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futuro das cidades

Interação da rua com edifícios é fundamental para cidades mais seguras

Projeto apoiado pela ONU coloca o dedo na ferida e mostra como o térreo e as fachadas dos edifícios em geral estão mal projetados em termos de integração com a rua e a cidade

A Rua Haarlemmerdijk em Amsterdã é exemplo de um bom espaço urbano ao nível dos olhos. Tem equilíbrio entre a presença de carros, bicicletas e pedestres e os térreos dos imóveis tem funções diversas e abertas à via, que convidam os pedestres a entrar. | Reprodução
A Rua Haarlemmerdijk em Amsterdã é exemplo de um bom espaço urbano ao nível dos olhos. Tem equilíbrio entre a presença de carros, bicicletas e pedestres e os térreos dos imóveis tem funções diversas e abertas à via, que convidam os pedestres a entrar. Reprodução
 
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Estabelecer uma conexão entre espaços públicos e privados parece ser o caminho para a transformação das cidades em ambientes urbanos mais seguros. Na prática, isso significa fazer com que a fachada e os andares térreos de construções em geral tenham uma função ativa na cidade, convidem às pessoas a entrar e tenham aberturas e materiais transparentes de tal forma que seja possível enxergar o espaço como uma extensão da rua, e vice-versa. Essa é a agenda de um projeto que teve a sua versão em português lançada em outubro de 2015 em livro, mas também funciona em forma de site e rede de aprendizado na internet desde 2013: The City at Eye Level (ou A cidade ao nível dos olhos). A ideia não é exatamente nova, muitos pensadores icônicos influenciaram o desenho urbano com uma escala humana, mas o reempacotamento desses pensamentos ficou bastante didático.

O trabalho do The City at Eye Level considerou a contribuição de mais de 90 colaboradores – desde agências da ONU para o desenvolvimento (Pnud) e para a habitação (UN-Habitat) a escritórios como o do dinamarquês Jan Gehl, universidades como a PUCRS, e outros tantos profissionais – para chamar a atenção para a escala humana das cidades. O contrário disso pode ser visto na concorrência entre China e Emirados Árabes para ver quem constrói o próximo maior espigão ou ainda, lá atrás, na nossa querida Brasília modernista. O arquiteto dinamarquês Jan Gehl, admirado mundialmente por seus pensamentos em torno de cidades mais humanas, inclusive, já definiu nossa capital federal como um exemplo do que não fazer. Em uma entrevista para a revista AU, disse que Brasília e outras construções de viés modernistas são exemplo dessa má forma de projetar: “quando os urbanistas planejam e organizam edifícios na cidade como se fossem vistos pela janela do avião, em vez de edifícios vistos da rua.”

“Um prédio pode ser lindo, mas se tiver um térreo morto, a experiência [das pessoas com o espaço público] pode ser horrível”, resume o arquiteto do escritório holandês Stipo e intenso colaborador do projeto Hans Karssenberg na série de vídeos que compõem o The City at Eye Level. Realmente, a maioria dos arranha-céus não é muito convidativa; parece, na verdade, um objeto fora de lugar no meio do espaço urbano já consolidado.

Karssenberg explica que, em geral, bons conjuntos de térreos e fachadas não são algo inerente ao planejamento de cidades e construções porque não eram uma preocupação evidente da arquitetura pós Segunda Guerra Mundial, período em que houve um esforço de reconstrução e replanejamento do Velho Mundo que influenciou as décadas seguintes de 1950, 1960, 1970 e até 1980. “Infelizmente, no período Moderno da arquitetura nós também vemos exemplos ruins disso”, ressalta o arquiteto no vídeo.

O conceito-chave do projeto da cidade ao nível dos olhos é o que os colaboradores chamaram de Plinth – que é a soma do andar térreo dos prédios, da fachada, das extensões da calçada e da rua até onde os olhos podem ver. Um bom conjunto desses elementos não depende apenas do perfil comercial. Mais comum na Europa do que no Brasil, o andar térreo residencial também pode ter uma boa integração com a rua. Um pequeno o jardim na entrada da casa, por exemplo, pode dar a impressão de que pouco antes do início do espaço privado a um outro híbrido, meio público, meio privado, que também acolhe, de certa maneira, quem passa pela rua. “Você tem a ideia de que há olhos na rua [ a partir das janelas daquela residência]”, complementa Karssenberg em outro vídeo do projeto voltado apenas para esse espaço híbrido das vias públicas.

No geral, o público-alvo desse conceito é o pedestre. E então o projeto da cidade ao nível dos olhos se junta a tantos outros que pretendem colocar o ser humano novamente como medida básica do espaço urbano, e não os carros.

“Se as ruas de uma cidade parecem interessantes, a cidade parecerá interessante; se elas parecem monótonas, a cidade parecerá monótona”

Jane Jacobs,em seu livro Morte e vida de grandes cidades norte-americanas, de 2000.

Veja um dos vídeos (em inglês) do The City at Eye Level sobre a experiência do pedestre nas cidades:

Critérios

Os três critérios básicos para avaliar se uma rua é boa ao nível dos olhos, segundo o projeto, são:

Boas construções

Boas construções são aquelas flexíveis, que têm uma previsão de uso flexível (comercial, residencial, serviços...), principalmente no diz respeito ao seu andar térreo. Se não for possível ter um serviço de caráter público no térreo, é preciso, pelo menos, pensar em espaços híbridos (entre o que é privado e público) bem bolados e convidativos, que deem a sensação de que o pedestre que passa por ali não está sozinho.

Boas ruas

Uma rua diversa é aquela que tem uma nova construção, prédio ou não, a cada 4 a 10 metros, com diferentes funções e razões para serem visitadas. Uma boa rua é também aquela em que há um equilíbrio entre a presença de pedestres, carros, bicicletas etc. Mais: quem passa por ali é atraído pelo o que está ao nível dos olhos e sente-se à vontade para ficar na rua?

Contexto

Como estão os arredores daquela rua? Há uma vocação ou potencial que mereça ser explorado em razão de um contexto histórico ou estrutural? Que tipo de residências há na região e qual a renda e perfil das pessoas que moram por ali? Essas perguntas são importantes porque cada lugar é um lugar, tem um contexto. Não há um único conceito copiável de uma boa cidade ao nível dos olhos.

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