Seu app Gazeta do Povo está desatualizado.

ATUALIZAR

Caro usuário, por favor clique aqui e refaça seu login para aproveitar uma navegação ainda melhor em nosso portal. FECHAR
PUBLICIDADE
José Carlos Fernandes

José Carlos Fernandes + VER MAIS COLUNISTAS

José Carlos Fernandes

Sobre a cor do tempo e a minha louça

Os labirintos e pântanos da memória são tantos que gastaram tempo e paciência de gênios como Aristóteles, Bergson, Freud, Bartlett, Halbwachs e Benjamin

  • jcfernandes@gazetadopovo.com.br
 | Felipe Lima
Felipe Lima
 
0 COMENTE! [0]
TOPO

É conhecida a frase do poeta gaúcho Mário Quintana – “há uma cor que não vem nos dicionários. É essa indefinível cor que têm todos os retratos, os figurinos da última estação... a cor do tempo”. Pois é – “a cor do tempo”, aquele amarelo âmbar, algo pálido desbotado, um tom de pano puído, manchado de borra de café, cor que faz a gente pensar no que ficou para trás, um saudosista bobo no meio do caos.

Faz uma data, como se dizia, coleciono frases e livros sobre a memória. Um aperitivo? “O coração é a sede da memória” (Santo Agostinho). Dia desses, publiquei aqui uma oração de Adélia Prado: “O que a memória ama fica eterno”. São ditas e ditas. Mas de resto, como alardeiam sem piedade muitos historiadores, antropólogos e sociólogos, lembranças e reminiscências devem ser tratadas com a desconfiança reservada, sei lá, a quem vota na reforma da Previdência. Fiéis a Derrida, professam: não há referência possível entre o narrado e o vivido. Memórias são um veneno – matéria-prima de diletantes sem salário, alternativos sem juízo e, claro, jornalistas.

Li tempos atrás que tudo o que afirmamos ter acontecido antes dos 5 anos de idade é mentira. Não aconteceu aquela festa de aniversário na cozinha lá de casa, no Novo Mundo; nem a ruidosa visita dos padrinhos de batismo. Tudo isso é uma ilusão erguida com os tijolos imaginários confeccionados por outras pessoas. Um tráfico de invencionices. Ao longo da vida, já sabendo o lugar certo de fazer xixi, repetimos o mesmo: propagamos cenas fictícias, dando continuidade às recordações de araque, ainda que juradas de pés juntos. Tudo coisa da cabeça.

Os labirintos e pântanos da memória são tantos que gastaram tempo e paciência de gênios como Aristóteles, Bergson, Freud, Bartlett, Halbwachs e Benjamin. E lançaram no túnel das incertezas escritores bambas como Joyce e Proust – esse, em particular, acusado de ser um guri mimado às voltas com as lembranças do beijo furtivo que sua mãe lhe dava antes de dormir. Bem dizem homens e mulheres com os pés no chão: melhor desconfiar das memórias, não valem um dólar furado.

Sem dizer que uma boa parte daquilo que, acreditamos, marcou a biografia das nossas bisavós e tataravôs se deu tal e qual na trajetória das bisavós e tataravós dos nossos vizinhos. Cola. Cópia. Certas páginas dos álbuns de família não passam de ficções coletivas, frutos de consenso de uma época, tentativa neurótica de colonizar o passado, de modo a salvar o presente da falta de sentido. Exemplos não faltam. Tem a saga da pobre europeia que atravessou o Atlântico abraçada ao filho doente – ou já morto – para que a tripulação sanguinária não o atirasse no mar. Ou o incrível caso da antepassada bugre – capturada no laço. A da criança que a mãe mandou seguir na frente, até sumir de suas costas, para que fosse adotada por alguém que lhe saciasse a fome. Todas essas narrativas parecem cenas de uma novela de Benedito Ruy Barbosa. São, aliás.

Mesmo tratada como carne de segunda, contudo, a memória impera

Uma autora do quilate da argentina Beatriz Sarlo, inclusive, defende que o mundo contemporâneo está tão estilhaçado, tão desiludido, que mais e mais temos necessidade de afirmar a importância sobrenatural da nossa própria biografia. Chama a esse fenômeno de “guinada subjetiva”, o que em outras palavras equivaleria a uma viagem insana ao redor do próprio umbigo – ou falta de ter o que fazer.

