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Entrevista

Nem todo psicopata é criminoso

Robert Hare, psicólogo e pesquisador

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Nesta semana, Curitiba será sede da 40.ª Reunião Anual da Socie­­dade Brasileira de Psicologia, principal evento da área no país. Entre os profissionais convidados a falar nesse encontro está o Ph.D Robert Hare, 76 anos. Psicólogo e professor da Universi­dade de British Columbia, em Vancouver, no Canadá, Hare é o maior especialista em psicopatia no mundo. Seus estudos começaram ainda no fim da década de 1970 e, em 1991, deram origem a um método de avaliação para diagnosticar os graus de psicopatia de uma pessoa.

A Escala Hare PCL-R (Psyco­­pa­­thy Checklist Revised), que consiste em 20 itens de avaliação com notas de 0 a 2, foi traduzida e validada no Brasil em 2000. Quanto mais próxima de 40 estiver a soma final, mais problemática uma pessoa pode ser, por isso a avaliação é usada também em vários estudos forenses para determinar o risco que uma pessoa representa à sociedade.

Em conversa exclusiva com a Gazeta do Povo, Hare diz que boa parte das pessoas, embora não possa usar a escala PCL-R, pode identificar um potencial psicopata no seu convívio diário. Ele comenta também seus últimos estudos sobre a psicopatia no mundo dos negócios, que deram origem ao livro Snakes in suits: When Psychopaths Go to Work (Cobras de terno: quando psicopatas vão ao trabalho), ainda sem tradução para o português. Segundo ele, a pre­­­­sença dos psicopatas no am­­­biente executivo é maior do que na sociedade em geral e pode ser mais nociva do que se imagina. Confira os principais trechos da entrevista:

A psicopatia surge de um problema físico ou é algo comportamental, que vem do ambiente em que a pessoa é criada?

É uma combinação das duas coisas. Há evidências fortes de fatores genéticos envolvidos, como funções cerebrais que acontecem de maneira diferente, mas esses fatores são modificados, em grande parte, pela interação com o meio ambiente.

Qual é a diferença entre psicopata e sociopata?

Sociopata não é uma categoria formal de diagnóstico. É um termo que se tornou muito popular, mas que é muito velho. Implica em atitudes e valores de uma pessoa como resultado de uma condição ambiental. Pode ser usada para falar de pessoas que foram criadas em um ambiente disfuncional, violento, e que, ali, aprenderam coisas erradas. Algo como as gangues dos guetos. São pessoas, no entanto, que podem ser mudadas. Para um psicopata é diferente. Ele é o que ele é, não porque foi criado em um ambiente ruim.

O senhor está dizendo, então, que não há solução para um psicopata?

É muito difícil mudar o jeito que ele sente ou age. Os traços de sua personalidade, que são em parte genéticos, em parte comportamentais, são muito firmes, definidos. A única coisa que podemos tentar é mudar o comportamento dele até certo ponto (em um tipo de ação de redução de danos). Há alguns programas de tratamento sendo estudados agora que apelam para o senso de egoísmo dos psicopatas. Ele vai pensar: O que é melhor para mim? Continuar a fazer o que estou fazendo e acabar na prisão, ou mudar um pouco, mas ainda ser capaz de conseguir o que quero?

Mas um psicopata é sempre levado para uma vida no crime?

Não. Criminalidade e psicopatia não são a mesma coisa. Você pode ter psicopatas que não cometem nenhum crime nem violam ne­­­nhuma lei, mas que causam sérios problemas para outras pessoas. Eles podem subir na vida abusando psicologicamente e emocionalmente de outras pessoas. Por outro lado, é mais fácil um psicopata entrar para o mundo do crime do que uma pessoa comum, porque ele não vê diferença entre o comportamento regular e o criminal.

Mas eles sabem a diferença entre certo e errado?

Ah, sim, claro que sabem. E é sobre isso que vou falar em Curitiba. Eu vou mostrar as diferenças físicas e funcionais do cérebro dos psicopatas, mas também que essas diferenças não significam que eles sejam anormais, defeituosos ou possuam qualquer déficit. Eles são simplesmente diferentes. O que está acontecendo agora na América do Norte e também em outros lugares do mundo é que os tribunais terão de determinar se a psicopatia é uma doença ou não e se isso reduz a responsabilidade criminal. Essa decisão é difícil porque cada região tem uma tradição dentro da Psicologia.

