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José Carlos Fernandes

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João Turin de ceroulas

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Súbito, o paranaense João Turin voltou à baila. Primeiro foi o baixo-astral do fechamento do espaço que levava o nome do artista, na Rua Mateus Leme. Depois, a ruidosa compra de suas peças pelo empresário Samuel Lago. Some-se ao Turin days o fato de a presidente Dilma presentear o papa Francisco com a pequena peça Frade lendo, feita pelo escultor na década de 1940. Foi um “momento ternura”.

Para coroar, o episódio da garrafa-surpresa, encontrada no pedestal do Tiradentes, no Centro de Curitiba. Em tese, o objeto estranho não identificado estaria escondido ali desde 1927 (agora se sabe que desde 1932), quando o escultor doou o monumento à comunidade italiana. Como já foi apurado, a despeito dos internautas – cuja imaginação deve fazer inveja a Dan Brown –, dentro do recipiente não está a certidão de nascimento de Alvaro Dias. Tampouco uma carta de Turin, missivista compulsivo. O mistério permanece. Diz-se que há outra garrafa escondida na praça, esperando para galgar a fama. Aguardemos os próximos capítulos.

Convenhamos – o renascimento de Turin tem sido um barulho bom. Não se via algo assim desde os anos 1990, quando o advogado Constantino Viaro deixou pingar a última gota d’água e resgatou do limbo as pinturas de seu pai, Guido Viaro, então sob custódia da prefeitura. Levantou a lebre sobre o pouco caso com os acervos familiares, deixando exposto o pecado mortal oficial dos paranaenses.

Por amor à vida, não quero entrar nesse engarrafamento. Tratar de legados como o de Poty Lazzarotto, Guido Viaro, Theodoro de Bona é tão seguro quanto tirar férias no Afeganistão. Em contrapartida, é o que torna esses casos tão atraentes. E o de Turin tem se mostrado dos melhores. Tem sabor italianíssimo. Puccini com Fellini. Fetuccine para acompanhar.

Para quem mora na Água Verde, os Turin são uma nobreza. O colégio estadual que leva o nome do mestre, na Baixada, mantém o patrono em alta. A lista de Turins incríveis e seus narizes espetaculares vai longe. Destaque-se a sobrinha Margarida – despachada e divertida professora do Lysímaco, já falecida, porém nunca esquecida. O bairro lhe deve um nome de rua.

Mas na proa do clã sempre estiveram Elisabete Turin, que se tornou a pesquisadora mais aplicada do escultor; e o até então calado advogado Jiomar Turin, herdeiro das peças do tio. Entenda-se por “peças” moldes de gesso que podem chegar a 2 metros de altura, com necessidade de três brutamontes para carregá-los. Pois é. Com tanta publicidade para o tio, Jiomar – hoje com 86 anos – decidiu sair da concha para avisar que não é um vilão.

Dizia-se que o acervo de Turin – mantido num barracão do Juvevê até ser vendido, ano passado – estava se deteriorando. Mas ao ouvir o depoimento de Jiomar e se colocar no lugar dele, a gente sai balançado. Era um jovem estudante de Direito quando o tio morreu, em 1949. Turin não teve filhos. Os bens foram rateados entre os parentes. Jiomar ficou com as peças – 343 ao todo, mais 3,7 mil documentos. Marcou-lhe a vida: somando tudo, dedicou 64 anos ao ofício de guardador, uma saga.

Sofreu atentado de goteiras. Teve medo de incêndios. Pior – enredou-se em relações perigosas com o poder público, que, segundo consta, sempre deu a entender que não queria os moldes de Turin “nem de graça”. Crime delicado. “Se briguei muito? Pqp...”, diz, com fogo nas ventas.

Jiomar é homem sem meios tons. Jura que os deliciosos palavrões que desfia não foram aprendidos com o tio Nani, como chamava Turin, mas deve a ele todo o resto. “Foi um pai.” Desde piá, passava-lhe o café, no ateliê-casa que o escultor mantinha na Avenida Sete de Setembro com a Coronel Dulcídio. Tornaram-se amigos e cúmplices de pequenas histórias que revelam um gigante ao rés do chão.

Em vez do mito do paranismo, mestre da arte animalista, um Rodin das terras do Sul, emerge na fala de Jiomar um Turin bonachão, que fumava pencas do arranca-peito “Iolanda” e gabava seu currículo amoroso, exercitado com a mesma volúpia nas fronteiras da Europa e na Rua Bento Viana, número 10. Por causa da fama das modelos do escultor, muitas mulheres se esquivavam de passar na frente do ateliê da Sete, temendo cair na boca do povo.

Um fato encanta. Certa vez, um Turin aparvalhado correu atrás do ônibus apenas de ceroulas. Tinha se esquecido das calças. Ao se ver em trajes menores, falou poucas e boas ao vento. Depois riu, como bem cabia a um vanguardista deslocado, preso à província como se fosse uma mensagem presa à garrafa. Faz sentido.

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