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Medicina

Salário e plantão influenciam escolha de carreiras médicas

Comissão de Residência registra alta procura por áreas como dermatologia e oftalmologia no país. Já vagas de pediatria e ginecologia ficam ociosas

  • Rafael Waltrick
Exceção à regra, o recém-formado Rafael Vanin de Moraes, 25 anos, vai tentar uma vaga de residência na área de clínica médica: questão de gosto pessoal |
Exceção à regra, o recém-formado Rafael Vanin de Moraes, 25 anos, vai tentar uma vaga de residência na área de clínica médica: questão de gosto pessoal
 
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Melhor remuneração e menos carga de trabalho. Esses atrativos têm influenciado a opção de médicos recém-formados por algumas especialidades no país. Neste ano, os programas de residência registraram uma maior concorrência por vagas em áreas como dermatologia, oftalmologia e otorrinolaringologia. Enquanto isso, especialidades tradicionais, como ginecologia e obstetrícia, sofrem com a baixa procura: das 3.011 vagas disponíveis para residência em 2011, 36% ficaram ociosas. Outras como psiquiatria e anestesiologia também sentem o mesmo problema. Apenas 73% e 74% das vagas disponíveis, respectivamente, foram preenchidas, segundo a Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM).

O número de vagas ociosas reflete um cenário que permanece inalterado pelo menos há três anos no Brasil. Um estudo do Núcleo de Educação em Saúde Coletiva (Nescon) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), divulgado em 2009, mostra que anestesistas e psiquiatras, junto dos pediatras, são os três profissionais mais em falta nos hospitais, unidades de saúde e planos privados.

Segundo gestores entrevistados pelos pesquisadores em todo o Brasil, entre as principais razões para a dificuldade na contratação desses especialistas estão a falta de profissionais titulados e o fato de os médicos considerarem baixa a remuneração paga. Atualmente, o Nescon prepara outra pesquisa sobre o assunto, que deve ser publicada ainda neste ano.

“Os novos estudos têm mostrado que, em relação às demandas dos hospitais, a falta de pediatras vêm se agravando”, relata o pesquisador Sábado Nicolau Girardi, da UFMG. “Hoje, cerca de 70% dos gestores entrevistados até o momento estão reportando um alto grau de dificuldade de contratação desses profissionais, tanto em áreas metropolitanas quanto no interior dos estados.”

Apesar disso, a pediatria segue como a terceira maior especialidade com médicos ativos no país: 21.722 profissionais. Três vezes mais do que o total de psiquiatras – são 6.255 no Brasil e apenas 408 no Paraná. Neste ano, das 2.609 vagas disponíveis no país para residência em pediatria, 1.987 foram ocupadas.

Mercado

O presidente da Comissão Estadual de Residência Médica do Paraná, Adriano Keijiro Maeda, reconhece que a valorização de certas especialidades não têm seguido, em parte, as demandas apresentadas pelo sistema de saúde. “Ao escolher a residência, o médico tende a seguir um desejo pessoal, mas ele também busca aquela carreira que, financeiramente, é a mais viável, de acordo com o mercado”, afirma.

Para o representante da Associação Médico Brasileira na CNRM, José Bonamigo, não se pode ignorar o fato de que o perfil dos médicos recém-formados mudou e, hoje, qualidade de vida é um fator decisivo no momento de escolher qual área seguir. “Atualmente, há uma grande procura por especialidades com carga de trabalho menor, que privilegiam o atendimento no consultório, sem necessidade de emergências e plantões, e que remuneram melhor”, confirma Bonamigo.

Entidades são contra regulação do governo

Para o pesquisador do Núcleo de Educação em Saúde Coletiva (Nescon) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Sábado Nicolau Girardi, a disparidade entre demanda e oferta observada nas especialidades médicas é resultado da inépcia do governo federal em definir diretrizes e números de vagas para os programas de residência médica. “Um melhor planejamento deveria ser trazido à tona. O estado tem um papel regulador, que é verificar necessidades e demandas de saúde e, a partir daí, incentivar uma melhor distribuição dos profissionais, seja por especialidade ou região”, avalia.

A hipótese de regulação do mercado, porém, é rechaçada por entidades do setor e profissionais. Para o representante da Associação Médica Brasileira na Comissão Nacional de Residência Médica, José Bonamigo, a discussão é complexa porque “existe pressão do governo para baratear a mão de obra médica”. Segundo Bonamigo, qualquer ação deve priorizar, antes de tudo, a valorização dos profissionais.

“Hoje, o governo tem o direito de escolher as vagas que quer fomentar, por meio de bolsas melhores ou benefícios durante a residência. Porque não estabelece, então, planos de carreira para certos profissionais, como médicos de família e pediatras, que atuam no setor público?”, questiona.

Empecilho

Para os médicos, a baixa remuneração ainda é o principal empecilho para resgatar a busca por especialidades como a pediatria. “Não há como expurgar dessa análise o fato de que o ganho do médico está muito pequeno. As especialidades que continuam tendo maior procura são aquelas que usam mais exames e em que as tabelas de convênio dos planos de saúde ou do SUS [Sistema Único de Saúde] pagam bem pelo procedimento”, afirma o coordenador da Residência Médica do Hospital das Clínicas de Curitiba, Angelo Luiz Tesser.

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