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Erva-mate - O ouro verde do Paraná

Alfredo Andersen. Óleo sobre tela. Acervo Museu Oscar Niemeyer

O início de uma tradição

Reportagem: Pollianna Milan e Leandro dos Santos.

Pesquisa: Leandro dos Santos.

Foi por um erro de percurso que a erva-mate ganhou o nome científico, em 1820, de Ilex paraguariensis, dado pelo botânico francês August de Saint-Hilaire. Ele teve contato com a árvore primeiramente no Paraguai, mas depois se retratou em um livro, hoje guardado em uma biblioteca de Paris. O naturalista reconheceu que seria mais adequado tê-la chamado de Ilex brasiliensis. Pois descobriu, posteriormente, que era no Brasil, em grande parte no território hoje do Paraná, que a erva-mate era nativa em maior quantidade e melhor qualidade.

É debaixo dos galhos das araucárias que os ervais se desenvolvem. A vastidão mateeira, que chamou a atenção do botânico francês, já havia atraído os olhares de outros visionários. O ouvidor Rafael Pires Pardinho, que estava em Curitiba por volta de 1721 para criar um código de posturas para a cidade, registrou em seus diários, com um século de antecipação, o que seria a grande possibilidade econômica da região. Foi o primeiro produto de exportação do Paraná.

Origem

Locais onde a planta era encontrada

Datam de mil anos antes da Era Cristã os primeiros achados de erva-mate, moída com outros objetos em oferendas funerárias de sepulturas pré-hispânicas, no Peru, segundo relata Fredericindo Marés de Souza em A origem do chimarrão. Não há dúvidas de que tribos indígenas faziam uso da erva-mate. Sabe-se que ela era consumida, em infusão ou mascada, em diversas outras tribos além dos Guaranis, como pelos ameríndios (Incas e Quíchuas) e também por Caingangues que estavam na região onde hoje é o Paraná.

Foi pelo contato do homem branco com os índios que o costume de beber mate se propagou. Essa interação também explica a origem de algumas palavras. Do guarani surgiram expressões como congonha (de caá, depois congoin [em tupi], que significa erva-mate, mato); cuia (de caigua); carijo (de cari, local onde se colocam os galhos da erva para secar ao calor do fogo) e tererê (do guarani jacubi, que era mate de água fria). Do tupi surgiu a palavra barbaquá (buraco onde a erva era colocada para secagem). Do quíchua foi herdado o nome mate (era mati, porongo onde colocavam a erva para beber).

Proibição

“Nos arrabaldes do povo de Maracayú se beneficia a erva, tão usual em todas aquelas províncias do Peru, que não há casas de espanhóis nem ranchos de índios em que ela não seja pão cotidiano e bebida. E se tem espalhado tanto este asqueroso sumo que tem chegado à corte e muitas cidades da América e da Europa seu conhecimento, uso e consumo. Em meu parecer, o demônio, por meio de algum feiticeiro, a inventou.”


Francisco Jarque, jesuíta, no livro Insignes missioneros.
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Nem sempre o consumo foi socialmente aceito. Nas Reduções Jesuítas no Paraná e no Paraguai, no início do século 17, os padres proibiram o uso. Acreditavam que era erva do diabo, alucinógena. Mas não tardou para que os missionários percebessem que os índios, sem o mate, aumentaram o consumo de bebidas alcoólicas, com consequente piora do desempenho no trabalho. Logo, os padres não só liberaram o uso da erva-mate como também passaram a consumí-la: era revigorante. Em uma cuia com uma bombilha de taquara, a erva em infusão servia de consolo para as gélidas madrugadas paranaenses. E foi além. Virou fonte de negócio aos jesuítas, que a vendiam, inclusive, para exportação. Os padres missionários também elaboraram, ainda que parcamente, algumas técnicas para a colheita e cultivo da planta.

Os bandeirantes, ao invadirem as reduções em busca de índios para escravizar, expandiram o hábito de beber o mate. Antes, ainda no século 17, o general espanhol Domingos Martínez Irala, ao entrar em contato com os indígenas da região da atual cidade de Guaíra, difundiu a bebida para os povoados espanhóis onde hoje é o Paraguai.

A planta

“ILEX PARAGUARIENSIS” é o nome científico da erva-mate, usada pelos índios Guaranis antes da chegada dos europeus. Muitos ervais nativos ficavam próximos da mata de araucárias, a outra planta do brasão do Paraná.

Ilustração planta da erva-mate (ILEX PARAGUARIENSIS) mostrando a flor e o fruto

A árvore

O clima subtropical é o mais adequado para o desenvolvi-mento da planta, cuja árvore pode atingir de 7 a 15 metros de altura. O que favorece:

Clima

  • chuvas regulares e bem distribuídas durante o ano;
  • temperatura média de 15° a 21°C;
  • geadas

Solo

  • boa profundidade (mais de 1 metro);
  • boa permeabilidade;
  • boa fertilidade natural.

