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Miriam Brandão, no apartamento onde vivia com o desaparecido Renato: “Se toca a campainha, penso ser ele.” |
Miriam Brandão, no apartamento onde vivia com o desaparecido Renato: “Se toca a campainha, penso ser ele.”
Ausência

O dia em que minha casa caiu

Reportagem acompanha o drama das famílias dos desaparecidos. Histórias se arrastam por anos e paralisam a vida dos parentes. Policiais e assistentes sociais se tornam amparo para aqueles que se negam a fazer luto em meio à incerteza

Texto publicado na edição impressa de 25 de agosto de 2013

O dia em que minha casa caiu Ampliar

“Ele tem 1,67 metro e 67 quilos. É baixinho. Talvez esteja de barba. Não sei como meu marido fica de barba...”, entristece-se Miriam Brandão, à porta do apartamento onde mora, no bairro Ahú, em Curitiba. “Ele” é o engenheiro Renato Brandão, 56 anos, desaparecido desde 13 de setembro de 2011, durante um passeio de bicicleta, levando a chave da casa e R$ 120. Ela não perde a oportunidade de descrevê-lo e de distribuir um dos 2,5 mil cartazes que imprimiu, com foto e telefone.

INFOGRÁFICO: Confira fotos dos locais onde familiares procuram por parentes que saíram de casa e não voltaram

Miriam é uma típica mu­lher de “desaparecido”. Acre­dita que Renato está vivo. Não faz luto, nem pretende, apesar do tempo e da falta de pistas. Incluiu na sua rotina de mãe e trabalhadora o expediente de “buscadora” profissional. Precisa ter nervos de aço. Nos últimos dois anos, aprendeu a circular nos labirintos dos órgãos de segurança pública. E nos labirintos das ruas – não poucas vezes saiu pela madrugada, tirando cobertor do rosto dos mendigos, para ver se um deles não era o Renato – sem memória, mais magro e com barba, como supõe.

Há um imaginário em torno dos desaparecidos, explorado pela ficção, como se pode ver na novela Amor à vida; e pelo noticiário, a exemplo do sumiço do pedreiro Amarildo de Souza, em 14 de julho, na favela da Rocinha. Quem saiu de casa para “comprar cigarros” e não voltou, como se diz, pode ter sido vítima de atropelamento, latrocínio, “queima de arquivo”, distúrbio mental, amnésia ou mesmo dissabores com parentes, para citar alguma das versões mais corriqueiras. Os familiares sempre se perguntam se teria sido enterrado como indigente. Ou se jaz num terreno baldio.

Quem atende no setor confirma. “Fim de tarde é sempre de angústia para quem tem parentes desaparecidos”, diz a delegada Luciana Novaes, do Serviço de Investigação da Criança Desaparecida, o Sicride. “Tem família de desaparecido que liga diariamente para o albergue. Que vai todo dia IML. Já pensou o que é isso?”, acrescenta Rosane Nunes de Deus, coordenadora na Fundação de Ação Social. “Os parentes descobrem que o mundo é muito grande. Onde vão procurar? É triste. Atendo pelo menos dez mães por dia. Muitas me contam que ouvem o filho chamando no portão...”, acrescenta a assistente social do IML Edina Amato.

Tão incerto quanto os mo­tivos do desaparecimento e o destino do corpo é o nú­mero de brasileiros nessas condições. Há dados na De­le­gacia Eletrônica, no IML, na De­legacia de Vigilância e Capturas – órgãos da Polícia Ci­vil do Paraná – e na prefeitura (leia quadro abaixo).

Oficialmente, no Paraná, são 150 desaparecidos. Tudo indica que são mais. Some-se a isso a possibilidade nada absurda de que algumas dessas pessoas tenham cruzado uma fronteira torna qualquer hipótese uma missão impossível: ainda não se desenvolveu um mecanismo que cruze dados nacionais, o que parece longe de acontecer, apesar dos esforços de ONGs e mesmo de alguns setores do serviço público.

“O observatório dos desaparecidos é um projeto em gestação. Ainda vemos os setores que cuidam disso como lugares macabros, de tragédias, e não como um espaço de ciência e dados sobre a sociedade”, lamenta o médico Porcídio Vilani, 66 anos, diretor do Instituto Médico Legal.

Ser ou não ser

Outro problema, contudo, é ainda mais difícil de ser mensurado pelas estatísticas – os estragos feitos às famílias. Passados em média seis meses do desaparecimento, os amigos e parentes tendem a retomar suas rotinas, restando para os mais próximos a solidão da busca e o “fantasma” do desaparecido. Toca o telefone, pode ser ele. A campainha... Um vulto na esquina, pode ser ele, com vergonha de se aproximar. Aquele carro de trás no trânsito. Será? À noite, um barulho na sala. Teria voltado? Sem falar nas contas bancárias e bens congelados, anos a fio, até que o caso se resolva.

“Sinto minha vida paralisada. Meu coração dispara a cada andarilho que vejo. Às vezes, penso que vou chegar do trabalho e encontrá-lo na frente do prédio. Subiremos a escada juntos. Tudo isso terá passado”, conta Miriam, repetindo uma narrativa parecida à feita por outras pessoas que viviam na mesma casa de um desaparecido. É comum que tomem algumas atitudes – como doar todas as roupas ou fazer uma reforma na sala. Mas tendem a voltar atrás, mantendo escritórios e quartos intactos, confirmando o ser ou não ser que imobiliza aqueles que ficam.

“Já ouvi casos de gente que voltou oito ou dez anos depois, sem memória. E se for o caso dele?”, pergunta Miriam, escolada por alarmes falsos: já procurou Renato num morador de rua de Primeiro de Maio, Norte do Paraná; num andarilho de Piçarras, Santa Catarina. Teve esperança ao saber de corpos achados pela Polícia Civil aqui e ali. Foi a programas sanguinolentos. Pagou videntes. Padeceu um trote de mau gosto. “Doutor Leocádio diz que ele está vivo. Vou continuar postando a foto do Renato no Face”, diz a mulher do desaparecido.

Sem tranca na porta dos fundos

Noite de 17 de outubro de 2009. Marcelo Camargo de Jesus, 27 anos, assiste a um filme de Mazzaropi em companhia da mãe, Anadir Alves de Jesus. O telefone toca – convite para um bar. O rapaz diz “já volto”, pega a bicicleta e nunca mais é visto.

Dona Anadir, hoje com 59 anos, perdeu a conta de quan­tas vezes descreveu seu filho para estranhos. “Ele é alto, magro, e gosta de se vestir com agasalhos da Adidas”, explica. Ela carrega uma foto 3 X 4 na bolsa, deixa a porta dos fundos destrancada e nunca mais cozinhou nhoque, prato preferido do rapaz. Incluiu um endereço na sua rotina semanal: o IML. Às vezes, circula no quarteirão do instituto, à espera de coragem. “Eu acho que ele está morto. Mas quero enterrá-lo.”

A assistente social Edina Amato diz que são tantas as Anadires que ela e suas companheiras de trabalho já pensaram em criar o grupo das “Mães do IML”. São especialistas em longa espera. Não descansam. A cada nova ossada encontrada, rumam até lá, acreditando ser dessa vez que tudo vai se resolver. Embora não seja regra, esses desaparecidos crônicos e suas mães têm classe social – são homens, de baixa escolaridade, autônomos e não raro envolvidos com entorpecentes.

Desaparecidos

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