• Carregando...
Um dos presos na Operação Publicano: críticas na internet. | Roberto Custódio/Jornal de Londrina
Um dos presos na Operação Publicano: críticas na internet.| Foto: Roberto Custódio/Jornal de Londrina

Na guerra, a verdade é a primeira vítima, já advertia o grego Ésquilo há 3,5 mil anos. Na batalha pela conquista da opinião pública, a disseminação de factoides ganha força num ambiente de agitação política. Na semana passada ocorreu o episódio do habeas corpus (HC) preventivo impetrado em favor do ex-presidente Lula, bastante revelador dessa disputa pelo predomínio do discurso. Houve os que viram ali a confirmação de que seu desejo de ver Lula preso se realizaria em breve; outros aproveitaram para jogar no vento os ataques do autor do HC ao juiz Sergio Moro.

Anonimato facilita “violência virtual”

O anonimato é a origem dos problemas causados pela multiplicação dos factoides na internet,diz o advogado Guilherme Gonçalves. “O pior das redes sociais é propagar informações sem que o atingido possa reagir”, afirma. “O anonimato possibilita o que chamo de efeito estádio de futebol: o cidadão mais calmo do mundo, quando protegido pelo anonimato da arquibancada, passa a xingar violentamente quem vê pela frente.”

Gonçalves ressalta que não há direito absoluto, nem no caso da liberdade de expressão. “Sou absolutamente um defensor da liberdade de expressão, mas as pessoas não podem afirmar impunemente tudo que lhes vem à cabeça sem se identificar. O artigo 5º da Constituição Federal garante a liberdade de expressão mas veda o anonimato ”, diz. “Isso ganha importância se considerarmos que estamos no terceiro paradigma filosófico da humanidade. Primeiro foi o paradigma teológico, depois o antropocêntrico e agora o da linguagem, em que o ser humano existe porque se comunica”, analisa.

O aumento explosivo das possibilidades de comunicação prejudicou a privacidade e expôs agentes políticos ao bombardeio na internet. “Não há debate nas redes, mas guerras de posições”, diz Gonçalves.

No Paraná, a investigação de corrupção na Receita Estadual fez surgir um blog dedicado a atacar os promotores e o juiz responsáveis pela Operação Publicano. “Essa disputa pelas mentes não é nova. O que mudou é que aumentou muito o número de produtores de conteúdos e a produção saiu do controle”, diz o cientista político Emerson Cervi, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A grande disponibilidade de informação nem sempre ajuda e pode até atrapalhar o debate, alerta Cervi. “O autor do HC do Lula é no mínimo um desequilibrado mental e a iniciativa dele foi usada nas redes sociais por pessoas ligadas ao partido Democratas. Em seguida os veículos tradicionais entraram nessa não-notícia, pois estão correndo atrás do que acontece na internet e então houve essa grande confusão por nada”, analisa.

O HC foi impetrado por um “consultor” de Campinas após uma bebedeira, sem o conhecimento de Lula. O juiz Sergio Moro divulgou nota esclarecendo que o petista não é está sendo investigado na Operação Lava Jato.

O advogado Guilherme Gonçalves faz coro com Cervi sobre o exagero na divulgação do habeas corpus preventivo em favor de Lula, que acabou sendo negado no Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, com a justificativa de que não há o risco iminente de que o petista seja preso. “Ficou claro que o sujeito que impetrou o habeas tem problemas mentais. O problema não foi o HC ter sido impetrado, mas a lógica da radicalização política que levou a assessoria do senador Ronaldo Caiado a divulgar algo equivocado e tão forte que causou queda na Bolsa de Valores”, afirma.

Bastante comum nas redes sociais e blogs é a acusação a Moro de ser “tucano”. Em Londrina, o trabalho dos promotores do Gaeco também tem sido atacado na internet. “A internet é onde se prega para convertidos, o que também é importante. Eles estão lá para reforçar suas posições, não para debater”, observa Cervi.

0 COMENTÁRIO(S)
Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Máximo de 700 caracteres [0]