Mesmo tratada como carne de segunda, contudo, a memória impera. Neste momento, nas redes sociais, alguém posta uma foto da “cor do tempo”, debaixo de clicks. A de meus pais jovens e felizes – traçando um espeto na Churrascaria Tupã, em 1960, pôster da minha página – é fonte de elogios emocionados. Eles eram jovens, talvez bonitos, e parecem satisfeitos com uma refeição num restaurante barato. Se discutiam a inflação – ou a separação – nunca saberemos. A memória é indefinida, vadia e tão sacana que só resta tomar duas atitudes: não ter com ela. Ou se render à sua mágica. Fico com a segunda opção.

Os obcecados em extrair precisão da memória deviam, digamos, relaxar, chupar cana e depois assobiar. Melhor buscar o que se esconde por detrás daquilo que lembramos. E considerar o que diabos estamos cutucando a cada vez que recorremos às gavetas empoeiradas do inconsciente. Penso que nessas ocasiões queremos tirar algo do sono, de modo que nos ajude a respirar melhor, e a ver alguma graça no disco riscado chamado cotidiano.

Tive duas experiências recentes que só fizeram confirmar o que digo. Numa, em conversa sem mais com um amigo, escarafunchei minhas raízes operárias. Para ilustrar, recorri a uma caixinha de madeira do Matte Leão, comprada num antiquário. Meu avô passou a existência lixando aquelas embalagens de chá. Orgulhava-se de ser um ás da produção. Com a ajuda dele, gabava-se, a Matte Leão encontrou fregueses em todo o mapa. Em vez de um aumento salarial, ganhou uma dor infernal nas costas, sua companheira a caminho da cova. Em contrapartida, a lembrança dele se acabando nas lixas não me deixa esquecer o que sou – um operário. É a palavra que me veste. Para isso servem as memórias: para garantir a sanidade. Vá lá que penso ser rei?

Dias depois – novamente em conversa com amigos – nos esbaldamos em recuerdos dos tempos felizes que passamos num seminário católico do interior de São Paulo. Ao fim de duas-três horas tínhamos feito uma colagem maluca de fatos e, claro, criado um grupo de WhatsApp. Queremos saber de colegas da época quem, por sorte, afanou um diretório com as orações da manhã e da noite, um dos nossos objetos de desejo. Ou o velho livro de latim – tortura das horas de estudo. Só faltou o trio sair cantando o tema de Vila Sésamo: “Todo dia é dia, toda hora é hora, de saber que este mundo é seu...”

De todas as partes cinematográficas dessa prosa – um verdadeiro show de efeitos especiais –, a que mais me comoveu foi a narrativa sobre as equipes de lavar louça. Num seminário em que morava uma centena de jovens, a lavação de pratos, copos e talheres era digna de Cecil B. DeMille. Ainda posso ver a panela gigante com água fervendo – carregada por dois de nós, para dar conta. A espuma abundante, à custa de muito sabão ordinário, fazia os pratos de alumínio escorregarem, rumo à cuba na qual eram atirados. Tchbuuum. Pensando bem, acho que o cheiro daquele detergente dava algum barato. O vapor, a temperatura alta e a animação própria de um bando de guris fez essa lembrança parecer uma experiência paranormal. Cadê o Quevedo?

Ah, a sessão passadista nos serviu para escapar do baixo astral da era Temer e da era Zuckerberg, esse menininho querido que deu de mostrar os dentes. O mundo melhorou, mas melhorou muito mal, como diz o moçambicano Mia Couto. Vale registrar que na manhã seguinte deixei minha louça tinindo, bem posta em cima de um pano de prato branco, saído da cômoda. Me senti, sei lá, um seminarista exemplar, o maior lixador de caixinhas de chá do planeta, entre outras coisas que nunca fui, mas bem gostaria.

Vai ver, para isso servem as memórias.

o que você achou?

deixe sua opinião

PUBLICIDADE

últimas colunas de José Carlos Fernandes

PUBLICIDADE