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Morte e vida do São Francisco

  • Rhodrigo Deda - rhodrigod@gazetadopovo.com.br
 
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O bairro São Francisco chegou a um impasse que vai determinar a qualidade do lugar na geopolítica econômica de Curitiba na próxima geração. Pode se tornar uma região moribunda, com vida noturna desértica, ocupada pelo vício do crack, pichações e ladrões de carro. Mas pode também se tornar uma mola propulsora da economia criativa da cidade.

O fato que vai determinar isso parece um tanto banal. Há uma polêmica instalada sobre a possibilidade de fechamento do bar “O Torto”. Para relembrar: o Ministério Público pede na Justiça o fechamento do bar. Um grupo de moradores da região fez um abaixo assinado pedindo o fim da Quadra Cultural. Arlindo Ventura, o “Magrão, dono do “Torto”, reagiu organizando uma petição em favor do estabelecimento.

Morte

O fim do “Torto”, e eventualmente de outros bares, vai prejudicar a segurança da região. Sem pessoas na rua, a vizinhança fica solitária, somente habitada por gente escravizada pelo crack, traficantes e assaltantes. Acabar, limitar ou reduzir a vida noturna na região transformará o São Francisco num bairro zumbi.

A possibilidade do fim do “Torto” deveria também causar preocupação em donos de bares de outras regiões. Como o Ministério Público tem o dever de agir com igualdade para quaisquer situações que se depare (é o que se espera do Poder Público), pode passar a se preocupar com outros lugares, como Batel, Batel Soho, Alto da XV. Nesses bairros existe uma situação idêntica à do “Torto” – há barulho de pessoas e carros, há atividades ilícitas (tráfico, consumo de drogas, motoristas dirigindo embriagados, som alto, assaltos, ação de pichadores).

Vida

O leitor pode estar se questionando o que tudo isso tem a ver com economia criativa. Além de boas universidades, empresas de tecnologia e mão de obra qualificada, é preciso que as cidades tenham um ambiente estimulante e agradável para o desenvolvimento da inovação. E um dos componentes disso é uma cena noturna interessante, com teatros, música e bares de diferentes perfis, que estejam aptos a ser ponto de convergência de profissionais que trabalhem em áreas criativas.

O bairro São Francisco se tornou talvez a região em que há maior diversidade de tribos e tendências confluindo para a troca de experiências criativas. É possível encontrar no bairro militantes políticos de esquerda e de direita, estudantes universitários, marqueteiros, artistas e músicos convivendo de forma democrática. O bairro tem à sua disposição o Museu Paranaense, o “Memorial de Curitiba”, a feira de domingo, lojas de estilistas de roupas, as salas de teatro da 13 de Maio, praças (entre elas a do Gaúcho), belas casas antigas e um circuito único de bares e restaurantes de várias matizes e público. É de ambientes assim que nasce a criatividade, algo que o Rio de Janeiro e Tel Aviv já descobriram.

Mobilização conjunta

Caso o “Torto” venha a ser fechado por ordem judicial, a cidade de Curitiba estará cometendo um equívoco que será lembrado pela posteridade. Pelas qualidades que possui, o São Francisco pode se tornar o primeiro centro genuíno de inovação da cidade.

Mas, para isso, será necessário um esforço de moradores, frequentadores, governo estadual e prefeitura. Em vez de se prosseguir nesse movimento inibidor de cultura, que seguramente irá piorar a violência e a qualidade de vida no bairro, esse momento deve ser de entendimento. Há uma oportunidade para o São Francisco. Moradores e apreciadores do bairro deveriam estar juntos e dispostos a fazer um pacto de boa convivência.

Se isso ocorrer, será difícil que o Ministério Público não esteja aberto a rever o seu posicionamento inibidor. E se a Promotoria do Meio Ambiente perceber que o melhor caminho é estimular o desenvolvimento da qualidade do lugar, será mais fácil fazer prefeitura e governo estadual se envolverem, independentemente de mesquinharias partidárias. Então a sociedade junta teria condições de iniciar um movimento cultural transformador.

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