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“Não peço ajuda porque tenho vergonha, isso eu não faço.”
Leodete Aparecida Pontes |
“Não peço ajuda porque tenho vergonha, isso eu não faço.” Leodete Aparecida Pontes
Carência

A vergonha da cidade mais pobre

No município com menor renda do Paraná, 6 em 10 domicílios vivem na pobreza. Moradores passam fome, mas ficam constrangidos de pedir ajuda

Texto publicado na edição impressa de 15 de dezembro de 2011

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Na cidade mais pobre do Paraná não se vê gente pedindo dinheiro na rua. Em Laranjal, município de 6.360 habitantes no Centro-Sul do estado, as condições de vida podem ser as mais precárias e ainda assim muitos moradores tentarão se virar de um jeito ou de outro. “Não peço ajuda porque tenho vergonha, isso eu não faço, Deus que me livre. Eu tento lutar, pedindo ajuda no máximo para Deus”, diz a dona de casa Leodete Aparecida Pontes, de 35 anos, que vive com quatro filhos em um barraco sem energia elétrica nem água encanada.

A renda domicilar média dos moradores de Laranjal é de R$ 324,55 per capita, a menor do estado. No total, 57% dos domicílios da cidade são considerados pobres, com renda inferior a meio salário mínimo por pessoa. Por trás dos números, o que se vê é uma cidade com pouca infraestrutura e carente de empregos, o que faz com que a maioria dos trabalhadores se veja obrigada a sair da cidade e buscar oportunidades em Curitiba e no interior de Santa Catarina.

Dos que ficam em Laranjal, 53% dependem do Bolsa Fa­­mília, como Leodete. Juntan­do tudo, ela recebe R$ 204 por mês e improvisa diante das dificuldades. A moradia foi feita com pedaços de madeira, telhas e lonas em cima do chão batido. Isso faz com que os poucos móveis fiquem molhados e forme-se um “rio” dentro de casa a cada chuva mais forte.

Na falta de água encanada, já que o lote não está regularizado, Leodete vai à casa de uma vizinha, onde tem um relógio medidor, e paga mensalmente pelo consumo. Sai de casa com baldes vazios e, depois de 15 minutos de caminhada, chega até a vizinha, onde enche os recipientes com a água que irá usar para cozinhar e tomar banho. À noite, a iluminação da rua ajuda a família, que não tem energia elétrica e vive à base da vela.

A falta de renda e de serviços essenciais impacta em áreas como saúde e educação. Leodete conta que a “cada passo os filhos estão doentes”. Uma das filhas é portadora de deficiência e a igreja tem ajudado a comprar os remédios. Já na casa da família da diarista Silvana Guimarães de Lima, de 26 anos, a consequência pode ser vista na escola. Por falta de guarda-chuva, os filhos não vão às aulas quando chove – a escola fica a 20 minutos de caminhada. Parte do material escolar foi pego emprestado.

Silvana mora com o marido e três filhos e diz que consegue se virar graças aos R$ 160 do Bolsa Família. Os cinco vivem em uma casa simples, sem banheiro nem água encanada. No mesmo terreno ficam outras três residências de familiares que acabam ajudando nos momentos mais difíceis. “Já chegou a faltar comida, mas o pai conseguiu uma cesta básica”, lembra Silvana.

Consequência

A pobreza faz com que Laranjal se destaque negativamente nos indicadores sociais. A cidade tem a terceira pior nota do estado no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) nas séries iniciais do ensino fundamental, da rede pública municipal. Já na saúde, a esperança de vida ao nascer é de 69,7 anos, abaixo da média paranaense de 74,7 anos, conforme estimativa calculada para 2009 pelo Instituto Bra­sileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Laranjal também teve em 2009 o 12.º maior índice de mortalidade infantil do estado. E é em meio a essa realidade que muitos moradores tentam se manter – seja improvisando na cidade mesmo ou saindo dela em busca de emprego.

Mudança depende de educação e empregos

A situação de pobreza não é exclusiva de Laranjal. Realidade semelhante acaba sendo observada em cidades próximas. Entre os dez municípios paranaenses com os maiores porcentuais de domicílios pobres, sete estão localizados na Região Centro-Sul do estado. Os caminhos apontados para mudar a realidade são investimento em educação, geração de empregos e melhoria da infraestrutura.

Professor do curso de Economia da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), Altamir Thimóteo explica que a pobreza é consequência da emancipação de muitas dessas cidades por motivos políticos, sem que elas tivessem condições e fontes de renda para se manter. Laranjal, por exemplo, foi instalado em 1993 após emancipar-se de Palmital, e segundo o atual prefeito, João Elinton Dutra, faltou planejamento desde o início.

O presidente do Conselho de Desenvolvimento do Território da Cidadania da Cantuquiriguaçu, Elemar do Nascimento Cezimbra, acrescenta ainda a falta de acessos e a produção agrícola baseada no latifúndio e extrativismo, sem um desenvolvimento mais dinâmico na agricultura. Em relação ao futuro, ele afirma que os municípios estão se articulando e pleiteando mais estradas para ligar cidades vizinhas, agroindustrialização dos produtos locais através do cooperativismo e a instalação de estruturas médicas para o atendimento à população.

A educação também tem um papel-chave. Segundo Cezimbra, um grande avanço foi registrado com a instalação do câmpus da Universidade Federal da Fronteira Sul na cidade de Laranjeiras do Sul.

Empregos

Segundo o prefeito de Laranjal, a melhoria da renda da população passa pela educação, com a formação técnica de trabalhadores rurais para trabalhar com o leite, e pela instalação de pequenas centrais hidrelétricas próximas à cidade, que movimentariam o comércio e gerariam postos de trabalho. “O problema [da cidade] está no emprego”, aponta.

A prefeitura é a maior empregadora em Laranjal, seguida pela construção civil e pela agricultura. No município, 68% da população vive no campo e a produção de leite e o rebanho de gado movimentam a economia. Dessa forma, o cooperativismo é apontado como um caminho para a geração de renda. Já a instalação de grandes indústrias é descartada devido à infraestrutura precária para o escoamento da produção.

O prefeito João Elinton Dutra completa que mudanças vêm ocorrendo com pavimentação de ruas, construção de casas populares, melhoria do transporte escolar, instalação de postos de saúde e reformas em escolas. Em 2000, o porcentual de domicílios pobres na cidade era de 69%, uma redução de 12 pontos porcentuais em dez anos.

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