemos. Ou que só mostramos em partes. Timidamente. Por detrás de máscaras e véus. Não em sua inteireza. Um ser que ainda não é. Mas que busca sua perfeição: ser, simples e absolutamente, humano.

Só se angustia quem sabe que está perdido. Mas, na verdade, o angustiado está melhor. Mais perto da saída

Pois é. Tornar-se o que se é: um trabalho para a vida inteira. Sujeito a todo tipo de pedra no caminho. Cansaço. Olhares tortos. Julgamentos. Pressões. Injustiças. Desaprovações. Ninguém disse que seria fácil. Muitas vezes incomoda. Frustra. Machuca. Dói.

Todos nós, em algum momento da vida, escolhemos não encarar isso aí. E acabamos fugindo de nós próprios. Decidimos ser, ao menos parcialmente, o que pensamos que os outros querem que sejamos. Com aparências, distrações e futilidades que vamos encontrando pelo caminho, construímos muros para nos proteger daquele monstro: a dor e o medo de nos tornarmos o que somos lá dentro. E não percebemos que essas paredes acabam por formar um labirinto dentro do qual nos perdemos.

O irônico é que só se angustia quem sabe que está perdido. Este até parece estar em situação pior que os demais, que andam por aí como se soubessem para onde vão. Mas, na verdade, o angustiado está melhor. Mais perto da saída.

É claro, sempre se pode escolher fugir de novo. Perder-se ainda mais no labirinto. Tentar esquecer. Isso é compreensível.

No entanto, também é possível encarar a besta-fera. É difícil. Mas o ardil da dor (e do medo) está em parecer maior do que de fato é. Ela prefere nos assustar e fazer com que fujamos a ter de nos encarar. Porque sabe que não resiste àqueles que olham fundo em seus olhos e dizem, antes de enfrentá-la: “Eu não sou a minha dor. Minha dor é uma parte de mim. Não todo o meu ser. Sou maior que minha dor”.

Não nos iludamos: sairemos machucados dessa peleja. Talvez haja mais de um embate com ela. Muitos, quem sabe. Mas sairemos do labirinto. E então poderemos plantar aquela semente que guardamos no peito. E cuidar para que frutifique.

***

Nos últimos nove anos, busquei plantar algumas sementes neste espaço, todas as quartas-feiras. Bem, nem todas. Também sou filho de Deus e tive minhas férias... Mas tentei. Às vezes me perdi pelo caminho. Para então me encontrar. E tentar fugir de novo. Mas, no fim, desisti de desistir. A quem me ajudou nisso, uma única, mas profunda palavra: obrigado. Espero que, nessa jornada, tenha deixado alguns bons frutos. Isso, contudo, só vocês podem dizer.

Agora, cá estou. Esta Gazeta vai mudar. E meus textos também. Saio de todas as quartas para escrever uma vez por mês na edição do fim de semana. Desde já fica o convite para que me visitem no meu novo endereço. Ficarei feliz em recebê-los. Até mais.

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