Na minha opinião, a psicopatia não é uma doença, mas muitos dos meus colegas acreditam que sim, que algum problema no cérebro de um psicopata o torna menos responsável por seu comportamento. Eu não acredito que as evidências obtidas até agora mostrem isso. E mais. A partir da perspectiva da Psico­­logia Evolutiva, o que os psicopatas fazem tem muito sentido. Tentar entender essas pessoas é que é muito difícil, mas pense no gato e no rato. O rato não entende porque o gato o persegue e o gato não entende porque o rato reclama de algo que o gato foi criado para fazer: perseguir o rato. A partir dessa perspectiva, a Psicologia Evolutiva diria que os psicopatas são produtos da natureza, da evolução, e que foram criados para desempenhar certas funções na sociedade. O maior problema para nós é que enquanto o rato sempre sabe quem é o gato, nós parecemos todos iguais.

Então nós é que teríamos de aprender a lidar com eles?

Bom, este é exatamente o problema. Melhor, são três os problemas. O primeiro é aceitar a ideia de que esses indivíduos existem. O segundo é aprender a identificá-los, sem um teste psicológico, mas no dia a dia. E o terceiro é o que fazer com eles depois de identificá-los. Todos esses três problemas são difíceis desafios. A maioria das pessoas sequer admite que a psicopatia é um problema, a não ser que tenha sido vítima de um psicopata.

Mas para se reconhecer um psicopata é preciso então ser um especialista? Pessoas comuns não conseguem fazê-lo?

Não exatamente. Muitas pessoas sabem quando há algo errado, mesmo que não seja sobre a ótica da psicopatia. Elas sentem se uma pessoa é assustadora ou mesmo se não lhes parece real. A única maneira de realmente identificá-lo seria pegando mais informações, falando com ex-empregadores e professores, família, enfim, pessoas que o conhecem, mas nós não temos tempo, energia ou a inclinação natural para fazê-lo. De forma geral, o mais importante é entender que aquela pessoa que parece ter algo errado pode ser ou não uma psicopata, mas faz bem sempre ser cauteloso e tomar certo tempo para conhecê-la melhor.

Como o senhor desenvolveu a escala PCL-R?

Comecei a pesquisar sobre isso entrevistando uma série de detentos, ao longo de 10 a 12 anos, mas percebi que faltava um método para avaliar as características desses indivíduos. Em 1991 eu publiquei, então, um método para medir a psicopatia para que outros colegas pudessem usar também e entender do que, afinal, eu estava falando. O que aconteceu anos depois é que essa escala tornou-se um método internacional e, com o tempo, estávamos todos usando e entendendo a psicopatia pela PCL-R. Hoje, nem todo mundo concorda sobre o que é a psicopatia, mas sabe o significado de uma pessoa atingir uma marca de 30 a 40 na escala.

Uma de suas pesquisas mais novas fala da psicopatia no ambiente corporativo. O que é essa pesquisa?

Esse estudo deu origem à primeira publicação científica sobre a psicopatia no mundo dos negócios e também ao livro Snakes in suits (Cobras de terno). Nesse ambiente, o psicopata pode ser especialmente bem sucedido e perigoso. Vai se apresentar muito bem, com um currículo impressionante, que dificilmente será checado. Os mo­­­de­­­los de seleção atuais, embora façam a checagem 360º (de antecedentes), desconsideram uma série de traços psicológicos. Neste estudo, eu e outros dois pesquisadores, Paul Babiak e Craig S. Neu­­­mann, entrevistamos 203 executivos. Pela escala PCL-R, oito (ou 3,9%) tiveram somas finais de 30 pontos ou mais, um sério indicativo de psicopatia e maior que a média da sociedade em geral, de cerca de 1,2%. A pesquisa sugere que esses indivíduos que aparentam ser ideais para o ambiente coporativo em um primeiro momento poderão ser responsáveis por grandes fraudes nas empresas no futuro.

Serviço

40ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Psicologia, de 20 a 23 de outubro, no Expo Unimed (Rua Professor Pedro Viriato Parigot de Souza, 5.300, Campo Comprido). Infor­­mações: www.sbponline.org.br ou (16) 3625-9366.

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