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Luis Henrique Pellanda

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Luís Henrique Pellanda

A melhor coisa do mundo

Fossem árvores de dinheiro, pés de verba, elas estariam salvas, a gente sabe, e saber às vezes cansa

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Na saída do hotel, em Cuiabá, me aborda um grupo de esmoleiros de São Benedito. Sou coroado em praça pública, ao som de tambores e metais, enquanto a bandeira azul do santo negro me abraça. Moço, faça um pedido, brincam os fiéis, o que o senhor deseja? Pergunta perigosa, mas boa de ouvir. Elaboro um desejo tolo, de rei provisório, e que mantenho em segredo. Agradeço e vou passear. Não mais sozinho, e sim escoltado por um séquito de milagres, subitamente possíveis.

Diante do hotel, há uma avenida movimentada. Entre suas pistas, um largo canteiro. Nele, não vejo árvore alguma, e essa ausência me intriga. O próprio chão é uma ruína, mistura de pedra, caliça e mato seco. Entro num táxi e interpelo o motorista, o que houve aqui, amigo? Ele chia, o assunto é ruim, tem a ver com a Copa, um VLT que, até hoje, ninguém viu passar. Por ali correria o trem do futuro, um Brasil finalmente nos trilhos. Mas em seu caminho se erguiam centenas de árvores respeitáveis, e disseram que era preciso cortá-las, o VLT pedia espaço. No fim, o trem não veio e as árvores se foram. Mangueiras, cajueiros, ipês, flamboyants. Antigas entidades.

Diz o taxista, não sei o que é pior, ser gente ou ser árvore

O táxi avança, a avenida é longa. De repente, no canteiro, uma fila de mudinhas recém-plantadas. O taxista explica: aqui já iniciaram o replantio, fez-se necessário. Mas, e o VLT, desistiram dele? Não, ninguém detém o desenvolvimento, juram que o trem vem aí, e logo será hora de cortarmos também estas mudas. Rimos. Fossem árvores de dinheiro, pés de verba, estariam salvas, a gente sabe, e saber às vezes cansa. Por isso mesmo é que entre nós se instaura um minuto de silêncio. Pela pobreza dos arvoredos.

É, diz o taxista, não sei o que é pior, ser gente ou ser árvore. E fala de um tempo em que a cidade tinha mangueiras em todos os quintais. Mas os quintais foram vendidos, e as mangueiras sumiram. Antes, cada família tinha a sua, e a vida se consumia à sombra dela, menos na época das mangas, é claro, pois ninguém era besta de ficar embaixo de mangueira carregada. Rimos de novo.

O taxista me desafia: sabe do que tenho saudade? Por não saber, me calo, e ele sorri. Saboreia o suspense como se chupasse uma rara fruta do cerrado. A conversa, para este homem, é uma barganha entre ricos negociantes, toda palavra é lucro. Entro no jogo, o senhor me diga já, sente saudade do quê? E ele: é de cajá-manga!

Nunca vi, nem cheirei, nem comi. Porém aceito tudo o que o taxista me conta sobre esse tesouro de sua infância, passada não sei onde. Estou inclusive convencido de que o cajá-manga é a melhor coisa do mundo.

Pouco depois, no centro de Cuiabá, caminho sem pressa, o calor me espremendo contra os velhos casarões. Ruas estreitas, gente atarefada, um clima de mercado arcaico, de alegre comércio, com que logo simpatizo. Mas é meio-dia e o sol me vence. No calçadão, encontro um banco, ao lado duma palmeira ainda pequena, da minha altura, e que me convida a sentar com ela. Obedeço.

É preciso paciência, me diz a árvore, um dia a sombra se avoluma. Regido por um desejo de descanso, refrigério e cajá-manga, concordo e me deixo relaxar sobre a madeira, à espera dos progressos desta boa palmeirinha, no centro geodésico da América do Sul.

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