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Livros didáticos com teor político-ideológico preocupam educadores

Esporte é tratado no Paraná como instrumento de dominação das massas pelo capitalismo

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O Brasil está passando por um sutil revisionismo histórico adotado à revelia por autores de livros didáticos. Pais e estudiosos do assunto têm questionado o conteúdo político-ideológico de algumas publicações usadas nas escolas públicas e particulares. Textos com teor altamente ideologizado foram identificados nas últimas semanas em publicações distribuídas aos milhares pelo Ministério da Educação em todo o país, ou em casos de livros didáticos de História e Geografia em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro (leia mais nesta página). No Paraná, a polêmica chegou, quem diria, à disciplina de Educação Física.

“O texto é declaradamente marxista, um emaranhado de sofismas, tendencioso do começo ao fim”. A constatação é do advogado Miguel Nagib diante do Livro Didático Público da rede pública de ensino paranaense. Para ele, que coordena a associação Escola sem Partido, grupo independente sem vínculo político, ideológico ou partidário, o livro tenta transmitir a idéia de que o esporte é fundamentalmente um instrumento usado pela classe dominante para “explorar e dominar as massas, com o intuito de impor idéias, tanto políticas quanto filosóficas, sobre os modos de produção e principalmente de consumo”.

“A prática esportiva é secundária, o que importa é fazer a revolução gramsciana”, diz referindo-se ao filósofo e cientista político italiano Antonio Gramsci (1891-1937). O texto do livro fala mal do capitalismo a partir de critérios abstratos e preconceituosos. Se falasse também do comunismo, os alunos poderiam ao menos comparar os dois regimes. “Nesse sentido é uma obra irresponsável e leviana, sem nenhum compromisso com a verdade histórica e a objetividade científica”, opina Nagib. Para ele, além de cercear a liberdade de aprender, esse tipo de material deforma a visão do estudante sobre a realidade.

O risco à formação intelectual dos jovens submetidos a uma abordagem ideologizada é a ignorância. “O problema é que, como essa visão é compartilhada pelo grupo e mais tarde será corroborada por outros professores militantes – inclusive no vestibular ideologicamente contaminado, como mostrou a edição de 10/09 do Caderno Vestibular da Gazeta do Povo –, o estudante passa a acreditar e a viver numa realidade paralela”, pontua Nagib.

Ao falar da “potencialidade transformadora” do ensino da Educação Física, o autor deixa claro que pretende usar a disciplina para fazer dos alunos “agentes de transformação social”. A técnica usada para levar os alunos a exercer o chamado “pensamento crítico” – que nunca é crítico em relação às atrocidades cometidas nos regimes comunistas – não é a da demonstração racional, mas a da insinuação maldosa. “O texto é repleto de perguntas retóricas, suspeitas, que induzem o estudante a fazer uma determinada abordagem do problema.”

O julgamento é feito a partir de critérios idealizados. “Mas se você comparar o capitalismo real com outros regimes reais, que existem ou existiram – como o comunismo e o nazismo, por exemplo – vai concluir que não é tão mau assim”, acredita Nagib. O mesmo vale, diz ele, para outros alvos da crítica esquerdista, como os Estados Unidos e a Igreja Católica. E lança um incômodo desafio: “Compare, por exemplo, o ‘imperialismo’ americano com o ‘imperialismo’ soviético e me diga sob qual desses dois jugos você preferiria viver ou ter vivido”.

Nagib acredita que com o tempo a maioria dos alunos – “guiada pelo bom-senso e educada pela experiência” – acaba se livrando dessa visão parcial, mas uma boa parte vai carregar essa visão para o túmulo. Ele identifica a insistência do autor em obter a adesão dos alunos, mediante a repetição de perguntas retóricas ao longo do texto. Uma vez prestada essa adesão pelo aluno, aumenta muito o custo psicológico de uma retratação, por mais elementos que ele encontre para fazer isto. “O orgulho intelectual é uma força poderosa e os militantes sabem disso”.

O vice-reitor do Centro Universitário Positivo (UnicenP), José Pio Martins, observa que os regimes livres aceitam e toleram que a liberdade seja usada mesmo por aqueles que não acreditam neles. “Liberdade é, por definição, o direito de discordar. Todavia, ainda que qualquer cidadão ou qualquer governante seja contra a liberdade política e econômica, isso não lhe confere o direito de usar dinheiro público para tentar doutrinar crianças e adolescentes nas escolas a favor da sua ideologia.”

Pio lembra que o compromisso da escola pública, sustentada com dinheiro de quem paga tributo e pertence a todas as religiões e ideologias, deve ser com os valores universais da ética, do saber, da ciência, da cultura, do desenvolvimento moral e do crescimento intelectual. “Quando um professor, um diretor de escola ou um governante resolve que usará o dinheiro da sociedade para impor a sua ideologia, está tentando impor, de forma arrogante e desonesta, a sua visão de mundo, como se fora dono de alguma verdade absoluta.”

O ideal de um governo seria dizer que há visões diferentes sobre um mesmo tema, explicar as visões conflitantes, e alertar aos alunos para que estudem, reflitam e, de forma livre e soberana, decidam suas crenças e seu caminho. “Parece que, para muitos governantes e educadores, o muro de Berlim ainda não caiu e, para eles, as vítimas do comunismo ainda não derrubaram esses regimes totalitários.”

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