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Luis Henrique Pellanda

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Luís Henrique Pellanda

As bocas

Uma boca, afinal, é sempre uma divisa, um portal entre dois mundos, o dentro e o fora. A boca é este lugar de confusão

  • lhpellanda@gmail.com
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Num banco do Passeio Público, dorme um homem quase moço. Há quanto tempo dorme, não sei. Tem a boca inchada de quem tomou um soco recente. Na verdade, está nocauteado. Sobre a barriga, que sobe e desce, mal equilibra seus documentos. O RG xerocado, a carteira de trabalho e uns retratos 3x4, que o vento vai espalhando pelo chão. Sem dúvida é ele nas fotos, só um pouco diferente. Sóbrio, usa gravata. Tem o cabelo limpo, a barba feita. E a boca intacta, anterior ao golpe.

Uma mulher se aproxima dele, correndo. A julgar pela apreensão de seus passos, talvez o ame. Não se espanta, porém, ao vê-lo desmaiado. Já o conhece muito bem, nada mais a surpreende. Apenas meneia a cabeça ao encontrá-lo, e toca seus lábios, checando a gravidade daquele intumescimento. Depois cata as fotinhos ao redor do banco, reorganiza a papelada, abre a bolsa, guarda tudo lá dentro. Sentando ao lado do cara, põe no colo os seus pés, os descalça e acaricia. Pensa em qualquer outra coisa. Outro homem, outra vida.

Fica lá, muda. À espera de uma palavra, uma explicação, uma desculpa. Feito alguém que, à margem de um país, aguardasse um visto de saída, ou a desinterdição de uma fronteira. Uma boca, afinal, é sempre uma divisa, um portal entre dois mundos, o dentro e o fora. A boca é este lugar de confusão.

Quando um casal se beija daquele jeito, parece reinventar a pólvora

Perto dali, no parquinho, um retratista montou seu ateliê sob os plátanos. Diante dele, numa cadeira de náilon, posa um menino de dez anos. Não sei há quanto tempo estão assim, mas o pequeno sofre, quase escorre pelo assento. É duro ficar parado e tão quieto, menino nenhum nasceu para que o desenhem, moldem, eternizem.

Sim, este é um triângulo de silêncios: mãe, menino, artista. Ninguém fala. O menino porque nunca teve voz. A mãe porque nada entende de arte. E o artista porque também sofre. Morde os lábios, põe a língua de fora. Sabe que falhou ao reproduzir a boca do menino, e já tentou corrigi-la várias vezes, não querendo gastar outra folha em branco. Errou, e agora o guri tem este borrão nos beiços, um perigoso excesso de carnes, lembrando a fisionomia de uma moça adulta. Daquele desenho, aliás, exsuda uma delicadeza emasculada, a sensualidade fria dos anjos. Algo que talvez só o artista consiga ver neste modelo.

A mãe, é certo, não vê. Observa a prancheta, acompanha o serviço, às costas do retratista. Sente nos ossos a tensão do lápis que, ao tentar recriar seu filho, só lhe empresta feições femininas e cada vez mais atraentes. Sua boca, então, se crispa, como se experimentasse um gosto ruim, algo que não sabe bem a quem reputar, se ao artista ou a este filho que, até então, nunca lhe tinha sido apresentado.

Mais adiante, noutro banco, um casal se beija com urgência, alheio a quaisquer bocas crispadas. E quando um casal se beija daquele jeito, parece reinventar a pólvora. Há quanto tempo se beijam, não sei. Mas sinto que as fronteiras entre eles já se esboroaram, e aquele é um beijo terminal, que só poderá conduzi-los a alguma morte, a uma transfiguração, um desfecho ultradramático.

Mas não. Suas bocas trabalham mais que o normal por não contarem com a ajuda das mãos. É isso. Ambos seguram seus celulares, e nada podem fazer com eles além de esfregá-los um nas coxas do outro, num amasso deslizante, insuficiente. Aquilo dura um minuto, dois, três, até que o celular dela toca. É um toque sertanejo, música de balada. O casal toma um susto, cancela o beijo, e as luzes do mundo se acendem.

Ela verifica o visor e sorri, a boca livre para falar, veja, é você quem está me ligando. Ele confere o próprio aparelho, sim, sou eu, e então riem juntos até desligarem-se, interditos, um na cara do outro.

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