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Paulo Leminski foi o escritor mais lembrado na pesquisa, mas por apenas 0,4% dos entrevistados |
Paulo Leminski foi o escritor mais lembrado na pesquisa, mas por apenas 0,4% dos entrevistados
cultura

O Paraná que os brasileiros ignoram

Pesquisa nacional revela que o estado é um ilustre desconhecido. Causas vão da falta de identidade à não valorização do que é local

Texto publicado na edição impressa de 08 de setembro de 2013

O Paraná que os brasileiros ignoram Ampliar

O escritor Jamil Snege (1939-2003) estava enganado. Para tornar-se invisível em Curitiba não é preciso “andar por essas manhãs de muita neblina”, tampouco “ter um talento genuíno.” Basta existir. Para o azar de quem vive na capital mais fria do Brasil ou em uma das outras 398 cidades do estado, 43,7% das pessoas não sabem em que região do país fica o Paraná. Pior: 49,6% não têm ideia de que a capital é Curitiba.

INFOGRÁFICO: Veja o que os brasileiros sabem sobre o Paraná

Os dados são do instituto Paraná Pesquisas, que ouviu 2.550 pessoas maiores de 16 anos em 177 cidades de todas as regiões do Brasil entre 24 e 30 de junho de 2013. Se a cultura de um povo é seu cartão de visitas, também vamos mal: 96% dos entrevistados não souberam citar o nome de algum músico ou banda do estado – pobres Belarmino e Gabriela. Em relação a escritores, 99,1% não se lembraram de um só autor nascido por essas paragens.

As explicações passam pelo tamanho do país, pelo fato de o Paraná ser um estado relativamente novo, e principalmente pela ausência de identidade, catalisada historicamente pela algazarra étnica dos povos que construíram aqui suas casinhas com lambrequins. Em Curitiba, a dispersão das colônias é um bom exemplo. “Os italianos do Água Verde não se davam com os poloneses do Abranches. Entre diversas etnias, houve ‘guerras’ épicas. Por isso é difícil termos um produto consolidado disso tudo, um povo que pense da mesma forma”, explica Gehad Hajar, escritor e membro do Núcleo de Pesquisas dos Processos Identitários da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Contra a crise de identidade de algo que ainda está em “formação”, a lição de casa é o apoio ao que é local. “Não valorizamos o que é nosso. Tirar o petit-pavé da calçada e colocar um pedaço de concreto é a prova cabal de que o Paraná não compartilha de sua própria história”, brada Hajar.

E parece que só quem vê de fora reconhece: morar em uma cidade do estado é “melhor” do que se estabelecer em outra região do Brasil para boa parte dos entrevistados (35,8%).

O tempo passa...

Bamerindus, Batavo, Prosdócimo, Móveis Cimo, Matte Leão. É tudo história. A ausência de marcas paranaenses conhecidas fora do estado, seja porque faliram ou porque foram vendidas, é um aditivo na fórmula do invisível. Segundo a pesquisa, 87% das pessoas não souberam citar uma empresa ou produto feito por aqui. A marca mais lembrada foi O Boticário, com 1,2%. “A falta de representatividade ajuda a piorar a percepção”, diz o professor de Ciências Políticas da UFPR Ricardo Oliveira, para quem o buraco é mais embaixo. “Há um desconhecimento sobre geografia e cultura geral que denota o problema crônico de educação básica no país.”

Deve ter sido por essas e outras que Paulo Leminski – lembrado por apenas 0,4% dos entrevistados como um escritor paranaense, mesmo com o sucesso da coletânea Toda Poesia – um dia escreveu: “Cuidado, inveja é pecado/ e Deus castiga/ Na próxima encarnação/ Vais nascer em Curitiba.”

Resultado do estudo é realista, mas não pode ser supervalorizado

Desde maio do ano passado a revista Helena – publicação trimestral da Secretaria da Cultura do Paraná –, divulga as manifestações culturais do estado e “redescobre” suas diversas regiões. O jornalista Omar Godoy, editor do suplemento cujo nome homenageia a poeta Helena Kolody (1912-2004), não se descabela com os dados da pesquisa. “Não é um pecado tão grande. Poucos estados têm uma visibilidade maior”, relativiza.

A desconexão entre Curi­tiba e o interior é outro nó. “Se o Paraná não se conhece, como vamos querer que todo mundo nos conheça?”, provoca. Um dado que comprova a tese é a demora na ligação entre Curitiba e Londrina, só consolidada com a inauguração da Rodovia do Café, na década de 60.

