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Luis Henrique Pellanda

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Luís Henrique Pellanda

A cômoda sem gavetas

Uma cômoda poderia ser um cofre ou um útero, o coração de tempos idos, ou um cérebro diligente que, ao envelhecer, engavetasse nossas memórias menos confortáveis

 | Felipe Lima
Felipe Lima
 
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Carregada por dois moradores de rua, a cômoda avança pela Marechal Deodoro. Não reconheço nem seu estilo, nem a madeira de que é feita. Mogno, imbuia, jacarandá? Não sei, não entendo de marcenaria. Só sei é que, quando vejo carregarem uma velha cômoda, sempre penso em barcos e caixões.

Não se trata de morbidez ou romantismo de minha parte. É, antes, coisa de quem velou muito parente na infância. Eu via um féretro ganhar as ruas do cemitério e já me vinha a imagem de uma canoa à deriva, a mais suave comunhão entre lenha e carne. O caixão ambulante era a representação perfeita das travessias, aquela ideia nova que um dia divertiu Peter Pan, na Lagoa das Sereias: “Morrer será uma grande aventura”.

Talvez. Na verdade, eu não ia muito além disso. O caixão descia e eu pensava nos garotos perdidos, no Capitão Gancho, em flotilhas de madeira e nos milhões de carvalhos que, séculos atrás, se sacrificaram pela glória da Marinha Real Britânica. Um navio, afinal, é tanto uma prisão quanto um modo de fugir. Mas ainda me escapava a tragédia concreta daqueles bosques lançados ao mar, homens, mulheres e árvores viajando e, não raro, afundando juntos.

(Aliás, no fundo de cada adulto jaz uma criança afogada e, por isso, só cresce mesmo o menino que naufraga.)

No fundo de cada adulto jaz uma criança afogada

Mas voltemos à cômoda. Dois homens a carregam, exaustos, como se compartilhassem uma cruz. O móvel, apesar de privado de suas seis gavetas, não parece leve. Porque uma cômoda, assim como uma pessoa, pode muito bem ser a densidade do seu vazio interior, e até mesmo a falta que lhe fazem os seus antigos pertences. Há um enigma e uma dor que hiberna nas coisas ocas, e toda lacuna é a sugestão do que ela poderia ser, ou ter sido. Uma cômoda, portanto, poderia ser a Arca da Aliança, a caixa de Pandora, um caroço de tucumã de onde vazariam luzes ou trevas, benéficas ou perigosas. Uma cômoda poderia ser um cofre ou um útero, o coração de tempos idos, ou um cérebro diligente que, ao envelhecer, engavetasse nossas memórias menos confortáveis.

É por isso, quem sabe, que as transportamos com tamanha gravidade, como se fossem o andor de um santo invisível. Apenas de vez em quando um gaiato se rende às brincadeiras e aos vilipêndios. Este rapaz, por exemplo. Ele passa pela dupla de carregadores, apressado, a caminho do cartório, portando uma pasta transparente de contratos e certidões, e decide fazer cócegas num deles, metendo-lhe os dedos sob o sovaco suado. Irreverente, ainda reproduz com a boca uma onomatopeia chocalheira, similar ao som dos ganzás e afoxés. A vítima se entorta, a cômoda se desestabiliza, quase vai a pique, mas por sorte se recupera, não vira.

O rapaz foge, realizado e impune, feliz com sua graça e seus papéis por autenticar. Mas sabemos que também isso, a felicidade, a tolerância e a papelada, logo se diluirá em meio a tantas outras tristezas e documentos circundantes, livros, jornais e panfletos, avisos de greve, anúncios de insatisfação. Árvores sacrificadas.

Mas voltemos à cômoda sem gavetas. Dois moradores de rua a carregam. Para onde?

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