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O jornal e a omelete

  • Rogério Waldrigues Galindo • rgalindo@gazetadopovo.com.br
 
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Isto que você está lendo é uma coluna de jornal. Mas a partir de agora você está autorizado – pelos integrantes da mais alta corte jurídica do país! – a chamar esse texto de omelete. Até esta semana eu não sabia, mas as duas coisas são equivalentes. Pelo menos é o que ensinaram a nós todos os sábios ministros do Supremo Tribunal Federal, durante a sessão em que julgaram a necessidade do diploma para exercer a profissão de jornalismo.

Durante o julgamento, o presidente do STF, Gilmar Mendes, achou por bem comparar a função do jornalista com a do cozinheiro. Sem nenhuma ironia, fico honrado. Só o que sei cozinhar são ovos fritos (aprendi assistindo à Escola de Governo de Roberto Requião). E admiro profundamente quem sabe fazer boa comida.

A maioria de meus colegas de profissão ficou indignada com a decisão do STF. A partir de agora, não é mais necessário ter diploma para ser jornalista. Isso traz preocupações sérias sobre os rumos da nossa imprensa. Mas eu, pessoalmente, fiquei estarrecido por outro motivo. O que me chocou foi a superficialidade dos argumentos dos ministros durante a discussão.

Normalmente, criticamos os atos dos nossos governantes nos dois outros poderes – Executivo e Legislativo. O Judiciário escapa imune. Até porque nós não entendemos muito do que eles falam. A maior parte dos assuntos, quando tratados pelos sábios de toga, parece altamente bizantina. E tendemos a pensar que se trata de gente tremendamente preparada.

Mas agora vi os ministros julgarem um assunto que conheço bem. Afinal, é a minha profissão. Vivo isso há anos. Penso nisso há pelo menos uma década e meia. Sei do que estou falando. E pude perceber nitidamente que os ministros, eles sim, não sabiam do que falavam.

A comparação entre o jornalista e o cozinheiro já é, por si, bastante estranha. Segundo Gilmar Mendes, não seria um diploma que impediria um cozinheiro de causar danos a seus clientes. E não é o diploma que impede o jornalista de atingir a honra de alguém. Porém vejamos. A não ser que um cozinheiro queira deliberadamente envenenar a comida, pouco poderá causar de prejuízo a alguém. Gosto ruim seria o maior problema possível. Mas um jornalista que não conheça o Estatuto da Criança e do Adolescente, só para citar um exemplo, mesmo que não queira fazer mal a alguém pode fazê-lo sem querer.

Outro ministro, Ayres Britto, fez uma declaração ainda mais estranha. Do alto de sua sabedoria, declarou que jornalismo é uma arte, mais do que uma técnica. Oras bolas, virei artista agora. Não sei escrever um verso sequer. E meu conhecimento sobre pintura, já disse meu irmão, se reduz à Mona Lisa e à Guernica, sendo que às vezes confundo as duas. Mas, secretamente, me diz o ministro, sempre fui artista.

Achava eu, em minha ignorância, que jornalismo era uma técnica, que envolve conhecimento de ética, legislação, de uma imensa literatura sobre a área. Que envolve o domínio da escrita (o que pode causar a confusão com arte), mas também da apuração, da edição, da hierarquização de informações.

O que me deixou estarrecido, no fim das contas, foi pensar que os ministros podem saber tão pouco sobre os outros assuntos que julgam. Podem ter o mesmo conhecimento raso sobre os índios e a Raposa Serra do Sol, sobre células-tronco e aborto.

Me preocupo sim com a qualidade do nosso jornalismo, que é fundamental para a sociedade. Mas passei a me preocupar mais ainda com a qualidade do nosso Judiciário. Nós continuaremos aqui, fazendo nossos modestos omeletes, nossa arte. E os sábios togados continuarão lá, mudando os rumos do país com suas decisões que, agora passo a suspeitar, são menos bem pensadas do que podemos imaginar.

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