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  • Rogerio Waldrigues Galindo
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Dizem que Jamil Snege só aceitava fazer campanha para quem tinha dinheiro de sobra. Não por ganância. Mas é que ele tinha pena de ver um sujeito gastar tudo o que tinha numa eleição que não tinha chance de ganhar. Se a pessoa chegava lá e dizia que ia vender o único apartamento para tentar ser vereador, ele não só recusava o cliente como insistia para a pessoa desistir do plano.

Conseguir um cargo eletivo no Brasil é caro, caríssimo. Os números que chegam ao TSE são assombrosos, e agora a gente sabe que aquilo é só uma pontinha do que é gasto de verdade. Gastam-se fortunas para fazer um deputado. E há quem esteja disposto a despejar montanhas de dinheiro para montar uma bancada. Num país tremendamente desigual, isso resulta numa obviedade: os ricos têm representação infinitas vezes maior do que os pobres.

Assim como a quantidade de homens no Congresso é absurdamente desproporcional, a bancada de empresários é um absurdo se comparada com a participação da classe no Parlamento. Um levantamento mostrou que 40% dos deputados federais são da bancada empresarial. Evidente que isso não representa o país como ele é. Representa quem tem como pagar para ser eleito.

O problema é que política é quase sempre conflito de interesses. Na verdade a política só existe porque há conflito de interesses. Um quer o país de um jeito, Outro quer de outro. Cada grupo quer puxar a brasa pra seu peixe. E tem que tem algum jeito de se mediar isso sem que as pessoas precisem resolver tudo na base do tacape. Resta eleger representantes e criarmos uma cláusula de que o resultado das votações deles vale, literalmente, como lei.

Tudo muito lindo – é isso que é a democracia, uma das melhores coisas do mundo, ao lado da música, do chocolate e da penicilina. Mas quando o sistema tem um defeito de nascença (como o preço de um mandato), um dos lados acaba prevalecendo sobre o outro de maneira avassaladora. E quando chega na hora de disputar uma coisa em que empresários e trabalhadores têm interesses distintos, o bicho pega para quem tem representação minguada.

Ainda mais num país onde a mobilidade social é ridícula, como no Brasil. O que acontece é que os deputados que estão lá não apenas são ricos. Eles nasceram ricos. E daí ficam participando de eventos de luxo, como aconteceu em Foz do Iguaçu neste fim de semana, onde entre uma aula de vinhos e um test-drive dos novos modelos da Mercedes os políticos do PSDB, capitaneados por João Doria e Beto Richa, pregaram a necessidade de o povão apertar o cinto.

É evidente que a Previdência brasileira está um caos e que precisa de reformas. É óbvio que nem sempre se pode pagar tudo com dinheiro público e que é preciso equilibrar gastos. Mas também é preciso que fique igualmente claro que os trabalhadores têm todo o direito de achar estranho que seus direitos sejam discutidos e decididos por uma minoria que só é maioria na hora de votar o destino do país – e especialmente de seus habitantes mais pobres.

É por essas e outras que a reforma mais importante continua sendo a do sistema político. Para que as coisas todas possam ser discutidas com um pouquinho mais de propriedade e de justiça.

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