Nem ele

Ganhador dos prêmios mais importantes da literatura nacional com seu livro Filho Eterno (2007), o escritor Cristóvão Tezza – nascido em Santa Catarina, mas curitibano de falar “vina” e “penal” – não foi nem sequer citado pelos entrevistados. “No país, o número de leitores é insignificante. A pesquisa é um reflexo realista, mas não pode ser supervalorizada”, alerta ele, que também é colunista da Gazeta do Povo.

Além de “jovem”, Tezza afirma que o Paraná é ainda “bruto”, um estado em processo de construção. Por isso o estudo, que “daria no mesmo se fosse feito em outro estado”, não o preocupa. “Às vezes nos perguntam qual é a capital do Amapá e ficamos meio perdidos, não é?”

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    • Simples..... na televisão passa somente coisas de São Paulo, quando ao nosso futebol que seria a divulgação do estado, para o nosso estado. Quando temos jogos dos times do interior em Curitiba, a torcida de Curitiba teria que trata-los bem, ao contrário querem humilhar nosso interior. Verifique na Folha de Londrina se tem algum artigo dos times de Curitiba ? Falta união, é muito triste......... - Ricardo Absoluta - 21/11/2014 10:27:13
    • A Gazeta do Povo bem podia ajudar a mudar isso. A começar por divulgar mais trabalhos bacanas de artistas locais que não fazem parte de nenhuma tribo... Porque o curitibano é desconhecido em sua própria cidade, não apenas pelo resto do mundo. Sugiro um trabalho específico www.facebook.com/borboletasnaobabamletras - aluísio de paula - ± 1 mês
    • Não vou discordar dos dados (afinal, foi uma pesquisa bem feita), mas não acho que a arte de nossa região seja tãaaaaao desvalorizada assim. Estagiei na Divisão Paranaense da Biblioteca Pública Do Paraná e fiquei impressionado com o tanto de pessoas que procuravam por livros de poesia, artes gráficas, revistas e romances paranaenses. Todos os dias são movimentados nesta divisão. Quanto as bandas, já fui em shows lotados da Solution Orchestra e vi o carinho dos fãs em shows do Blindagem (quando o Ivo ainda estava vivo). Também temos inúmeras bandas de Hardcore bastante reconhecidas na nossa região (e fora) e houve um tempo em que existiu o gênero Funk Curitibano. Não adianta perguntar para as - Bruno Bonatto - ± 1 mês
    • Continuação - perguntar para as grandes massas sobre isso, pois afinal, a maioria das pessoas tem seu conhecimento cultural baseado no que a Rede Globo mostra. Mas, pelo meu conhecimento, nossa cultura tem identidade e é bastante valorizada. - Bruno Bonatto - ± 1 mês
    • Uma vez andando pelo interior do Paraná percebi que o morador de Londrina não gosta de Maringá, Campo Mourão não gosta de Maringá e Toledo não gostam de Cascavel e todos eles juntos não gostam de Curitiba ou nunca vieram a Curitiba ou acham os curitibanos boçal. Fiquei impressionado com essas constatações e procurei saber o porquê perguntando as pessoas das cidades citadas e nenhum resposta foi plausível, não sabiam explicar as razões. Sempre que a gente sai do Paraná a nossa localização também é questionada e acham que aqui só moram pessoas loiras de olhos azuis. Faltam divulgações e informações mais adequadas. - Osni - ± 1 mês
    • É realmente meio difícil um estado que se auto-intitula um "Brasil diferente" ser lembrado nacionalmente. Sobre esta falta de identidade, principalmente cultural, Leminski foi certeiro quando escreveu "Sem sexo neca de criação", falando que nossa colonização europeia, que tanto valoriza o trabalho e reprime o ócio criativo, é uma das grandes culpadas disso. Mas o que os entrevistados têm razão. Se fizessem aqui uma pesquisa nos mesmos moldes falando de um estado que não seja BA, MG, RJ, SP ou RS também sairíamos muito mal. - Ana Cristiny - ± 1 mês
    • a capital do Amapá é Macapá.... e a capital de Dakota do Norte é Bismark e o município de Curitiba é menor que o de São José dos Pinhais. Qual é a outra pergunta? - Fudoshin Dojo - ± 1 mês
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