Classificação

Saint-Hilaire

"A árvore da congonha ou árvore do mate (llex paraguariensis, August de Saint-Hilaire), é uma árvore medíocre, ramosa no alto, muito folhuda, mas cuja forma nada apresenta de característico. As folhas verdes da árvore do mate são inodoras, de sabor herbáceo e um pouco amargo; mas preparadas, desprendem suave perfume que se assemelha mais ou menos ao do chá suíço. Ao tempo de minha viagem, beneficiava-se o mate nos arredores de Curitiba, com muito menos cuidado que no Paraguai; mas começava a ser conhecido dos curitibanos o método empregado pelos paraguaios. O capitão-mor do distrito tinha até a intenção de forçar os seus administrados a adotá-lo, visto que o mate preparado dessa maneira alcançava em Buenos Aires e Montevidéu preço mais alto que o preparado pelo método antigo . Quando passei pela Borda do Campo, meu hospedeiro tinha em sua propriedade um paraguaio que havia deixado seu país por causa da guerra, e preparava o mate à maneira hispano-americana, em meio das matas da fazenda. (…) A antiga maneira de beneficiar o mate, nos arredores de Curitiba, diferia da do Paraguai, sob muitos aspectos. Não se levava em conta a época do ano em que se cortavam os ramos da erva-mate. Para sapecá-los (verbo usado em Curitiba e no Paraguai), não se fazia uma fogueira de lenha verde, mas empregava-se, de preferência, os nós provenientes do pinheiro apodrecido. Não se armavam barbaquás, mas somente jiraus de um metro de altura, mais ou menos, sobre os quais se colocavam as folhas de mate. Enfim, não utilizavam a madeira dos ramúsculos, a qual, segundo os hispano-americanos, dá melhor sabor à bebida."


August de Saint-Hilaire, em Viagem à comarca de Curitiba (1820)
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O botânico francês August de Saint-Hilaire foi o primeiro a classificar a planta, em 1820. Ele teve contato com a árvore no Paraguai e depois observou os ervais nativos da Fazenda Borda do Campo nos arredores de Curitiba. No passado, a fazenda pertenceu aos padres jesuítas.

Benefícios da erva-mate

É comprovado cientificamente que a erva-mate apresenta alguns benefícios à saúde. Ela é:

  • estimulante. Atua beneficamente sobre o tecido nervoso e muscular;
  • diurética, útil nas moléstias da bexiga;
  • estomática, facilitando a digestão;
  • sudorífica, auxiliando na cura de constipações;
  • um auxílio para amenizar a fadiga cerebral e depressões, pois contém cafeína;

*O consumo da erva-mate ajuda o organismo a conservar energia e poupar gastos do organismo.

Fonte: Jorge Mazuchowski, engenheiro agrônomo da Emater-PR.

Valor alimentício da erva-mate

O que há em 100 gramas da erva-mate:

Composição Valor mínimo Valor máximo
Proteínas 8,30 g 13,45 g
Carboidratos 9,70 g 14,18 g
Amido 2,56 g 6,63 g
Glicose 1,30 g 6,14 g
Fibras 14,96 g 19,95 g

Observação: o valor mínimo e o máximo dependem da idade de quem a consome e da qualidade da erva.

Tradição indígena torna-se produto de exportação

Para os índios o ato de tomar chimarrão vai além de ser um mero costume, relaciona-se especialmente com a vida espiritual da tribo. No interior do Paraná a erva-mate também está servindo como geração de renda para duas aldeias que estão exportando a planta para os Estados Unidos.

Localização da tribo

É em um puxadinho de chão batido feito com galhos de árvores que a índia guarani Márcia Pires de Lima, de 34 anos, se enche de orgulho para falar da tradição do pai em tomar chimarrão: “Meu pai, até hoje, prepara a própria erva para o chimarrão”. Sentados em um banco em frente a uma fogueira que fica acesa desde o clarear do dia até o anoitecer, ela e o marido, Knomi Gabriel Tupã, de 27 anos, aquecem a água em uma chaleira já queimada pelo fogo e ajeitam, em meio à fumaça, a erva na cuia.

Os cuidados que o casal tem no preparo do chimarrão fazem parte de uma tradição que passa de geração em geração. À espera do primeiro filho, os moradores da Aldeia Koenjo-Porã, que fica em uma reserva indígena na cidade de Turvo, região Central do estado, aprenderam com os pais que chimarrão bom é aquele moído na hora e com água aquecida em fogueira de chão.

A tradição de tomar chimarrão não é exclusividade da família de Márcia e Gabriel. Foram os índios guarani e caingangue que iniciaram essa prática, muito antes da chegada dos europeus ao extremo sul americano. Por muito tempo, o consumo da Caá-i (água de erva saborosa) foi restrito apenas a membros importantes das tribos como caciques e pajés.

Os índios extraíam a erva-mate nativa e cortavam os galhos formando pequenos feixes. Depois de sapecar a erva em uma fogueira, ela era socada em um pilão de pedra ou madeira e armazenada para consumo. Nos primórdios, a comunidade indígena usava um porungo para misturar a erva-mate à água e uma espécie de pele fina de madeira para sorver a bebida.

Como forma de agradar os ‘visitantes’, os índios passaram a oferecer o chimarrão e a cultura de tomar a Caá-i se espalhou.

Tradição que virou lucro

Em Turvo, as comunidades guarani e caingangue transformaram a tradição em uma forma de ganhar dinheiro. Os índios dessas duas tribos estão em uma área territorial que possui muitos pés nativos de erva-mate. Eles aproveitaram essa abundância natural para aumentar a renda das famílias.

A extensão da área, cerca de 12 mil hectares, e a quantidade de árvores de erva-mate nativa chamaram a atenção de empresas que trabalham com produtos orgânicos. Hoje, as aldeias Koenjo-Porã (guarani) e Marrecas (Caingangue) exportam para a Guayaki Yerva Mate, que tem sede na Califórnia, Estados Unidos.

De toda a erva-mate exportada pelas comunidades indígenas de Turvo para os Estados Unidos, 35% é transformado em chimarrão, o restante é usado na fabricação de bebidas.