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José Carlos Fernandes

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O médium e a garrafa do Turin

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Um leitor me escreveu. Seu e-mail trata de uma mensagem do escultor João Turin, morto em 1949, psicografada num centro espírita de Curitiba. O contato sobrenatural fora feito um dia após a abertura da tal garrafa, encontrada na Praça Tiradentes. É recado breve – Turin faz rapapés ao evento garrafal que mobilizou a cidade e manda avisar aos seus que passa bem. Achei que era trote, deixei estar.

Pois por sorte o mensageiro me ligou, não do além, mas de um celular, o que não deixa de ser extraordinário: a conversa transcorreu sem que a linha caísse uma única vez. O bom homem queria me pedir o contato dos familiares do Turin, para lhes repassar o tal recado, vindo, aliás, pelos poderes de um psicógrafo, a quem aqui vamos chamar de “P”.

A pedidos, as pessoas com quem conversei não querem seus nomes revelados. Formam um grupo pequeno dado à caridade, não à publicidade. Além do mais, sabem que os fenômenos que acontecem no centro que frequentam despertarão a sanha dos curiosos. Para atendê-los a contento, os participantes teriam de ser apartados de seus deveres religiosos. Não podem se dar a esse luxo. “P” calcula que 70% dos mortos ainda não se deram conta de sua condição. Dão trabalho. Os médiuns ralam.

Apenas na noite em que Turin fez contato, “P” recebeu outras nove mensagens de próprio punho – uma delas do republicano Benjamin Constant, cuja estátua também está na Praça Tiradentes. Calcula escrever 500 a 600 páginas por ano. Muitas delas vêm de entidades salientes, em busca de atenção, o que lhe deixa esgotado. Para dar conta do expediente no dia seguinte – “P” trabalha como garçom –, precisa devorar porções extras de mingau de aveia e iogurte com frutas.

Mas os médiuns também se divertem. “P”, pelo menos. Já falou com dona Ruth Cardoso e Maurício Fruet, por exemplo. Destaca-se, porém, por receber notícias de artistas desencarnados. É quase um setorista. A lista dos cantores, escritores e afins com os quais já teve apartes nos últimos 30 anos causa calafrios – de inveja.

Cazuza enviou um abraço à mãe, Lucinha. No calor de uma polêmica, Monteiro Lobato mandou dizer que não é racista, no que foi apoiado por Zilka Salaberry, a Dona Benta da tevê. Gonzaguinha e Gonzagão moram juntos, na paz de Nosso Lar. Cecília Meireles lhe pareceu triste. “E como é mesmo o nome daquela poeta portuguesa? Florbela Espanca”, lembra “P”, ao desfiar nomes famosos quais contas do rosário.

A primeira artista a fazer contato, se bem lembra, foi Dolores Duran, que lhe cantarolou Estrada do sol ao ouvido. “É de manhã, vem o sol, mas os pingos da chuva...” Na cola veio Lupicínio Rodrigues, e tantas vezes que se tornaram íntimos, no samba-canção e na dor de cotovelo. Outra que vem seguido é Dalva de Oliveira. Pedi notícias de Elis, Clara Nunes e Paulo Leminski. Falam-se amiúde. Quanto à Amy Winehouse, pediu desculpas: “Ela ainda não está numa boa”.

“P” é um sujeito pequeno e conservado. Nada denuncia ter 60 anos. Diz que o segredo da pele lisa reside em saber perdoar, virtude que aprendeu a duras penas, desde que descobriu sua mediunidade, aos 8 anos. Deu-se com ele tal e qual no filme O sexto sentido, de M. Night Shyamalan. “P” guri via o velhinho morto da fábrica de molduras. “I see dead people”, diverte-se, ao repetir o bordão “vejo pessoas mortas”.

Um avô lhe explicou o que ocorria. E o que viria. Dor e delícia. Logo passou a ver espíritos perversos e a sentir o perfume das almas boas, entre outros fenômenos que poderiam fazer dele um paciente de Oliver Sacks. Não precisou. Crente, apresenta-se como médium especializado em psicografia e psicofonia. Ele não só escreve a mensagem dos que partiram – também lhes empresta sua voz. Quanto à predileção dos artistas, não sabe dizer. Simplesmente foi eleito.

Em tempo. Nos dogmas de “P” existem mais ou menos 6 mil comunidades onde as almas esperam para reencarnar. Uma delas estaria sobre o firmamento de Curitiba – e se chama “Cidade da Luz”. Fiquei fascinado por essa imagem: a luz prata de capital é das mais lindas do mundo. Enlouquece fotógrafos e pintores. É do além, né? Depois dessa conversa, mesmo sem ter o consolo da fé espírita, olhar para o céu vai ser mais inspirador que imaginar o que dizem cartas guardadas em garrafas escondidas na misteriosa Praça Tiradentes.

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