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Orgânicos

Os rebeldes do prato

Os alimentos orgânicos se tornaram uma causa que congrega doutores da academia e pequenos agricultores da região metropolitana de Curitiba

Iniberto, da Emater; a consumidora Joyce; o produtor José Marfil e Gessi Zampieri , da Acopa: comunidade orgânica soma militância e informação |
Iniberto, da Emater; a consumidora Joyce; o produtor José Marfil e Gessi Zampieri , da Acopa: comunidade orgânica soma militância e informação
 
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Os rebeldes do prato

Os amigos da recepcionista Joyce Sponchiado, 70 anos, nem imaginam que convidá-la para almoçar em casa pode acabar em flagrante. Consumidora de alimentos orgânicos desde que morava em Palmeira das Missões, no Rio Grande do Sul, Joyce garante que é capaz de abrir uma geladeira e identificar a presença de alimentos que foram produzidos com a ajuda de agrotóxicos. “Esse aqui não. Vamos chegar aos 130 anos”, adverte os amigos, enquanto tira de sua frente um maço de rabanetes. “Já convenci a Almira, a Olívia, a Idê e o seu Paulinho. E costumo checar se estão usando mesmo.” A recepcionista puxa o assunto sempre que pode e chega a levar hortaliças orgânicas para incentivar colegas de trabalho.

Joyce faz parte do grupo de adeptos da cultura dos alimentos orgânicos em Curitiba. A rede é heterogênea e engloba produtores, cooperativas, consumidores, organizações não governamentais e iniciativa pública. Uma de suas particularidades é a ausência de filtros econômicos e culturais. Embora o consumo orgânico seja uma prática dos mais informados, não raro um pequeno agricultor é parceiro de debates de um catedrático.

Ainda que não necessariamente articulados e agindo de maneiras diferentes, os curitibanos pró-orgânicos defendem a mesma causa. “Não é só a comida que está em jogo. Tem toda a preo­­cupação com o meio ambiente e com novos hábitos. Isso sem contar as relações pessoais cultivadas a partir da conversa direta com o produtor”, defende Gabriel Gallarza, 32 anos, consumidor de orgânicos há três.

Eles ainda são poucos. Se­­gundo a Secretaria Municipal de Abastecimento, em 2008, 20 mil pessoas circulavam pelas feiras de orgânicos de Curitiba semanalmente. Mas o grupo cresce. De lá para cá, as vendas no primeiro trimestre aumentaram entre 11% e 15% ao ano. No Pa­­raná, a demanda por esses alimentos cresce entre 30% e 50% anualmente, de acordo com o Instituto Paranaense de As­­sistência Técnica e Extensão Rural (Emater).

O aumento da procura pelos orgânicos é uma boa notícia para Moacir Darolt, engenheiro agrônomo do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Darolt faz o tipo militante em tempo integral. Nem o título de doutor em Meio Ambiente pela Univer­sidade Federal do Paraná (UFPR), nem a presença certa como palestrante em congressos do ramo lhe roubam o prazer de panfletar e propagar os ganhos da cultura orgânica. É autor do livro Agricultura orgânica: inventando o futuro, está escrevendo outro sobre formas de aproximação entre consumidores e produtores, produz guias e cartilhas educativas e ainda cultiva seus próprios orgânicos em uma pequena propriedade.

“Para que o movimento cresça, é importante atingir diferentes setores da sociedade, como a escola e a universidade”, afirma Darolt. Segundo o pesquisador, o trabalho não se limita a falar sobre os benefícios da agricultura orgânica para a saúde e para o meio ambiente: o desafio é educar para o consumo. Isso significa diversificar a cultura alimentar, resgatar a noção de épocas dos alimentos e até estimular a produção de hortas em casa, por exemplo. “As pessoas estão acostumadas a comer as mesmas coisas o ano inteiro. Há uma redução na diversidade na cultura alimentar. E é uma redução para culturas com maior nível de resíduos de agrotóxicos.”

Orgânicos serão um nicho de mercado

Para o professor de Economia Rural da UFPR Eugenio Stefa­nelo, a produção de orgânicos não vai substituir a agricultura convencional e será sempre um nicho de mercado, podendo chegar ao patamar máximo de 10% da produção total. A menor produtividade e a dificuldade de produção em grande escala impede que o sistema seja adotado por médios e grandes produtores. “Quem vai continuar é o pequeno produtor, com disponibilidade de mão de obra familiar e em função da pequena produção, que tem que ter um plus de preço”, explica.

Para atingir a produtividade da agricultura convencional no sistema orgânico, se­­riam necessárias áreas maiores, colocando biomas nativos em risco. Stefanelo lembra também que os dois sistemas apresentam problemas quando mal- aplicados. “A agricultura orgânica mal-feita contamina o lençol freático com coliforme fecal. A convencional, contamina com nitrato”, explica. “Temos que tirar da cabeça das pessoas o estereótipo de que a orgânica é boa e a convencional é ruim. As duas dependem das práticas que usam”, diz.

Sempre aos sábados no Passeio Público

O Passeio Público é o principal ponto de encontro da rede da cultura orgânica em Curitiba. Aos sábados pela manhã, entre mexericas e tomates, um estande atrai frequentadores de velha e nova data. No espaço, a Associação dos Consumidores de Produtos Orgânicos do Paraná (Acopa) divulga práticas de alimentação saudável e de comércio solidário. Uma das voluntárias é Gessi Zampieri, encarregada dos passeios e cursos promovidos pela associação.

Enquanto entrega cartilhas, vende camisetas e agenda os passeios promovidos pela Acopa pelas rotas de produção, Gessi atende conhecidos que param na barraca. “Formamos uma família que se encontra todo sábado e toma um chimarrão”, conta Gessi, sobre uma conversa que não acontece nos mercados e feiras convencionais.

Além de eliminar intermediários que encarecem os produtos orgânicos, a aproximação entre os consumidores e produtores permite, por exemplo, que o agricultor José Marfil, produtor de orgânicos desde 1994, explique aos clientes o motivo de os preços dos tomates estarem altos entre abril e novembro – a hortaliça está no período de entressafra. Como quem produz também comercializa, a procedência do alimento é garantida.

Outra presença frequente na barraca da Acopa é Ralph Miller, um dos fundadores da entidade. Sobre como conheceu a cultura dos alimentos orgânicos, Miller dá uma resposta de peso histórico: “Quando eu tinha a sua idade, só tinha orgânico”, afirma o engenheiro aposentado, nascido em 1921. Ele diz ter visto a introdução dos insumos químicos na agricultura. “Foi a época da célebre ‘revolução verde’. Hoje, vemos que a coisa não é o que se pensava”, relembra Miller.

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